A BATALHA SEM FIM
AQUILINO RIBEIRO


AQUILINO RIBEIRO

A BATALHA SEM FIM

Quinto volume

CRCULO DE LEITORES

1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa 


A Jos Leal

Foi a sua mo bizarra que me levou  assombrosa terra de bosques e de dunas, martelada pela onda, que pretendi pintar. Por mortia manh de Inverno, na fronteira, o seu abrao de despedida ao amigo, que se resignava  perda de bens e amores para no perder a liberdade, condensava a ternura toda de Portugal, nosso malfadado bero. Em memria dessa hora, com as cegonhas de colo alevantado nos negrilhos altos a presenciar o meu transe, escrevo agradecidamente o seu nome na padieira deste livro. Se lhe merecer uma saudade, se, por outra, atrair um olhar    'piedoso para os prias do mar, alcanou o meu trabalho a recompensa sonhada.

Tui, Primavera de 1932.

AQUILINO RIBEIRO

O Senhor da boa fortuna estava aparelhado, redes e

cordas na cale,  popa o arrais,  proa o vareiro; muitos homens nos castelos com os remos formados, restos  manobra; outros de ombros contra os costados da nave

em que vinha chocalhar a onda, ora de arremesso, ora

brincando;  muleta, com o regedor de terra, uma cfila de mulheres e o resto da companha. j o ritmo que **corijup as foras para o arranco extremo era salmodiado:

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O v,  chapa'  salhal quando repercutiu ao alto da praia um aulido gemebundo: - Ail, arretem.      Ail!

O arrais volveu olhos e avistou Domingas, sua mulher, que corria para a borda de gua, braos a espadanar, a fralda e a brancura das pernas gordas em remoinho como alcaravo desasado. Entretanto, a vaga macia e longa, afiada em cunha, que insinuando-se por debaixo do barco o suspenderia e levaria no refluxo melhor que andilhas, repicava na terra. O meia-lua encabritou-se e recaiu duas e trs vezes enquanto a companha tresmalhava chapinhada pelo mar. S naquele instante devia de aparecer a coruja do inferno'

- Raios te abrasem' - murmurou o Mira quando,

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pesaroso da boa largada, a viu em face, ofegante, sem

poder despedir voz.

-No entrem ao mar... que acarreta desgraa. Morreu o mestre...

- Perdeste a sina, mulher do diabo'? Ainda no h grandes horas que o deixei com sade...

- Homem, morreu' No repararam h bocado que chamaram o ti Lzaro?... Foi por isso...

- Ah, cadela de vida' - gorgolhou Rodrigo Pamplino, que era casteleiro, sacando o gorro. - Padre Nosso, que estais no Cu...

Homens e mulheres oravam, cabea baixa, descoberta, virada ao mar traioeiro. Dum verde fosco, a gua cobria-se de cintilas de oiro que o Sol da tarde filtrava atravs de nuvens cinzentas, mais raras que velos carmeados. Longe, para l das cem cordas, o Deus ande comigo, de pequeno que era entre oceano e firmamento, lembrava gara boiando. Acima do cicio das rezas, a

onda continuava a vascolejar, erguendo e deixando cair de sopapa o Senhor. da M fortuna, Quando acabaram de encomendar ao Altssimo a alma que se desprendera do barro, ordenou o arrais em tom soturno:

- Gentes, toca a calar o barco' Vieram os bois e, em rolos, montados sobre grossas varas de pinho, iaram a embarcao para a borda. E sombreados pela asa da morte, de ar profundamente pria nos andrajos que mal lhes cobriam a nudez, vagarosos, recurvos a vencer a mvel areia, os trinta e cinco martimos foram destroando.

Sentido com o passamento de Pedro Algodres, mestre

e amigo de tantos anos, o Mira estarreceu no castelo da popa, lgubre e meditabundo. O Pai do Cu o acolhesse no misericordioso selo que por aquela corda de praias, da Nazar a Matosinhos, estava para nascer segundo. Medo, abaixo de Deus, nunca ningum lhe vira confes-

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sar. Ento, opinio de si - nem fumo. As vezes que corria com a gente a sorte do mar encapelado, lanava mo ao remo, pois no era sujeito para desautorizar o arrais, tirando-lhe a vara. Mas honra a quem a merece' Se comandar  reger homens por urna vontade, ele era capito e soldadesca os mais. A sua intrepidez tornava a todos intrpidos. Engano que o homem do mar seja em

regra audaz. Mais que o bicho da terra tem ocasio de ser animoso e necessariamente o . Na espcie humana, porm, no existe outrem mais atreito ao contgio do temor e do brio. Um cobarde, se lhe do ncoras, converte uma tripulao inteira em bandada de capes; um bravo rompe com ela, herica e destemida, at o meio do inferno. Com o Algodres a bordo, andava-se no

mar com igual descanso do cho firme. Ningum lhe ouvia voz ou   lhe notava tremor; se havia perigo, ento sim, era o primeiro como na tropa: presente' Um ano, fins de Outubro, havendo~se abalanado com tempo incerto at o extremo das cordas, foi caso que j ele, como arrais, responsara o lano: " Rede largada s guas  Virgem  encomendada; seja louvado e adorado Nosso Senhor Jesus Cristo!" quando veio um golpe de mar e bifou a mo-de-barca das unhas do calador. Credo, h mais de quinze anos que montava o cavalo de pau, avaria daquelas era novidade! A toda a lufa remaram  r, mas a vaga sumiu-lhes a corda, aparecendo braas alm a serpentear, a submergir-se e a emergir to agitada que mostrava mais jeitos de hidra que de cabo feito com o linho dos teares. Graas  presena do mestre os homens no haviam perdido o sangue-frio; o risco, porm, a cada instante se acentuava, e, se no os coraes, os rostos, plidos como na hora da morte, diziam-no sem disfarce.
O grave  que subitamente enfurecera o mar, erguendo serras, a altearem-se e a esborralharem-se umas atrs das outras, que tinham, santo Deus, mais altura que casas.

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Uma libra em oiro a quem for apanhar o cabo@. .
- exclamou Pedro Algodres, alando-se nos castelos e passeando olhos pelas duas filas de remadores. - Vai por este remo to seguro como por uma ponte...

Ningum deu mostras de tentado e ele disse:
- Eu vou l, mas sou pesado. Seja o que Deus quiser. Lavagante, s homem para aguentar o remo comigo na p? s? Cospe s unhas...

Aliviou-se de tudo o que trazia no corpo salvante a

camisola e, benzendo-se, desceu pelo remo como poderia descer um lagarto. No tope enclavinhou as pernas, e  semelhana de palhao na barra fixa deixou-se ir de cabea para baixo. Aparecia e desaparecia a corda, no se

afundando de vez  fora de baldeada pelo mar e, ainda, por um coiro ficar a poucos metros do chicote. Consoante ela reluzia aqui e ali, Pedro Algodres mandava: "remai  r; remai de estibordo" e, orando os remos, a companha procurava obedecer. Andou-se um bom migalho no brequefesta infernal at que o mestre p de filar o cabo. E com ele nos dentes, como uma flor, marinhou remo

acima para o barco. O Lavagante, de seu verdadeiro nome Duarte Rebocho, que era um alma do diabo de fortaleza a ponto de erguer por aposta o jerico duma sardinheira de Mata Moirisca com dois costais de carapau, j deitava os bofes todos. Milagre fora o Algodres vir no barco seno, havendo-lhes faltado a corda que nestas artes de xvega  mais que a muleta para um coxo, os peixes tinham festim. Toda a gente se admirou daquelas fricas menos ele.  que no sabiam que Pedro Algodres, antes de ser dono de companha, fora um dos marinheiros mais escarmentados da navegao de vela em Portugal. Aos dezasseis anos j mareava como grumete a bordo dum caque que fazia veniaga pela costa africana. Depois na cabotagem,  pesca do bacalhau na

Terra Nova, nos veleiros de longo curso, levou de en-

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fiada anos e anos, tantos que a cinza deles lhe caiu na cabea. Conhecera-o j mestre no lugre que fazia carreira

elo Porto para a Baa, estimadssimo dos superiores, benquisto dos subalternos. Ali selaram amizade em horas descuidosas e horas difceis - tormentas do mar alto, suciatas nas balucas dos cais estrangeiros, at rixas

pelas vielas.

Fora da sua sina, Algodres era um leo. Duma vez levara diante de si  estadulhada a tripulao dum bergantim italiota; doutra, por via de certa marafona, pusera ao sol as tripas dum ingls assomadio. Quando os

armadores se avisaram de cambiar da vela para a mquina, despediu-se.  roda dos quarenta, no lhe sorria

tentar a prtica de marinharia em que forosamente perderia gosto e saber. Havia amealhado meia dzia de vintns, retirava-se. Numa casa de pasto da Ribeira lembrava-se como se fosse ontem - beberam  despedida um pichel de verdasco e rodaram ambos at mais ver. Ele, Mira, pouco mais tempo andara embarcado, levantando para a Vieira, donde era filhote, ao chamo de Domingas, hoje sua mulher. Volvidos anos - andava

de ajuste na companha do Salretas, to lembrado do amigo como da primeira camisa que rompera -, COM

quem d de cara na taberna do **P@'sco, ao tempo, da tia

Janeta que Deus haja? Mais ruo, menos tanado da bruma marinha, mas com aquela cara de fortes queixais e

olhos to azuis que dava quebranto fit-los, era Pedro Algodres ou o Diabo por ele. De p, contra o balco, indagava do Pinhal do Urso e pedia um gula que lhe fosse ensinar o caminho.

- Se o mar, amanh, estiver da mesma feio que hoje, pesca... babau! e aqui est quem o acompanha, seu Algodres...

-  Mira,  alma de Barzabu, s tu? - e abraaram-se como dois irmos.

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Abancando, ali os surpreendeu a noite, folgados de se

ver e recordar os velhos tempos, copo despejado, copo cheio, agora chocalha tu, depois chocalho eu, coisas e loisas da vida, que foram ou que podiam ser. No dia seguinte, com bornal farto, que a jornada era de respeito, abalaram para o pinhal. Bate que bate pelas dunas de penisco fora, o que  to custoso como levar solas de chumbo na botas, sempre lhe perguntou, posto soubesse o Algodres hostil  curiosidade:

- Que ideia  essa de quereres conhecer o Pinhal do Urso?

Deram, mudos, mais de vinte passos at que Pedro Algodres se aprouve dizer:

- Cada doido sua mania. Vi nos livros que com o

lenho desta matas se construram nas tercenas de Lisboa as naus em que os portugueses chegaram  ndia e descobriram meio mundo. Gostava de saber se ainda valem o que foram. Visitei o Pinhal do Rei; dizem-me que o do Urso no  para menos...

- L de histria nada posso adiantar que no tive estudos. Quanto  fortaleza do Pinhal do Urso tu me dirs se pelos bosque do interior h coisa que lhe iguale em anos e soberbia.

Dentro da mata, com aquele seu ar de igreja antes de dizer missa, os horizontes a esfumarem-se por detrs das dunas onduladas, o silncio - sim, o silncio, pois o marulho das ondas e o ramalhar das franas ao vento parece ficar de fora, de envolta s parede duma redoma
- o exrcito hirto e negro dos troncos, Pedro Algodres quedou aturdido. De boca aberta admirou os pinheiros gigantescos e barbaudos, razes fincadas nas profundas, grimpa a varrer as nuvens, cepo que dois homens no abarcariam dando-se as mos. Mas pouco lhe durou o

pasmo. Logo em continente, o seu regalo foi correr de duna para duna, de cncavo para cncavo, tudo que-

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rendo ver e palmilhar, tal dono do senhorio. E at pelas brenhas de zimbro e samouco se engolfava, semelhante a

caador coelheiro que anda  caa.

 grande o pinhal? A passos contados, hoje dificilmente lhe daramos volta.

Recolheu-se a cismar e, olhando para o passaredo que esvoaava basto pelas ramas, pois era a sazo dos ninhos, tornou:

- Por aqui tambm h milhafres?
- Ora, mais que baleias no mar.

Na corcova duma duna, com a aves de rapina a espenujar-se nas copas altas dos pinheiros, abriram o

farnel. Comeram e beberam, e Pedro Algodres estirou-se de costas, olhos muito arregalados de princpio, como se

andasse a estudar na luz matutina o firmamento em filigrana da floresta, depois as plpebras bateram e fecharam-se-lhe desfalecidas. Quando o pilhou bem pegado do sono, introduziu-lhe, movido de curiosidade, mo sorrateira no saquitel que trazia a tiracolo e no largava. Mais subtil que raposo a crestar cortio e, ao mesmo tempo, mais despachado que cirurgio a abrir a barriga dum pndego, meteu os cinco dedos. Tinha dentro um alfarrbio do tamanho de meio missal. Faltava-lhe o frontispcio e velo-lhe ao bestunto que devia tratar por l da histria dos antigos portugueses, das naus, e congeminaes parecidas. Tornou a pr tudo no

saco e, como no h igual ao marujo para fazer do sono o

que lhe apetece, chamando-o ou espantando-o a seu

gosto, dormiu ao lado do amigo a sesta do justo. Passaram o resto do dia no pinhal, vagueando de labirinto em labirinto, o Algodres sempre com a teima de esperluxar o stio, palmo a palmo, como vedor que busca gua ou

passarinheiro que anda aos ninhos. Entardecia quando se

meteram s sementeiras de volta  praia. Algodres mar-

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chava melanclico e vagaroso. Dir-se-la que carregava s costas um dos madeiros de que atrs tinha palpado a

carrasca de cem anos. No dia seguinte - fora mar de pesca - com surpresa soubera que o amigo tornara ao Urso.  certa confira, no tendo que fazer, espairecia. Na serra, a amanhar courelas e a criar gado, no encontrara grandes sedues. Feito homem  borda de gua, estava

sempre a ouvir sereias a cantar. Para mais, tivera as suas desventuras. Falecera-lhe a mulher, deixando-lhe uma desta mgoas, que s se curam com a terra do cemitrio, e

um menino que era toda a luz dos seus olhos. "Se os abismos tragassem os vapores que emporcalham o lume de gua, recomeava com a lide de marear", ouvira-lhe dizer. Para matar saudades, viera at aquela praia. Mas, havendo tomado hospedagem riajaneta, todas as manhs, mal o Sol rompia em casa de Deus verdadeiro, ei-lo que tornava ilharga ao mar, tupa que tupa, direito ao Urso. Encontravam-no os mateiros dobando de duna para duna, e as praas da Leirosa quando vinham trazer ord( Posto. Ali o viram, tambm, com o Manuel das Uchinhas, feiticeiro do Grou. Raio de homem, alguma andava a malucar. Mas qu? Vai seno quando foi a leilo a arte do Salretas por falncia judicial. H mais concorrentes a uma carroa do que a apetrechos de pesca. Pedro Algodres cobriu a hasta e bem andou que lhe ficava a armao dois saveiros, duas redes, obra de cento e cinquenta cordas

por dez ris de mel coado.
- Mira - disse-lhe ele, depois de erguido o ramo

tomo-te para arrais, mas caluda; o que l vai l vai...

- Homem, no sou dos mais paroleiros' Agora que sei eu da tua vida que te envergonhe... ? Que esfaqueaste um ingls... So pecados de todos os marinheiros. Tambm tenho. A minha pena  no haver despachado para o caldeiro de Pro Botelho quantos ninfes, franchutas, escarumbas, mangaram comigo por esse mundo!

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Algodres era sujeito de capricho e cuidou de pr a

armao  altura. Reparou os barcos, consertou e encascou as redes, adquiriu novas cordas, que com as antigas botaram a duzentas e quarenta, o que lhe permitia escolher "terra de pesca" longe, onde a gua parece, olhada de cima, tinta negra de escrever. Apesar de ir em

mais de meio a temporada, arrebanhou pelas praias os

tripulantes devolutos, um pouco ao tentame, alguns valorosos e prticos, outros quebra-esquinas como fidalgos. Na enxurrada velo o Rodrigo Pamplino, que desdenhavam por pcaro e maninelo e deitou um grande remador, o Jos Passafome, que saa da cadeia por brigo e s boas dava o sangue dos braos, o Lavagante, exibicionista, que de scia com um pirango de Porto de Ms fazia sortes pelas aldeias, entre outras a ponte: armado em arco sobre as pernas e a cabea, o camaradinha estilhaava-lhe  marreta pedras de arroba em cima da arca do peito - e outros e outros que uma vez pegados

com o Algodres nunca mais descolaram. Mas desordeiros e ralaos que fossem, estavam com domador. Em mos indecisas aquele pessoal de fortuna daria cofn a empresa em vaza-barris; pois em menos de trs meses, com o

jeito do Algodres, veludo e ferro ao mesmo tempo, arrastava tanto como o Vermoil durante a safra toda. Comprou a casinha no festo das sementeiras, chamou a famlia, a mana Zefa e o seu Zezinho, e ali botou razes para sempre. Quem era e donde vinha, ningum cuidou de saber. L na terra dentro, estes mistrios do com os

curiosos doidos. Na borda de gua, afeita a gente aos vaivns, no causam febre nenhuma. A breve prazo, o ti Algodres era cidado da praia, a triste praia do Pedrogo, m senhor! Ali se fizera o filho homem; ali fechava plpebras para o sono sem fim o valente dos valentes.

Evocando, cismando, os olhos do arrais perdiam-se pelo oceano na costumeira inveterada do lavrador que se

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no cansa de ver a sua vinha. Ao largo, a uma vintena de remadas, passava em tringulo um bando de negrolas, mais rpido que flecha. O mar enlanguescia calmo, muito calmo, ao longe calda de alvaiade, alegre de lumarus brancos que mal se erguiam se apagavam, rente  costa espelho de fino ao a reverberar a luz crua do Sol. Na lagoa, que esquecia atrs de si a baixa-mar, miravam-se as nuvens com tanta nitidez que se distinguiam as sombras correr  superfcie da gua,  qual o

fundo de areia, muito limpo e doirado, emprestava um

verde sumptuoso e translcido. Eram mansos e espaados soluos as ondas que vinham desatar na praia em borbotes de espuma, mas saltarinos e furadores como coelhos brancos. s vezes essa espuma afigurava-se mesmo regaadas de neve estendendo-se, ao longo da praia, mais lisa e reluzente que toalha de piquenique. Boa hora de pesca, mas que no devia prolongar-se muito a julgar pelo remoto fuminho do horizonte! Impelido pelas duas alas de quarenta remadores, aliviado da carga, o Deus ande comigo, da companha do Vermoil, avanava proa  terra, garbosamente. Pelo rumo que trazia viria bater ali perto, e o Mira esperou para dar a

notcia. No areal, os bois aguardavam o momento de alar a rede, boleiras  frente com as salas arrepanhadas pelo alteador, gorro de veludo com o espelho, da grandura de vintm, em que havia sempre um raio de luz a brincar como libelinhas na fonte.

Na rampa que mergulhava das casas para a gua, a

deslado do Posto, com o fim por certo de fugir ao

contacto do povilu, acampara o rancho de fidalgos que duas horas antes automveis buzinadores haviam despejado na praia. L andava o Lousal filho, calas  charlston, papo ao lu, apaparicando as senhoritas com pastilhas de cheiro e caramelos. As risadas das bocas vermelhas esfuziavam no ar doce da tarde mais alto que os gritos das

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gaivotas. De p, o senhor juiz de Leiria, Alonso da Cunha Leo, olhava para o mar, circunspecta e gravemente, co  mo em pretrio a julgar grande assassino. E que assassino no era aquele, Pai do Cu' Se os afogados se levantassem do fundo dos abismos enchiam a terra. A vida estava para os figuros, tudo sorrisos, tudo mimos, dinheiro a rodos, boas fmeas para o gozo! Que lhes importava que em riba duma arca estivesse um heri de queixos enfechelados?'

Da outra banda do Posto,  espera da rede, as mulheres dos levadios espiolhavam~se. Com almocreves, bufarinheiros arrematantes do pescado, rapazio ladrnico, homens de enchelevar, faziam uma feira. Vinha perto o Deus ande comigo, regido por Joo Maria, o Savelheiro, que sabia escolher o seu mar. Meia dzia de remadas; uma

pausa  coca de vaga, e a vaga tomou o barco sobre si como palanque na cernelha de elefante, e dep-lo na

praia sem baque nem estremeo.

- Boa manobra - ficou o Mira a malucar. - Mas eu vinha sobre bombordo; esto as guas baixas e o barco devia ir em busca de mar mais ao norte para no perigar na restinga.

- No entrais? - perguntou para o Mira o Savelheiro da proa da nave. - H novidade?

- Morreu o patro'
- Morreu o patro...?! - repetiu o outro num eco sentido. - Deus o receba  sua direita.

Entretanto recolhiam os homens os remos e lanavam as espias. Logo em seguida, deram-se uns  faina de encalhar o barco; retoiando sujos, suarentos, com as carnes a luzir por entre os mondongos de riscado, lavaram-se outros na onda emortecida. A dobrar a taberna do Pisco, aodados, avistaram-se o Vermoil e o escrivo.

- O ti Esperana tinha dito que no botava o Vero fora, ao v-lo cismtico e com **vgados, mas nunca

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imaginei fim   to repentino... - tornou a dizer o Mira para o arrais, imvel no castelo da popa, invadido tambm do nojo da morte.

- Tantas    vezes a coira deita o harpo que acaba por nos fisgar - respondeu o Savelheiro.

- Vou para l agora; vens da?
- Vou. - E, saltando em terra, disse para os martimos que j comentavam a m nova: - Rezai por alma do ti Algodres que o Senhor acaba de chamar  sua divina presena. Calai o barco bem em seco; aquelas nuvens l ao largo anunciam mudana.

Silenciosos, treparam a ribanceira, j os bois andavam, sobe e desce, no manejo lento de remontar a rede. Se bem que ao servio de patres quase sempre polticos um com o outro, algumas vezes em guerra, os dois arrais

votavam-se recproco e fraternal afecto a coberto de zelos e testilhas. No entanto, no podiam ser mais desaparceirados em gnio e natureza. O Joo Maria era de estatura mais que mediana, ombros quadrados, loiro, dum loiro esmaecido de palha na eira, brutal de modos e

seco, a estampa daqueles normandos que baixaram s terras do sol dos nublados fiordes. Pela manha e destreza com que em pequeno bifava as savelhas do monte da lota alcunharam-no de Savelheiro e crisma foi que nunca mais perdeu. Ratoneiro exmio em rapaz, homem, era dos arrais mais valentes da costa de Portugal. A comandar, a voz dele, levemente rouca do lcool e da cacimba marinha, tinha a estridncia imperativa dum clarim. V-lo aprumado nos castelos, quando entre o rolo da praia e o

contrabanco o barco se cabreia como cavalo furioso, era

v-lo lanar a malha  porta das tabernas, igualmente imperturbvel. A mulher, mais carregada de filhos que vide, era uma destas sombras negras da beira-mar, gemebunda, agoirenta, que respondia ao seu homem, s comadres, a todos, por um epteto obsceno.

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O Lus Mira constitua em quase todas as linhas o reverso daquele: dez a quinze anos mais velho, trigueiro, face escura e angular, com patilhas grisalhas, gretada da tormentina; olhos castanhos, leais, no isentos de finura; meo, sobre o franzino, tipo acabado do antigo fencio sbrio e aventureiro. Intrpido como o Joo Maria, no vociferava; na aldeia de beberres, era o nico que no caa de borracho. Nos dias santos, a mulher arreava-se com o seu cordo de oiro de trs voltas, medalha, duas figas, blusa de gorgorina e canos de l branca nos tornozelos, ainda que descala. Em vez da tia Domingas como as mais, era a senhora Domingas. No tinham os homens grande estima por ele, compensando, porm, tal quebra com o respeito que lhe votavam.

Bons obreiros da abundncia, estimavam-nos o cura e os fregueses e todos os maiores daquela corda de povos como aquele Eudxio Bixolim que, ao passarem diante da taberna do Pisco, lhes gritou do limiar:

- Eli Savelheiro, eli Mira, vai uma pinga? Estacando a saudar o rico lavrador da borda de gua, que tinha dinheiro como terra e sorte de co, os dois escusaram-se. Iam rezar o responso  beira do corpo do ti Algodres que acabava de render os espritos ao Criador.

- Amigos, j se lhe no d remdio' - tornou o outro. - Paz  sua alma, que era homem duma cana. Est o Lzaro a barbe-lo e a vesti-lo, pelo que ouvi dizer; podeis entrementes molhar a goela...

Pechincheiro, o arrais do Vermoil torceu o passo e, para no desprazer, o Mira seguiu-o. E mesmo  boca da taberna, copo em cima duma pedra, sardinha espremida sobre o polegar no motreco de broa, foram suciando. Para matar o tempo entre duas redadas, os almocreves do Grou jogavam o liques, de p, ao mostrador, copo das libaes em face. Faziam-lhes roda os martimos, a que o falecimento de Pedro Algodres dera folga, e outros que

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largaram  tuna, mal o Deus ande comigo tocou no varadoiro. j o Pamplino, baixo, tarraco, plantas espalmadas, cabea ao lu, a brenha crespa das pomas a espirrar pelos bofes da camisa, com o seu qu de urso-marinho na figura e nos trejeitos, ensaiava momices e partes gagas na esperana de quodore. A morte,  fora de a verem na fcies hedionda dos nufragos, dentua arreganhada, bochechas gelatinosas sopradas como bexigas, de a desafiarem a cada passo, roava-os apenas, e sentimentos, vcios, hbitos, seguiam o curso maquinal.

Dize tu, direi eu, o lavrador da Ervedeira declinou a razo especial que o levara a cortar com ps de l o caminho aos arrais. Ficara por fiador de Pedro Algodres na compra de vinte e quatro cordas ao Pinto, de Esmoriz, e morria por saber se o seu crdito estava a salvo. Isto de guas do mar para emprego de capital, em terra, apenas tinha de semelhante as oficinas de fogueteiro. Eram indstrias que nasceram com a calpora toda... s boas para juro alto, muito alto, quanto mais para finezas

Em caixa deve haver para, pagar a prestao disse o Mira para o homem que mamara de leite a arte da ganncia e a felcia; o pai, ao demolir um cortelho, descobrira um chapu de peas; o filho, ao fazer a vessada, trouxera enfiada na relha uma anilha de oiro que pesava mais de arrtel. - Em menos de dois meses de safra arrastou-se  volta de catorze contos de pescado. Por essa dvida, seu Eudxio, no lhe manda o caminheiro  porta.

- Toda a minha quezlia  que o rapaz no esteja  altura do negcio. O pai trouxe-o anos seguidos na

escola, arredado da vida do mar. Para qu? Eu mal sei

traar o nome e, louvores a Deus, governo a minha casa to bem como qualquer doutor. Depois, em vez de o jungir  arte, prendia-o em terra, no lho fossem as

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ondas tragar. Por mercados e festas, de jornada para a

Figueira  busca de carpinchas, para a Nazar a abocar-se com o capito do porto, para Leiria, para o inferno, no falando de Monte Real,  cola da Filomena Penalva, por toda a parte o dialho havia de bater a

bota. Era o agente comercial da armao e as mais das vezes andava nisso, bem sabemos. Mas, amigos, tomara eu tantas horas para descanso como de dias perdia a vender sombra.

- Sim, senhor; sim, senhor' - apoiou o Savelheiro, boca doce ao ricao. - O rapaz  srio, valente, mas l prtica do mundo no tem. Das artes do mar, ento, no percebe bia. Aprendeu a mandar um remo, aprendeu, mas da cartilha de patro nem sabe o que sejam cuidados.  novo,  nov& ...

- A  que me di' s duas por trs deixa-me a arte ao deus-dar, e v de esperas, v de hipotecas, quem paga a letra  o velhinho, hem?

- Porque se no vai entender com o escrivo? alvitrou o Mira.

- Est a assear o defunto, deix-lo l estar. De resto, o Lzaro  um nem-l-vou-nem-fao-mngua; no ata nem desata. No tivesse ele sido aprendiz de clrigo'

- Fale, fale com ele - insistiu o arrais. - Ver que tem outros dinheiros mais em risco...

- Queres falar da hipoteca dos afogados da Vieira?...  verdade, justia, mais justia, daqueles dez contos no safo com que comprar um chapu. Maldita seja a hora em que depositei dinheiro na companha excomungada Tambm perdio assim, redes, cabos, barco, seis homens no chafurdo, nunca se viu. Acreditem vocs, a

gente nem dorme a sono solto com o caroo empregado na gua. E ainda bramam que a vinte por cento  caro! Irra, irrrio, senhor Ligrio' Vo l por essas portas, ai tio, ai tio, a ver se algum desata os cordes  bolsa para

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negcios desta laia. Tomai nota no que vos digo hoje, vale mais real em terra que tosto no mar.

- Por esse entender nunca mais se comia uma sardinha em Portugal - pronunciou o Mira em tom de chalaa.

- L havemos de chegar. Isto de casas sem alicerces e pisar onde no passa o boi  ruim para tudo, mas

principalmente para a bagalhoa. Para que vivam'

Trocavam sades quando retiniu na taberna nutrida e cacarejante algazarra. Conseguira o Pamplino bufarinhar a bugiaria potica a troco de marufo, mas os almocreves, no se dando por quites, reclamavam melhor. A evadir-se, lampeiro e gozoso como fauno que satisfez os apetites, j ele vinha de escantilho pela porta, com um dos pagantes na peugada a gritar:

-Aquela no foi de valha. Tem de dizer outra ladainha'...

- A ladainha  a Nossa Senhora, seu animal! retorquiu o chocarreiro.

- Bem me entendes, boca grande! - tornou o homem. - Tio Mira, obrigue-o a pagar o que deve...

Cortando com o gesto em direco ao mar, respondeu

o arrais:

- Ali para baixo, risco eu, aqui, risca ele. L se avenham.

Levados na galhofa, saram os almocreves de roldo para a rua em assuada ao pescador:

- Anda, Pamplino, cumpre a palavra. Se ris a corda, quando te pilharmos no Grou, tosquiamos-te a lariual

- Cantigas,  Rosa' Se quereis gaita, pagai ao gaiteiro.

- Arre com o co' - No tombaste j trs quartilhos?

- Nada feito.

A BATALHA SEM FIM                      23

Pago eu o copo de vinho - disse um dos folies mas hs-de subir para riba daquela carroa a pregar...
- Venha! Passaram-lhe meio litro, que ele, sofregamente, como

receoso de que se arrependessem, virou dum trago. Chupando, depois, os lbios e enxugando-os  pelcia dos punhos, pronunciou em voz remansada:

- Desejais a Orao do Bbado?
- Essa! Mas de plpito. De plpito' Iou-se para a traquitana e ajoelhando, de mos direitas e olhos to arregalados para o cu que s lhes brilhava a clara da menina, salmeou:

Pai da vida, Deus portento, Que o mundo torto governas, Dai-me luz e entendimento. Mas, se eu errar as tabernas, Seja com tal descaminho, Que v logo de lanternas Esbarrar no melhor vinho.@

Celebraram com alarido e multas risadas a pacholice do jogral, embora velha para todos como o castelo de Leiria. Exigiram outra; brandindo o copo, o Pamplino invocou o direito a mais vinhaa. Em despeito da primeira reserva, o Mira interps-se:

- Para entremez j bonda' Lembrem-se que est no

celrio um nosso irmo.

Dobrando a cabea, sonso e humildado diante do arrais, ficou o Pamplino a bichanar uma prece imperceptvel. Baixava o Sol a olhos vistos e carantonhas negras - os cirros ligeiros da estrema do horizonte corriam, tangidas pelo vento, a trancar-se no ocaso como conjurados  espera dum rei. Os arrais despediam

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quando o Eudxio, que viera  compra de caranguejo para adubar a horta, atalhou:

- No sei se v com vocs... A rede estar para demorar?

- Ainda se no avistam os caneleiros das trinta informou Passafome que subia da praia.

Ombro com ombro meteram os trs pela rua adiante, cabo do macadame que vinha de Monte Redondo e do fim do mundo, s bandas do qual, na duna desmantelada, se empoleiravam casas de ripa e de cascalho, tabernas trreas e lbregas, barracas com a tremelga e o cao empalados em cruz a bailarem no vo dos janelos, e despediam ruelas em que se apertavam mais pocilgas, palheiros e tabernas.  porta do Vermoil, tenda e moradia, lavradores carregavam o caranguejo que ia adubar at Cho do Couce alqueives cansados e vinhedos. Tanto fedia que os transeuntes eram forados a levar a mo ao nariz. Na rampa, sobre a caruma que ali deixara uma esfranada de pinheiros, Teresa Charana recolhia a pobre petinga escorchada que pusera a secar ao sol, boa para os dias lazarentos, quando falta o peixe fresco das rapolas. Mal os viu, levantou a cara de fataa que Deus lhe deu, carpindo da boca sem dentes:

- Morte malvada, que s leva os bons! Ah, aquele no era da raa dos patres que apenas tm olhos para a

lota e tanto engadanham a mo sobre a ganhua que enterram as unhas na carne! Muitas vezes veio a esta porta: tens po? tens azeite?  beira dele a fome esmurrava os dentes. Quem nos h-de valer' Morte malvada, morte negra!'

Mas eles no se dignaram dar-lhe ouvidos, tendo pegado entre si acerca daquela morte funesta e da inexperincia do herdeiro, homem de vinte e seis anos que andava no mundo por ver andar os mais. j o Augusto

A BATALHA SEM FIM                     25

Penalva, terreanho manhoso e p-de~boi, lhe esquivara a filha significando:

Quando tiveres vinha para dez pipas, ch para trs jeiras e casa de soalho, vem-me ver. Antes disso, e no  pedir nenhum infantado, quitas de me rentar  cachopa. L com coisas de pesca no me entendo; a gua o d, a gua o leva.

Queria-lhe, moceto airoso e bem-criado, do fundo de alma, a Filomena; obediente acima de tudo e guardada pelo pai corno por sete drages, limitava-se, de par com ele, a suspirar. Segundo se dizia, andava-lhe na fanga o Jlio da Sebastiana, entrado nos anos e achamboado, mas que tinha o seu vintrri.

 passagem do palacete Lousal, com ar provocante no meio dos casebres, envolveu-os o doce rescendor dos assados a pingar na brasa. Ao rumor das vozes, uma sopeira perliquitetes acudiu  sacada, pressurosa e delambida, com o prato, que estava a limpar, na mo como pandeireta, e desapareceu com maior afogadilho ainda ao descobrir trs homens maduros, nada faias, sem correspondncia com a vaidade dos seus verdes anos, Ouviram-se, logo aps, estreloiar os talheres em claro e guloso banz, que estava a bater a hora de janta. Considerando que os felizardos da sorte acertavam a santa trincadeira pelo relgio e erguiam da mesa rbidos e pesades, enquanto eles comiam ao sabor da mar, mal mexido e requentado, da garganta do Mira escapou-s uma palavra que era ao mesmo tempo queixa e suspiro:

- A vida est para estes! -Que o meu quinho lhes saiba a rosalgar! sibilou o Savelheiro.

- Homem, ganharam-no com o rico suor do corpo obtemperou o Eudxio. - O Lousal pai comeou a vida a dar a jorna corno serro. Contava o meu velho, Deus lhe fale na alma, que foi daqui para Lisboa de

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tamancos e com uma bla de milho para a jornada. Fartou-se de moirejar e poupar como a formiga rabiga para erguer a casa que hoje tem. Hem, que julgais vs? Morava s Trinas e tinha estncia em Xabregas. Todas as

manhs, para forrar o bilhete do americano, ia  pata.  pata e com a barriga a dar horas. Se lhe apetecia o

cafezinho, que as chafariqueiras vendiam aqui e acol, no vo duma porta, furtava-se  chcara de trinta ris desde que mais adiante, fosse longe, fosse perto, lho dessem a vintm.  verdade!

Eram chegados  moradia enlutada, a primeira quando se vinha das bandas do mundo, com uma ventoinha ao alto, em que o mestre, todas as manhs ao sair da toca, se apressava a ler o corrume dos ventos. Por isso lhe chamavam a Casa da Ventoinha. No ptio, dentro do cavername duma bateira podrida, gambiavam garotos, picados das bexigas, quase nus. No meio deles o Luziairo, dez anos, filho da Charana e de pai incerto, loiro e sardo, dum loiro que transcorria da gaforina para a tez, em pelotas, lembrava golfinho bisonho, esgarrado do mar. Havia um cacho de mulheres  porta, cabea entalada  espreita, saia negra para o toutio, pernas vermelhas e cascudas de perdiz por debaixo do saiote de baeta.
O Mira apartava j o monte quando surgiu o chavelhudo do Joaquim Bica, que se improvisara em gato-pingado, s escncaras a bocarra de caimo:

- Est o ti Lzaro Brs a vesti-lo. Se vomecs querem entrar,  vontadinha; pelas traseiras, topam o Z e a mais gente...

Foram pela porta dos quintais, que deitava para as dunas. Debaixo dum pequeno coberto, o Alberto Marrazes, que era homem de todas as artes, muito expedito e servial, ontem carpinteiro, hoje pescador, pregava o atade.

- Ests a fazer um ba? - gracejou o Eudxio, acercando-se.

A BATALHA SEM FIM                     27

- Estou; serve-lhe para as libras?
- Libras, ando livre delas@ Fica obra asseada...
- agora!  para pobres, para a terra comer. Mas faz-se melhor... Quer encomendar o seu? - disse o rapaz aperrando os dentes, que, largos e quadrados, davam grande impresso de fora.

No era homem de rasgo, nada o trabalhava tanto como o medo da morte, e na cola do arrais fugiu a responder. No se cabia na lareira.  roda do Jos Algodres, sentado num cepo, s mos ambas a tapar a face em que escorria pranto, mulheres espremiam a lgrima e soltavam suspiros altos. De gorro entre os dedos, olhos tristes, os arrais debruaram-se para o moo:

- Z! E h, Z!
- Morreu meu pai! Morreu meu pai' - exclamou ele, reavivados os arquejos.

-  morte ningum escapa, meu santo! - murmurou o Savelheiro. - Mais hoje, mais amanh...

- j tinha uns bons pares de anos - disse o Eudxio.

- Qual, fazia sessenta e dois para o S. Miguel das Areias - esclareceu a irm do falecido, a senhora Josefa Algodres, que, lideira como m, se desunhava de c para l nas voltas da casa.

- Nunca l faltou, coitadinho! - gemeu o filho.
- Nunca supus, nunca supus! - sussurreou o Mira, abanando a cabea. - Tanto esta manh me pareceu no seu so, a deitar comigo contas  redada, que disse para mim: temos homem! Afinal, morreu na sua cama, dem graas!

- Na cama ou no mar, que monta!
- A terra  o nosso bero; o mar, no. O mar nem mortos l nos quer.

Decorreu imensa, glida pausa em que se ouviu, l

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fora, o martelo rpido do Marrazes, e, portas a dentro, o

choro miudinho do Jos Algodres. Para dizer alguma coisa, sentenciou o Eudxio:

- O olmo s vezes parece bem poderoso e tem a

carcoma no cerne. Passou h muito?

- Tocava o tio Vermoil o bzio para o segundo turno - respondeu o moo. - Pediu para lhe encher o

cachimbo, que tinha as mos entiritadas, puxou duas fumaas e, como se o sono o tomasse, dobrou a cabea para o peito. Ah, meu rico paizinho!

- Nem deu pelas alpoldras - pronunciou o Savelheiro.

- Deus o sabe! - disse Josefa. - O certo  que levou a manh a fazer recomendaes ao filho, assim a

modo de batalhar. A turra dele era que o Jos no se

avm com acompanha. Esteve, tambm, a explicar tudo, o que se tem a receber, o que se deve, no esquecendo a conta ao Pinto, de Esmoriz, de que o

senhor Bixolim  fiador...

- Por causa dessa dvida trago um penedo derriba do estmago - disse o lavrador.

- Pois descanse. Nem meu sobrinho nem o senhor Lzaro so pessoas para deixar de cumprir a obrigao. Pelo que ouvi, h dinheiro disponvel para pagar; descanse. Mas falou h instantes o senhor Joo Maria que

meu mano nem pelas alpoldras devia ter dado... Verdade seja que se no preparou para a morte, recebendo nosso Pai, embora andasse h trs dias da cama para uma cadeira, da cadeira para a cama. Mas olhe... estas palavras lhe ouvi eu para o filho: "Se te pudesse levar!... Deus  que manda!"

- Deus  que manda, ol! - rouquejou o Lus Mira, enxugando as bagadas.

- No demos tento de expirar. Tinha j a cabea vergada para o cho, entrou a tia Maria da Vieira. Olhou

A BATALHA SEM FIM                       29

para ele, olhou para ns e disse: "0 Senhor o receba  mo direita que j passou o vau!" Podia l ser!? Na dvida, mandmos a toda a pressa chamar o barbeiro pelo Luro. Podia l ser! Pois podia, que o Pai do Cu assim o quis.

 greta da porta que dava para o celrio, apareceu o

Luro Brs, toalha no ombro, a ensaboar as mos. Vendo os arrais e Eudxio, acenou-lhes para entrar.  espera do caixo, de que se ouvia ressoar o tabuarne, haviam estendido o defunto em cima duma arca. A tampa negra no destingia da penumbra e o cadver figurava suspenso no ar, imenso e de bronze. Olhando a cabea de perto, dir-se-ia a nozelha dum roble, patinada por cem invernos. Mas as formas perduravam no ritmo prprio da vida, no obstante os queixos atados e a obsidiante impenetrabilidade da carne tornada mrmore. A andaina de saragoa, coada nos rebordos e com ndoas semiextintas na lapela, contava a existncia pobre do lutador. E as brochas luzidias dos sapatos, melancolicamente, evocavam feiras e arraiais, a rede inextricvel de idas e voltas em torno do grozinho de p, que era aquela casa no espao, e pareciam dizer, assim de cutelo para a luz, que partiam para a viagem escura donde se

no torna. Poisavam-lhe no peito as mos, urna contra a outra, honradamente gigantescas e de brutalidade sobre-humana. Depois de encomendao, os arrais beijaram essas mos que seguravam o remo e a adria como nunca um guerreiro o fez  espada; com o raminho de alecrim aspergiram a face tantas vezes lavada pelas frias do mar; e saram cabisbaixos e doloridos.

 porta aguardava~os o Vermoil, a barba quinzenal de cerdas grossas como pregos ripais, os dentes, enormes e sados,  enxadada aos beios de almofariz, mais o beleguim do escrivo, o Pedrosa cambaio. Ambos a um tempo sacaram o Savelheiro de parte.

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O Mira foi descendo devagar, muito devagar, a moer os minutos at que o parceiro rompesse. Apagara-se o Sol por detrs da nuvem baa que alastrara da Marinha at o Pargo, onde, pelos dias claros, se viam esvoaar os penachos negros dos grandes navios da carreira. Rugia o oceano num rumor incessante e fragoroso de artilharia a galope, e a terra enfuscava nem que entronassem sobre montes e vales a gua opaca dos abismos. O Mira viu as gaivotas revoarem por cima do Posto, descreverem largos circuitos ao alto dos telhados, e disse consigo: ao mar, amanh, nem com Sant'Antnio  proa'

Passante a taberna do Ratapum foi alcanado pelo Savelheiro. Perguntou:

- Que te queria o mostrengo?
- Oh!
- Dize l... Sou fechado como as tumbas.
- Queria que cometesse o Z Algodres para a venda da armao. Agora gira, vai diz-lo...

- Sossega. Com o cadver ainda morno, j o safado estende os gadanhos... Alma de anequim podre!

11

Ao fim da primeira semana de borrasca, ainda Outubro no ta fora, o Jos Algodres obstinou-se em desarmar. Recolhidos ao armazm barcos, redes e cordas, tudo limpo e a bom recato, emprazou a companha para o

Posto da Guarda Fiscal. E a, depois de pagar a fria e dirimir pendncias com nimo generoso e despachado, deu os homens por quites e livres.

Apuradas as contas, no lhe ficava forro com que armar um andor ao S. Miguel das Areias. Alegou Lzaro Brs, o escrivo, de unhas sujas a coar na nuca, o gabinardo velho a escorrer-lhe dos ombros magros, que, se a safra correra mal, a responsabilidade no era sua,

mas sim dele, mestre da companha, que largara rdea aos martimos, uns bebedolas e ralaos que apenas estavam bem nas tabernas a meter bagaceira ou de malha em punho a jogar o chinquilho.

Ouvia-lhe as queixas, sem retorquir, o Algodres. E s ao fechar da caixa, vazia, sem um ceitil furado, abriu lbios para dizer:

- No se apoquente, Lzaro, que as coisas ho-de endireitar...

- Endireitar como, se tudo vai de mal a pior?@ Direita, direita, leva-o o Vermoil. Ele o mar est bravo e,  ver, o Lrio dejeric l anda na faina, mais descansado que um ganho em terra a plantar a horta. Hoje deita aos quatro lanos... para riba de meio conto'

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Deixe l, homem! Ainda havemos de ser ricos... podres de ricos. Como, no mo pergunte.

Estas palavras eram proferidas em grande sigilo corno

se o prprio remoinho do vento as pudesse divulgar.

- Ouviu? - tornou a voz ciciada. - Havemos de ser ricos. . .

- Mas que ?
- O mar no me d sorte... h-de ma dar a terra, to certo como haver um Deus que nos governa - e, a fugir a explicaes, largou praia fora, rente  fmbria de espuma, embalando ao rolar das vagas, o seu entranhado sonho.

O Lzaro quedou-se, lbios franzidos num esgar de mgoa e desdm, a v-lo ir descalo, escoteiro, olhos em

alvo, como se levasse o Demo no corpo. E cabisbaixo, a

cismar na charada e na factura a satisfazer aos cordoeiros de Esmoriz, se foi at o quintalrio da casa que tomara de aluguer,  espera da sua Flora. Semeara ali nabal e, com as ltimas chuvadas seguidas de entreabertas soalheiras, uma herpes miudinha comeava a pintar de verde a terra baa. Naquele migalho de solo como s traseiras de todos os casebres, mormente nas abas da povoao improvisada h cem anos, o pescador cavara a duna  cata de hmus, removera-a s bandas, e nos balseiros assim agenciados plantara vinha e horta. E l medravam, protegidas do deslize da areia por grossos taludes que o perrexil cosera, passajara, rebordara corri o delgado e extenso cordel das razes, mais minuciosamente que colchociro. Em apoio da planta, to feia quanto prestimosa, com o seu radiculado subterrneo de solitrias, vinham a tamargueira robusta, o samouco viridente, o ferrenho rniporo. Especados em linha a

defender o plantio, constituam estes mouches vegetais autnticas trincheiras de guerra contra a duna invasora.

A BATALHA SEMTIM                        33

Pelo Estio dentro, em tais hortejos cavados  feio de escudelas, mais tisnados que pedra em que se acendeu lume, erguiam-se do p impalpvel, sobertos e miraculosos, o malvasco de umbelas cor de vinho e o estramnio peonhento de campnulas alvas de neve. Pelos cmoros e ainda nas rampas da estrada, vicejava a cmica cucurbitcea "pepinos de S. Gregrio" que, ao premer-se-lhe o pednculo, dispara pevides e esguicha uma aguadilha malcheirosa.

Passara a cancula como lumieira pelos quintais, no poupando fibra de verde. A todo o longo rebrilhavam brancas e ridas as corcovas da duma, mal mareadas do cardo, o cardo rolante que, merc da supervida que goza, para onde o levem os baldes fixa-se e medra, tudo parecendo assimilar, areia, rocio e refervor do c u, sal da bruma, cisco ao vento. To longe do cardo das serras est este cardo que, pelas flores sulfato de cobre, as folhas simtricas e rgidas, defendidas em cada recorte por finas puas, parece de zinco, aqueles flores de zinco, a escorrer nojo, do pinculo dos mausolus. Por entre tal sarna do areal, sempre pronta a morder, e os "cordeiros" cujo tegumento os pescadores utilizam como isca para o fuzil, a sila alava **a@qui e ali a corola de lrio, imaculada.

Para o alto, no pinhal do Concelho, perfilavam-se os primeiros renques de pinheiros, retorcidos pelo vento e a vergastada das areias. j  sua orla e nas limpaas, os frios de Outubro tinham despido a camarinheira, cujas bagas, engravitadas nas hastes esbeltas, revestidas duma folhagem de urze, so grumos de caramelo. Embora,

nem a madorneira, erva maninha, nem o estormo, feno salgado das dunas, que se comprazem da intemprie, comeavam a enverdecer. Ah, mas sentia-se o Inverno com o mar e mata, por toda a costa desde S. Pedro de Muel at Osso da Baleia, como duas sanfonas tremendas em despicado toque!

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Andou, divagou Lzaro pelo cerrado, a chupar o cigarro, a fazer horas, de espao a espao lanando olhares enfadonhos em roda, pela gente que vinha, que Ia, pelas barracas velhas e sujas, atoladas na areia ou boiando sobre mataces como jangadas em pleno mar. Eram todas de ripa, remendadas com torres e farrapos, tirante os palacetes do Lousal e doutros dois madeireiros, intrusos que no contam, muito apegados, em pedra,  beira do macadame. Algumas, desamparadas da gente que emigrava, iam ficar aos morcegos e aos vagabundos por aqueles longos meses fora. Numa ou noutra, pelo facto do Jos Algodres haver dado alta, ouvia-Se a estreloiada de toda a familagem, dispondo-se a desertar com ferramentas e cacarus. Na do Passafome, a voz rouca, aguardentada, soava de rigodo com a chinfrineira dos rapazes - eram sete de dez anos para baixo - que se carpiam por todos os foles, e da mulher, atrida da surra que levara. No dia em que cobrassem fria, porta sim, porta no vindo para cima, porta no e porta sim, indo para baixo, aquilo era de lei. Quem no estivesse a par, julgaria pela grazinada e a bulha lugares de chacina e de morte as barracas dos pescadores. Quando desaparelhasse o Vermoil, abalava meio mundo. Dirigiam-se uns s serraes a ajustar-se corri os estanceiros; outros, no tropel das mulheres e filhos, recolhiam  Nazar e Peniche, suas terras, ao topa-a-tudo; moinavam muitos; raros quedavam na "triste praia do Pedrogo" a pescar no baixio com majoeiras e ao espinel um dia por outro, entretendo a fome com a esquilha humilde e a raia escalada, seca ao sol dos meses estivais.

Vinha l o Inverno, inimigo dos pescadores! Em baixo

o mar cobria-se, para alm das cem cordas, duma leve poalha de cinzas, no meio das quais o Lrio de jeric era

sarrafo escuro flutuando. As ondas avanavam em paralelos e longos gales, verdes e brancos, brancos e verdes,

A BATALHA SEM FIM                        35

para quebrarem na praia com a ressonncia e compasso de sino grande, tangido por um bruto badalo. No entanto no bulia nuvem pelo cu, todo cor de prola, sem fundo, sem sol e sem azul.

Taciturno, tomado da caramunha da sorte ou da tristura ambiente, esttico no vo do cancelo, assim veio topar ao seu homem a senhora Flora, de rota batida de Casal Novo. Passavam muitos dias sem se ver e era sempre efusivo o seu encontro. Enquanto Lzaro escriturava a companha, ia ela tenteando a casa de lavoira, que tinham bens ao luar. Em razo da distncia, haviam trastejado aquela barraqueta com meia dzia de alfaias velhas, um catre de bancos e um fogareiro de barro em

que ele, por arte prpria ou coadjuvado do primeiro martimo, forjicava o comer. Sbados  noite vinha ela adereada do melhor oiro, canos de l de camelo, leno ramalhudo de seda, em cima da gua criadeira, oferecer como rainha de Sab ao esposo amado as graas quarentonas. No obstante ser sensvel a diferena de anos entre os dois, o Brs parecia ao p dela muito mais provecto do que era em realidade. A mulher - salvo seja em fecndia, pois era boa me de filhos - tinha o ar destas castinceiras que crescem fortes, enxutas, lisas e luzidias, na extrema dos campos; de seu moral, adequadamente recta, positiva e senhora do seu nariz. Ele era magro, flcido de carnes se bem que de semblante afvel, alma descuidada e sonhadora. Apesar dos contrastes ou, talvez, merc deles, entendiam-se como unha com carne. Ela s enchia a boca com o seu Lzaro. Este era-lhe, por sua vez, fiel e agradecido como vagabundo que fora e

encontrara aquela boa sombra no seu descampado. Porque Lzaro Brs, escrivo de companha, barbeiro, homem do tabardo de picotilho, com a eterna petisca a

escorrer do canto do beio, tinha a sua histria. Aos dez anos, por favor duma tia, antiga servial de Recolhi-

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mento, que vivia em cheiro de santidade e preparava pudins e trouxas de ovos, to bafejados da graa que o bispo, o cabido, o vigrio-geral comiam e morriam por mais, ingressava no Seminrio de Leiria grato Deo. Os pais, ele homem de enxada, ela mulher de rodilha, no sabiam onde cair mortos. Durante quatro anos calcorreou o rapazinho pelas sagradas letras, com grande esperana da tia que almejava fazer um padre. Aconteceu, porm, que a boa criatura transitasse deste vale de lgrimas, chamada por Deus. E, porque cessasse a virtude eficiente da doceira ou, o que  ainda plausvel, porque a aplicao e zelo religioso do menino no fossem recomendatria suficiente  gratuidade, devolveram-no  famlia. Desaparelhado para a vida, embora nomeasse de fiada os reis da dinastia de David e as figuras de retrica, serviu de marano num armazm de secos e molhados; passou a caixeiro de ourives, estes ourives de escada, meio relojoeiros, que poisam em feiras e romarias; ele prprio, por sua conta, armou em ourives volante. Certo dia que vendia uma gargantilha  filha dum lavrador, reparou que ela tinha bonitos olhos e peito chelinho de rola, almofada de primeirssima ordem para uma fronte cansada. To bem impingiu ele o seu oiro, to bem ficou ela afreguesada, que pouco tempo decorrido abalavam os dois rolando o perfeito amor. Casaram e assim virou costas  aventura e  belfrinha o antigo ordenando. A terra, porm, no conseguia prend-lo a

valer. Quedaram-lhe laivos, a lordose, sobretudo, da cultura bebida com os padres, Ao mesmo tempo, anos e anos de vagabundagem por Ceca e Meca haviam-lhe formado uma sorte de envoltura psquica fora da qual no se sentia bem. Entre v-lo correr mundo, como transluzia de seus projectos, e v-lo escriturar as companhas, Flora no hesitou. Para ele semelhante oficio era a

evaso necessria, para ela o menor dos males. Acabando

A BATALHA SEM FIM                       37

ela por ser o homem de portas a dentro, no governo da casa, no amanho das courelas, na educao dos filhos, que eram trs muito alvos e medradinhos, nunca deixaram de se estimar. Vinha Flora  praia quantas vezes

podia, de ordinrio em fins-de-semana, para, domingo de tarde, regressar  solido dos seus penates.

Ora, avisada na vspera de que era aquele o dia de desarmar, acudia a senhora Flora a erguer os tarecos do lar intermitente, cautelosa com os inimigos do alheio, que so bastos nas terras da fome. Palavra puxa palavra, depois de inteir-la dos negcios da companha, acabou Lzaro pelo desabafo:

- O Z Algodres, aquele alma danada, anda zarro de todo. No sei que tenha nem que no! O regalo dele  ir sozinho por essa costa arriba, at onde nem o Diabo sonha que por gosto algum possa pr o calcanhar. Um destes dias, os caadores de patos foram encontr-lo nas raias do Pinhal do Urso a passear nas dunas como cavalo em picadeiro. De quando em quando suspendia-se e, voltado para o mar, punha-se a bandarrear em voz alta, agitando os braos. Ol mulher, eu se acreditasse em sereias ia dizer que para aquele quadrante as ouviu cantar.

- Credo, homem! No ser a paixo pela mocinha de Monte Real que o traz estramontado?

- Pode ser. Que lhe zarelha no pensamento  to certo como eu chamar-me Lzaro. No me espanta. Com os seus vinte e seis anos, mal escarapuados,  destes que nunca puseram olhos atrevidos em mulher e, quando acertam a embeiar, temos amor de perdio. Coltanaxo, o Penalva s a d a quem tenha disto... - e rolava indicador e polegar, um sobre outro, em sinal de pecnia.

- A armao vale dinheiro...
- Vale e no vale. Com homem de tino, este ofcio 

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como o de boticrio que converte gua em oiro. Com estabanados no passa de corda de enforcar. Imagina tu,

o ano passado ficaram cinco contos saldos; este ano, e ainda o pai governou dois meses, nem tanto com que deitar ponto numa tralha rota. No mandava; se mandava, no lhe obedeciam os homens; caprichou em no meter nenhum no chelindr; na paga era um mos-rotas, ora arredondando as contas em seu detrimento, ora satisfazendo por inteiro a fria de madraos que, s duas por trs, fingiam dores de barriga para no ir ao mar.

Numa palavra, os ltimos quatro meses de arrasto no valeram, repara tu, os dois primeiros. Ainda se no fecharam contas com os cordoeiros; no se pagaram os jornais aos mestres que vieram deitar Cavernas novas no Senhor da MJortuna... tudo atrasos e desgovernos! Mais empenhos, mais dvidas, como se h-de pr a companha em p na prxima temporada? O que anda a magicar, no que vai fiado, no descortino eu. Que havemos de ser ricos... Ms porcas o beijem... ricos da graa de Deus!

Enquanto resmungava, punha a senhora Flora em ordem os utenslios da choupana, acondicionando-os em

cestos que, reservadas as miudezas para os alforges, carretariam  cabea as mulheres dos pescadores, com a mira no naco de toucinho e na tigela de feijes. Arrumao finda, mostrou desejos de ir at a beira-mar, se era certo no estar a rede demorada. E, lado a lado, mansamente, desceram a escarpa movedia que da choupana ia beber nas ondas. Para l, pela estrada e atalhos, se encaminhava a hoste variegada que explora o mar: mulheres de costais  cabea, almocreves licitadores, belfurinheiros, homens dos enchelevares, rapazio, escrivo, mestre Vermoil e o fiscal de piquete, caderneta da borda em punho.

Do cerco, que vinha a entrar, divisavam-se os caneleiros pulando ao aoite da vaga. J as boieiras, chapeli-

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nho a escorregar para a orelha, perna escanchada sob a sala de alteador, aguilhoavam com desespero os bois do manejo; j, a fugir  derivao das cordas, andavam em dobadoira as sardinheiras que se haviam alapardado no areal, contando, espera que no espera, passos que lhes sucediam por essas aldeias de Cristo. Em cabelo, calas de estopa, barba azul ensilvada, dentes de co rosnador, o Vermoil no arredava os olhinhos pretos de sorrelfa da gua turva a espiar o marulho do copo. Sabia-a toda aquele judeu!

Entretanto, ao toque do bzio, o Deus ande comigo tratou de aparelhar para nova largada. Os homens foram-se agrupando ao alto da ribanceira onde estava, no tendal, a rede a enxugar. Quando se viram em nmero, passaram-lhe varas por baixo, e um a cada ponta, espaando-se de dois em dois metros, ala! Camisola de meia cingida aos rins, gaforina ao vento, andrajosos, carne das pernas roxa, com a mole, escura do encascado, bamboando, revestia a sua marcha na luz vespertina um bruto e estranho aparato de fereza e escravido. No castelo da popa, outros travavam os cabos de modo a desenroscarem-se despachada e fluentemente em suas milhares de espiras quando o barco seguisse rota. De p,  proa, o regedor dirigia a manobra, e negro, hirsuto, gesticulando por todos os engonos, nem espantalho de quinta sacudido pela ventaneira.

A distncia dali, a gritaria: arrasta! arrasta! subia desabalada na atmosfera hmida da tarde. O cerco descrevia na vaga o seu refego parablico; em direco  borda, nadavam como ralas as paridas rotundas de que se pendura a rede; atrs, no vrtice da cuada, a calimba saltava, batida pela onda; e pinchando, redoiando, parecia porco branco a banhar-se com hlare espalhafato. Tocavam terra as bocas, emergiam as mangas... Foi ento que pela dificuldade em alar e pelo fervedoiro do

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saco se anunciou lano de tomo. Pulando sobre uma perna, o Vermoil soltou urro; respondeu-lhe com outro, estrdulo e barbaresco, acompanha inteira. Aguilhoaram os bois freneticamente as lavradeiras; agarraram-se s mangas, a puxar, todos os braos. E arrasta! arrasta! a

rede veio trepando, arrepiando o mar. No colo surgiu uma sementeira de sardinha, lavadinha, petinga, biqueiro, enforcados pelas guelras. Imvel, lgubre, ao

centro, um anequim. E quando o saco remontou de todo, grvido e majestoso, rompeu a montanha de pescado a vasquejar e, imprimindo  rede amplas e rtmicas vibraes, a cuspir  luz do Sol mirades de gotinhas de gua, tais cintilas de prata e aljfar, animadas duma alegria de farndola.

- Rico lano, sim senhor, rico lano! - admirou Lzaro, adiantando-se para a rabada. - Pouco carapau, caranguejo nem raa...

Sempre cigano, o Vermoil nem pestanejou. Padejando as manpulas largas, corria duma banda para a

outra a enxotar a garotagem que lhe salteava a redada como a milho na eira os pardais. Num rufo, com os enchelevares, foi a rede esvaziada e distribudo o peixe pela praia em montes equivalentes. Em alimpa acelerada, acocoraram-se em volta as sardinheiras; o perna marota do Pedrosa, escrivo, sacou o lpis da orelha. Leiloava como sempre o Barnab de Quialos, arrais da terra. Baixo, panudo, mosca faceciosa a picar-lhe a face rubicunda de loiro, a sua voz tinha a carcia de rabeca em surdina:

- Est em vinte e um mel rei!... Quem d mais... ? Aproveitando o primeiro descuido, o ladrozinho do Luziairo, mais mexido e invisvel que a pulga-do-mar, tinha-se acocorado por terra, ao lado da me, que o

Vermoil temia pela lngua, face ao monte, na postura repousada dum Buda. Em menos de ave'-maria, cavava

A BATALHA SEM FIM                      41

por baixo das pernas uma cova na areia. E enquanto o

arrais da terra ia buzinando a praa, as sardinheiras mondavam o caranguejo, do qual o macho apenas serve

para esterco, e o peixe-aranha de mordedura venenosa, verdadeiro lacrau do mar, os homens espancavam as tremelgas, os arrematantes se suspendiam do resto do mundo nas asas do prego, enchia ele o celeiro. Logo, quando a hasta desarmasse, ou nas sombras do crepsculo, viria cauto como o raposo desenterrar os seus

haveres. Era este o processo de saque mais comum ao

diabrete. O Brs conhecia-lhe todos os ardis, embora por condescendncia de nimo e instrues do Algodres velho se no precatassem dos ratoneiritos na companha. Talvez por isso mesmo fosse mais poupada dos gerifaltes que a do Vermoil. Larapiar pescado  uma espcie de prova espartana de astcia e desembarao que prestam os

filhos dos pescadores, candidatos a pescadores. Em tais artes o Luziairo, ainda que um dez ris de gente, excedia a todos na vista de lince, mo leve e p alceiro. Ele e os

mais velhos do Passafome, alcunhados de Fomes, Joo Fome para aqui, Joaquim Fome para acol, faziam uma

quadrilha do olho-vivo. Com os dedos dos ps, riscando  retaguarda em jeito negligente de marcha, um dos meliantes lanava ao ar a sarda, o chicharro, a savelha, pea que a mo escondia atrs das costas colhia no voo para de ricochete remeter ao comparsa postado mais

longe. Outras vezes, os homens corre e vira da rede para os lotes a acarretar, e eles, alados como nebris, davam pulo aos enchelevares, preando o que estivesse a talho de mo, no raro choco ou gordo linguado. Mas no se

benziam para, ao erguer olhos os bufarinheiros, atestarem o barrete, os seios e at as calas, que atavam previdentemente nos artelhos, dos costais carregados em

carroas e jericos. Estas manobras tinham de ser executadas em menos tempo do que pia o mocho, pois os

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ameaavam como larpios declarados as rijas manpulas dos guardas-fiscais, do regedor e, sobretudo, do Vermoil. O certo  que em despeito da vigilncia que exerciam sobre os cadastrados em malas-artes, valiam sempre mais as suas rapinas que as rapolas auferidas pelas mes na qualidade de mulheres dos levadios.

Quando o Luziairo cumulou e tapou a sua cova e que lavavam das escamas, nas guas mortas, a rede afortunada, silenciosos, sentidos dos azares da fortuna, Lzaro e mulher afastaram-se dali. A distncia, o Deus ande **coffligo investia para o contrabanco. Varria de largo um

vento arisco, destes que no mar so to fortuitos que s soprados pelos alapes do inferno, e o barco, sem poder transpor a barreira, empinava-se, caa, e sumia-se por detrs das ondas. Aps uma, outra e outra, e ele a morder o mesmo p, a afocinhar, mostrando quase a pino o fundo chato. Viam-se  proa as duas bicas aparecer e desaparecer, to rpidas que nem mos aflitas de afogado. No castelo, o arrais ruivana, impassvel, rouquejava:

- Firma a sotavento! Vs da r, fora! Ao vislumbre do perigo acorrera o mulherio, desertafido a hasta. Comeava a garabulha desesperada que mais desmoraliza os remadores. j as calhandreiras, de rojo pela praia, rabadilha voltada ao oceano para no ver a desgraa, arrancavam os cabelos e, rezando, os seus

dentes batiam as rezas como matracas; outras especavam os braos ao alto, berrando mais forte que cabras esfoladas vivas. A tia Bica afivelara sobre a cara de ave de rapina a mscara trgica, meia de harpia, meia de carpideira. Ao mesmo tempo que conjurava Virgens e Mrtires e dos seus olhos duros caam lgrimas ruidosas, insultava o mar. A cada estremeo do esquife, o aulido geral empolava:

- Senhor dos Aflitos!

A BATALHA SEM FIM                      43

- Minha Nossa Senhora da Encarnao!
- Rico Padre Sant'Antnio, assim como livraste vosso pai da morte, livrai aquelas alminhas do perigo e

da m sorte!

Mas entre duas campas de mar, o barco guinara avante, e l singrava fora da cabea, vergalhado ainda, porm seguro. O arrais tirava o gorro e proferia:

- Rezem s almas, pescadores' De p, uns nos corredoiros, outros nos castelos, os trinta e cinco homens despediam o alento todo; lampeJaram na luz, gotejando gua, as ps dos longos remos; fraldearam dentro da elipse negra dos bordos as camisolas sujas e as carnes  mostra; uma fmbria de espuma picou a gua alvoroada - e l ia a frgil gal. Apagara-se o plido revrbero do Sol no horizonte, por detrs de nuvem de ocre; ao norte, o cabo Mondego tomava catadura monstruosa; a gua era opaca; os vultos na praia sonmbulos, e recordava tudo aquilo o painel aziago duma nau de pestferos, como antigamente, lanados ao mar.

Ao Vermoil, que especara a ver sair o barco, dentes a

arruaar para a gua revolta, disse o Lzaro que rondava pela beira, indiferente  babugem da mareta:

- Senhor Manuel, foi grande temeridade atirar a

companha pela borda com mar assim to cavado...

O mestre franziu os lbios num sorriso que pretendia ser de mofa e lhe ps a descoberto as gengivas carniceiras:

- Amigo, no sou rico como vs para mandar os

homens  sirga com os primeiros chuviscos. Tenho mulher e filhos. O mar est bravo, cumpra-se a vontade de Deus r

O Vermoil rodou que a hasta prosseguia encarniada, deixando a sua gente a rir da cara do Lzaro. Eram sempre assim, ces uns para os outros. Naquela praia

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atlntica, faminta e piolhosa, separada do mundo por lguas de floresta, as companhas eram rivais, fervendo reciprocamente em inveja e rancor. E por mais nada seno porque eram duas. Decerto havia interesses face a

face. No era, porm, com os pilhanos de quatro cascas de noz, operando furtivas e de salto corno gatunos de galinhas, que se esgotava o mar, nem de fartura o peixe apodrecia na lota, desamparado de licitantes. Aquela rivalidade que abrangia uns e outros, escrivaes, vareiros, caladores, regedores, numa palavra todos os martimos e todas as mulheres dos martimos, s tinha explicao na

tendncia que o homem experimenta, sobretudo o homem primrio, de dilatar o campo moral, amando e detestando. As duas patuleias em que a praia se bandeava apenas se no moviam guerra aberta a calhau e faca porque os dios da gente do mar se resolvem no improprio e na assuada. Mas em trabalhos e acrescentos, penas e folgares, estremavam-se a ponto de vestirem anjinhos e armarem andores  parte em festas e romarias.

Enterrado na areia at os tornozelos, a cogitar naquilo, na palavra do Vermoil e nos bons tempos quando o Algodres velho dava sota e s quele pilho de terreanho, que de gua salgada sabia que era lquida pelas unhas dos ps, Lzaro quedou-se ali meio dormente. Fora na esperana de mundos e fundos que se metera o Vermoil ao negcio da pesca, deixando courelas e gados. Testo  ganhua, trazia os pobres pescadores debaixo da pata, merc de emprstimos, que lhes ia fazendo pelo Inverno fora, e do fiado na tenda em que pusera a

esgorjada da mulher. Daquele modo no lhe faltavam escravos para os remos por um salrio que at bradava aos cus. Tambm no era com o bem que lhe rogavam que ele e famlia tinham medras. Se as pragas fizessem mssega, h muita estava, escaqueirado, a fazer tijolo no

cemitrio. O alma de co esfolava os homens na jorna e

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esfolava-os ainda na taberna, surripiando com a mo esquerda de vendeiro os tristes vintns que contava com a mo direita de patro. O Lzaro no o podia ver nem tragado, sabendo-o a formar o salto  arte do Algodres. Pelos jeitos, no tardaria que lhe chamasse sua. Grande co!

Arrenegando do patife, foi em ps da mulher que j dobrava a lomba da praia. Entardecia a olhos vistos e uma inconsolvel e peganhosa morrinha envolvia a aldeia misrrima. O vento rinchava para a mata e, bem o

sabiam todos, eram as primeiras notas, como a afinar, da zanguizarra que nunca mais se calaria pelo Inferno fora. Sentada na soleira da porta, a tia Remgia, meia orate depois que perdera o filho em naufrgio, muito aconchegada no mantel velho, rezava o seu interminvel rosrio pelas almas. Ouvia-se-lhe o sonido spero, murmurinho, e era como pssaro doente a piar. A senhora Flora meteu mo  algibeira e, debaixo das chaves e do lencinho, tirou um quarto de trigo de Leiria que lhe deu. Pela estrada a baixo, a gambiar numa perna s, vinha o Luziairo da Charana, vestido apenas, porque escorregara ao mar, com a camisola daquele que passava por seu pai, to velha e encolhida das lavagens que mal o

cobria at o umbigo. Teria j despejado o taleigo da. rapina e ia encher a cabaa com que a me tomava cada cardina que, duma vez, foi-lhe ministrada a extrema-uno.  porta da Laura Bica, que parira vinte e um filho, de cambulhada ano por ano e alguns aos pares, diante do magote de raparigas que se espiolhavam umas, arremedavam outras as fidalgas com um palhinha velho, embasbacou. Intimado por elas a rodar, persistiu mudo e quedo. jogaram-lhe chufas. Uma, j espigadota, fez meno de pegar num pau. Ele, ento, ergueu mais a fralda da camisa e, empunhando a ferramentinha incipiente de fauno e oferecendo-lha, despediu. Correram sobre ele as pequenas, atirando-lhe pedras. O Luziairo

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deitara  desfilada e, de tempos a tempos, parando e olhando para trs, gritava:

- Bicas, burricas, cara de sardaniscas! Bicas, burricas...

"Ora vissem o bonifrate! - comentava para o homem, divertida com a pantomima, a senhora Flora. Ainda tinha a envide e j fazia daquelas entrudadas! Para que servia a escola que o Governo ali botara se no dava criao aos pirangas? No seu tempo no se presenciavam tais exemplos. Ele a gente de agora sempre nascia com o vcio e a desfaatez toda!... "

Retrucava-lhe o Lzaro, filosfico, que sempre assim fora desde que o mundo era mundo. Ela no via os cabritinhos saltando uns em cima dos outros pelos campos? Mandava-o a natureza, no havia que virar olhos  banda, envergonhados, e tanto valia para aquilo latins e

letras como leite de pombas.

- D hoje urna esmolinha, tia Flora? - murmurou o Rolo, saindo do cisco da rampa como de dentro duma sepultura.

Coitado, era a ltima das desgraas aquele velho martimo que ficara tolhido pelos ares do mar, com as mos to engadanhadas que nem o garrancho de pendurar as candeias. No tinha eira nem beira, famlia nem boa nem m, e no seu semblante havia um ar de piedade tal que dir-se-ia amassado como a bruteza nas rochas e a graa em certos passarinhos. Roto, com a fatiota a cair em frangalhos, carapuo na cabea que deixava furar as guedelhas por cem buracos, andava pelos caminhos a

roer uma cdea dura que, para enganar a fome, devia ser

sempre a mesma. No Vero, quando vinham a banhos os figuros ricos, ia manjando do que lhe davam e dos restos do comer que deitavam fora; no Inverno jejuava, chuchando na broa cedia. Dormia debaixo dos palheiros e na loja que tinha o Posto para recolha dos cavalos.

A BATALHA SEM FIM                      47

Seja por amor -de Deus! - exclamou a senhora Flora, angustiada ante a vista do pobre. - Tens midos, Lzaro?

Lzaro deu-lhe meio tosto e o triste gemeu:
- O Senhor lho acrescente na Terra e lho pague no Cu@

No o gaste em vinho... - recomendou ela, desandando.

- Ouvi contar - disse o Lzaro - que era um martimo honrado como poucos e um boi de valente. V tu ao que se chega nesta safada de vida; nem po cabonde, nem dois cvados certos de terra santa para receber os ossos!

Quase ao p da barraca lobrigaram o Z Algodres, que atravessava a estrada, das dunas para os bastios. Chamou Lzaro por ele, acenou. Acabou o moo por fazer reparo e

virar na sua direco. Eles foram subindo, de olhos curiosos a v-lo caminhar a largos passos, os dois polegares nas cavas do colete que a corrente de prata, enfiada pela casa do boto de bolso para bolso, mantinha semicerrado. Descalo, cabelos ao vento, continuava alado no

seu sonho. Deu Lzaro a parte: ia para Casal Novo dali a

instantes e desejava saber que pedra pr em negcios que no podiam ficar em suspenso... a letra de Esmoriz a vencer, redes a encascar...

- Tem carta branca - atalhou Jos. - Proceda como se fosse o dono.

No se conformou o escrivo com a resposta e, novamente, fez aranzel do mau caminho que as coisas iam levando e da necessidade de mudar de vida. A quem pedir dinheiro para pagar a letra? Queria que batesse  aldraba do Eudxio, que levava coiro e cabelo, para de fiador passar a credor, ou preferia cair nas unhas do Vermoil, que estava pilando por meter dente na companha? Se os cordoeiros anussem a reformar, bem ia; de

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contrrio, qual dos dois trastes ocupar, o ganancioso ou o unhas-de-fome? To bom  o Diabo corno sua me, mesmo assim ele votava pelo financeiro da Ervedeira. Mal ensacasse o milho, que tinha a estragar na laja, dava ali um salto e com o Mira, que avisaria para a Vieira, punha as coisas na aprumada.

- Homem, disponha como entender - respondeu-lhe o Algodres, como se aquele zelo o contrariasse. Estou por tudo; que mais quer?

- Pouco viver quem te no vir de alforge a mendigar! - desfechou-lhe Lzaro, exasperado ante tanta indiferena.

- Deus  que dita...
- Sim, mas deu-nos o entendimento para no tomarmos os maus caminhos pelos bons.

Ia o Algodres a tornar costas quando desembocou na estrada, duma das betesgas, grande tropel de gente. Eram os homens da companha, com as famlias, que migravam. Haviam-se ajustado com o Algodres em contrato lavrado na Capitania do Porto, para o semestre da safra,  razo de oitenta e cinco a cento e cinco mil ris por ms. No seu belo direito, o Jos houvera por bem antecipar a fecha da temporada contando-lhes a fria por inteiro, e ei-los que partiam, um pouco  aventura, moinar, lazarar pelas portas das terras fartas, ou recorrer a oficio que os sustentasse e  cfila. Nos seis meses de pesca, impedidos de rescindir a matrcula sob pena de priso, eram escravos; nos meses restantes, pedintes, na generalidade, pelas alminhas do Purgatrio.

Seriam, entre adultos, mulheres e crianas, passante de cem. L vinham e, p nu, intonsos, ajoujados de mondongos e de atafais, torn-los-iam por alcateia de ciganos em jornada, se no fora as vestes escuras das mulheres, todas com ar de vivas ou em transe de

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enviuvar. A parte o Alberto Marrazes, que trajava cala assertoada de cotim, sapato de prateleira, vstia a tiracolo, era a procisso dos esfarrapados. Com a vinhaa da despedida uns traziam na garganta, perra do lcool, da bruma, da gua do mar enxuta no corpo, uma choca cantarola; outros marchavam cambaleando, olhos muito fitos a tactear o cho fugidio. Morenos na maioria, atarracados ou franzinos, sem carcter, diferenciavam-se entre si como se representassem a escumalha de vrias raas. Para se ter uma ideia de sua pobre humanidade, bastava v-los caminhar: tristes, ainda que ruidosos; lentos, embora afeitos a lances de rapidez e desembarao; sebentos, posto que aquticos; de andar desgracioso, aprendido nas naves sem quilha nem leme.

Avanavam lentamente por causa dos borrachos, de sua natureza ronceiros, e dos carregos, que eram para desancar. Certas mulheres traziam o filho ao colo e uma arquita  cabea; outras, com o fardel ou canastra  cabea, puxavam pela mo, de cada lado, um menino. A poucas se via o chapu de veludilho, e a nenhuma canos, supremo luxo naquela corda de terras. Eram, alm disso, feias, soturnas, maltrapidas e, se bem que moas no poucas, com aspecto de velhas.

Arranchavam os midos  frente, e vergados sob fardos descomunais ou com os irmozitos s cavaleiras, iam gazeando, e o seu chilreio lembrava o passaredo nas

rvores ao recolher da noite. Meio nus, encardidos, picados das bexigas, ranho a pingar, ventre inchado por duas ou trs indigestes aps panadas de rafa, traam pelo nmero a fecundidade das mulheres da beira-mar. A fome, a imundcie, os andaos ceifavam neles  foice larga e sempre ficava enxame. Era um repulular de coelheira. Quando voltavam da pesca, os homens, excitados pelo perigo e pela salsugem do mar, atiravam-se s mulheres, at diante dos prprios filhos, desatinados,

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como lees. E ao viveiro nem malinas, nem lcool, nem naufrgios conseguiam desbastar.

Ao chegar junto dos trs estacou a horda. Tiraram os, homens o gorro, suspenderam-se as mulheres no meio da estrada a namorar os canos e a boa saia de merino da senhora Flora.

- Para onde vo? - perguntou o Algodres. Respondiam todos a um tempo e nada se apurava da gralhada. Questinou-os um por um:

- Passafome, aonde se dirige voc?
- A Mata Moirisca, patro - pronunciou o pescador titubeando, a esconder com a manpula aberta os

arranhes que a mulher lhe fizera quando, pela certa, se

defendia das frias do bbado. - Tenho l uma cardenha; dou a jorna maila coira da minha senhora.

- Coira da senhora... 1 - resmoneou Ludovina do meio do rancho. - Cachorro, malvado, no o tragar o mar s cem braas! D a jorna ... ! A escrava  que trabuca, quant's o fidalgo que passa o dia na taberna. Cachorro, vejam os bonitos tratos que me fez... - e mostrava grande lanho na sobrancelha e o jaqu esfrangalhado.

- E tu, Marrazes? - interrogou o Algodres, passando em julgado, que ali no era tribunal, as queixas da criatura.

- Fico no Coimbro, numa derrubada.  chamar por mim, e presente.

Bem. E o Pamplino? Coou na nuca o jogral e depois de hesitar disse:

No sei. Vou ao calhas, onde me no derreiem com trabalho e tire o ventre de misrias.

- Quem te no conhecer que te compre' - exclamou o Brs. - Vais mas  de bornal ao ombro pedir

com a familagem pelas portas ... !

A BATALHA SEM FIM                       51

E  algum pecado? - redarguiu o Pamplino com arreganho. - S. Paulo tambm andou a pedir...

- Voc, Afonso Penela?
- Chego-me  Nazar. Se houver sade, meto-me maila patroinha a vender peixe de terra em terra.

Estes que contavam com ganha-po nas sachas, aqueles na apanha da azeitona, aqueloutros nas serraes, certos nas fbricas de vidro, sem falar nos vrios que, no tendo arte seno para os remos, adoptariam a gandaia, de todos o Algodres tirou inculcas no tom de quem obedece a imperioso e oculto propsito.

- Vo em paz - disse-lhes em jeito de adeus. Talvez precise de vocs antes do Inverno fora...

- E para qu, se no queda mal o perguntar? pronunciou o Lavagante.

- Ao tempo se saber.
- Homesssa, no se pode saber hoje? S se o patro quiser armar connosco uma quadrilha como as da Terra Quente...

- No tnheis alma para isso, embora vos no faltasse vontade - respondeu o Algodres, chalaceando.

-  para alguma batida s raposas?
-  para irmos trabalhar para o tal castelo que, dizem, vomec queria fazer nas Mamas da Rainha?

- Ento para que ?
- Adeusinho! - exclamou de rompante o Jos AI~ godres, afastando-se. - No estejam a quebrar a ca~ bea. Se forem precisos como imagino, eu mandarei recado.

- Sabeis para que ? - emitiu Lzaro em tom srio, despeitado que o moo no lhe confiasse os projectos, que alis antevia fantsticos ou de cacarac, e em voz to alta que ele ouvisse. - Sabeis?  para irdes ocupar com ele os Farilhes... quer ser rei da ilhaaaaal Viva o rei dos Farilhes11

52               AQUILINO RIBEIRO

Ficaram boquiabertos, sem perceber, aqueles homens simples. Os Farilhes eram um areal em face de S. Martinho do Porto. Por baixo da areia havia terra. Porque no?

- Viva o rei dos Farilhes' - alou uma voz bbada, ao cabo dum instante de dvida,

Mas j a vanguarda da hoste - mulheres e crianas rompia marcha e os homens, ante a cara jocosa do Brs, despegaram tambm. O Lavagante trauteou, e logo multas goelas secundaram num coro plangente em

que soluavam os gnios da fatalidade e a sua misria de escravos:

Eu sou o mar, tu s a terra, Tu mais rica eu mais valente. Ambos dois na mesma guerra, Qual de ns comeu mais gente!?

Eu sou a terra, tu s o mar, Qual mais tele ao mundo? Eu dou a casa e o pomar, E tu... o pego sem fundo.

111

Batiam oito horas no relgio da torre quando o Algodres e o Marrazes, deixando s espaldas as ltimas casas do Coimbro, tomaram pela vereda, cavada entre terras de vinha e semeadura, que leva ao campo. Estava a noite branda, cheia de sossego, ladridos de rafeiro para as

arribanas mais lhe acentuando a calma impondervel. No tinha nascido a Lua, mas sob o flamejar das estrelas, recortavam-se ntidas na atmosfera difana, pelos taludes dos caminhos, as grimpas dos espinheiros e dos marmeleiros bravos. No horizonte negrejavam os renques opacos das matas de que um ou outro pinheiro sobressaa solitrio, como alta, hiperblica e estrigada roca. Sob a claridade difusa, porm, paredes, plantas, coisas revestiam formas estranhas, compondo ao longe perspectivas da mais especiosa e ftua viso.

No haviam dado grandes passos, comearam a encontrar gua; no a gua morta das chuvas que choca nos alagoeiros e sulcos das aradas; mas a gua viva, embora silente, imvel, delgada como papel, que se alimenta da madre graas a pequenas e complexas redes vasculares por baixo de ervas e chaparros. Chocalhando aqui, porejando acol, no passava, no entanto, de babugem, a babugem da cheia de que se sentia o bafo hmido e que se senhoreava do vale com a repousada segurana dum lago.

Leva que leva, fugindo do atalho para os agros, dos

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agros para o atalho, pinchando de calhau em calhau, ora s canchas, ora nos bicos dos ps, os dois l iam vencendo caminho.  medida, porm, que adiantavam, surgiam-lhes chafurdos mais extensos e lamaais mais

movedios. E, porque o cu era um fervedoiro de lume, cada pocinha, reverberando, tinha dentro uma estrela, a

bruxulear como lamparina de noite.

Merc das botas de borda de gua, bem ensebadas,      o

Algodres marchava afoito, sem resguardos de maior; mal apetrechado, o Marrazes fazia toda a sorte de acrobacias para evitar os tremedais e, a cada deslize, as pragas de sua boca saraivavam. Burlador, observou-lhe o Algodres:

- Homem, conta com lama at os mamilos.
- Nos mamilos, no sei; do umbigo j ningum ma tira    respondeu em tom faceto. - Se aqui, pouco menos que nas abas do povo,  assim, que no ser para o rio Negro? O mais seguro era dar meia volta por Monte Redondo...

- No; pela vila chegvamos tarde e s ms horas. Se tens medo, ests a tempo de arrepiar...

- O medo deitei-c, fora com os primeiros cales que rompi. Para onde for, vou eu.

- Daqui a pouco saltamos na barca dos Leais e  um rufo a travessia.

- Amm Jesus. Bote  frente! Embrenhando-se para a vrzea, mais e mais a trama dos poceires e as estrias de gua se apertavam. Mal punham p que no chapinhasse. E, pois que os carreiros esgaivados no saibro e no areal eram prfidos pegos, cortavam a direito pelas terras. Mas havia sempre brejos atoladios, que a noite e o ervaal balofo mascaravam, atravs dos quais s caminhantes escarmentados como

eles podiam singrar sem perigo.

A meio da vale a terra apareceu-lhes parcelada em

A BATALHA SEM FIM                      55

pequenos ilhus e, em torno, a gua encandeada pelos fogos siderais dormia tranquila. Para avanar, foroso lhes foi descrever rodeios sobre rodeios, aproveitando-se como de alpoldras dos breves tortoles de solo a descoberto. j no era a gua fina como lamela de vidro ou dissimulada nas covas e sob a cobertura das sombras e da vegetao hibernal; mas, sim, a gua espelhenta, estanhada, contnua, ocupando a plancie como grande e

vitorioso inimigo; um inimigo que abertamente intimava a fazer alto.

Ante uma toalha de gua, de que no viam a orla, detiveram-se um instante, perplexos. Iam molhados at meia perna, exaustos a poder de saltos e reviravoltas, e

no descortinavam passadio fcil para as arribas do rio Negro.

- E agora? - exclamou o Marrazes.
- Agora o remdio  passar a vau.

Isto dizendo, despiu Jos Algodres as botas, as calas, fez uma trouxa e p-la s costas. Depois, com um pau a apalpar a profundidade, meteu-se decididamente  gua.

- No iremos cair nas valas... ? - proferiu o Marrazes, suspicaz, se bem que resoluto.

- Vem no meu rasto; aqui no h valas. Fazendo tremeluzir e lucilar os cachos de luz que do firmamento se reflectiam na gua quieta e pareciam desprender-se e Ir, como ninfeias de oiro, enrodilhados neles, atravessaram comprida lagoa. Erguiam-se esguios e hericos, como lutadores que se no rendem, os choupos; ensilvados e finos, de ramsculos a varrer  flor, teciam esquisita e an paisagem aqutica os sanguinhos e

vimieiros das balsas. De tempos a tempos, duma touceira de ervas, rompia grosso motim de asas; eram bandos de patos bravos e alcatrazes, estremunhados do sono, que batiam em revoada.

Na ribanceira do rio Negro, absorvido pela enchente,

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encontraram a barca amarrada por forte grilho de loquere ao tronco dum amieiro. Deitando-lhe mos nervosas, o Algodres puxou. E, ouvindo ranger ao ferro o breve rouquido dos ces de guarda em que no h nada que fiar, disse para o companheiro:

- Est para afligir! Procura tu a vara que no deve morar longe; eu vou ver se desencanto um raio com que rebentar o cadeado.

Pulou a  pinhal de bastio eriado na penumbra, com o seu qu de horda afrontada ante o dilvio que lhe tolhesse o passo. Andou, mexeu sebes, explorou balizas, e desesperava quando descobriu, cravada no solo, grossa estaca, resto duma vedao. Arrancando-a em dois snaffies, rodou. Debruado para a angreta, tentava o Marrazes com o coice da vara desembaraar a bateira.

- Arreda' - exclamou o Algodres; e insinuando e manobrando a estaca  laia de alavanca, num ai, como se fosse a barbantes podres, estoirou os fuzis de ferro.

Saltaram no esquife e o Algodres, empunhando a

vara, f-lo guinar rumo ao sul na planura irreal, argntea, das guas da cheia.

- Devagar, que se estafa! - disse o Marrazes.
- Revezamo-nos aos pedaos - respondeu Jos Algodres, varejando forte.

A barca, tocada pelas mos robustas, vogou ligeira, ainda que romba de proa e de fundo chato. Um sulco branco na superfcie branca, uma alegre matinada de ondinhas que fugiam em redor, o clap-clap da vara percutindo a massa lquida - e l iam no imenso e silencioso deserto. Dentro em breve nem folha, nem fibra verde lhes diziam que ali era o campo onde, pelo Estio fora, repenicavam suas cantigas as lavradeiras. Mas o cu j estava em festa, aceso como altar em aleluia, e o batel ia devassando um jardim, todas as flores que retingem, dlias, cravinas, aucenas, tulipas, trmulas

A BATALHA SEM FIM                     57

ou deliquescentes na espelharia das guas. A Lua erguera-se no tope do horizonte, e a sua rstia, desenrolando-se e fosforeando diante deles como lhama de prata, parecia demarcar-lhes o rumo. Do alto, sobre aquela sorte de canaleto, peneirava-se uma poalha irisada e

buliosa como dilculo de Vero. Esta luminosidade deixava-se atravessar pela vista at longe, onde, adensando-se, semelhava neve a esflorar-se de cu diurno.

Possudo do mistrio da noite, o Marrazes tirou o chapu e ps-se a rezar em voz alta. Barquejando com

inaltervel viveza, Jos Algodres respondeu. E foram assim por muito tempo, um pouco pvidos da solido, cortando ao sul, sem outra bssola alm da estimativa da linha recta.

Caa codo, moinha invisvel e traioeira que picava na carne mil picos acerados. Disse o Marrazes a tiritar:

- Passe-me agora a vara...
- Mais logo. Mas insofrido, deitando-lhe as mos  vara, o outro obrigou o Algodres a ceder. Seriam dez horas da noite e das bandas de oeste um ventinho gil acertou trazer-lhes a zoeira cava e rolada das ondas. Encrespou-se a face das guas, sem que murchassem as flores de fogo que o cu aberto despejava nelas s braadas.  cautela, no fossem cair ao mar, o Marrazes orou a barca a Sotavento. Faltava boa metade da travessia, e o Algodres estendeu-se contra a proa, olhos fitos nos abismos celestes, enquanto a barca corria, saltava, parece que punha asas

para voar. De ls a ls, a todo o longo da Estrada de Santiago as estrelas cintilavam; mais mortias umas que morres de candeia; espertas outras que nem pirilampos; grandes e de luz embochechada aquelas, como bales de arraial. Sucediam-se por escala degressiva nas profundidas do espao, bem figurando serem luzes de trono a que             10 se no vem os degraus cimeiros. Podiam, em pinhota,

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passar por candelabros de vrios lumes; em linha, por lanternas processionais; esparramadas, por lampiezinhos de azeite, destes que levam as velhas pelo escuro dos caminhos e tremem  virao. Alumiariam a Deus, porventura, e algumas, distribudas como lindes, com sua chama plida guiavam os nautas no ermo e infinito mar. Possuam, alm disso, o condo de presidir  sorte das criaturas, segundo era f dos antigos de pensar sempre acertado. Qual dentre elas governava o seu destino? Nunca o poderia saber e, no entanto, o seu claro poisava-lhe na cabea como enxame de ptalas de amendoeira ou prateado carapuo; teria florido de luz os seus olhos; filtrado em seu seio o ardor com que acalentara o sonho maravilhoso. No sabia qual era, mas no importava.  semelhana dos soldados da Grande Guerra que tomavam para madrinha senhora que no conheciam, que nunca viriam a conhecer, elegeria ao acaso do olhar uma estrela como padroeira. Qual? Aquela, ao p das Duas Marias, redonda e verde que lembrava os globos da Farmcia Temudo, em Monte Redondo. No stio em que estava no era fcil perd-la. Sempre que se tratasse de lance de fortuna, consult-la-la primeiro. Seria assim a sua madrinha de guerra. j de olhos batidos pelo seu luar verde, lhe pareceu que o corao se lhe magnificava. Oh, ia ser rico, fabulosamente rico, com posses para trazer navios no mar, adquirir quintas, vastas como o Pinhal do Rei, erguer palcios ao estilo da fidalguia! No espao de trs ou quatro semanas, se tanto, viria  luz do Sol, arrancado do esconderijo em que h dezenas de geraes Deus o guardava inviolvel, o tesoiro sem par: montes de gemas, rimas de prata e oiro, em barra, amoedado e cinzelado. As primcias seriam para Aquele que tudo lo manda e o bafejara da sua graa. Frente s' ondas, em arriba sobranceira, elevar-lhe-ia um templo, to faustoso e to soberbo que fosse o pasmo dos nave-

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gantes a bordo dos transatlnticos, recebesse primeiro que o pinheiro mais alto o arrebol da aurora e o ltimo raio do Sol quando  noitinha se afunde no mar. Viriam benzer e consagrar a baslica esplndida os padres da diocese com o bicharoco do bispo na vanguarda; rogaria as bandas de msica e os gaiteiros que h de Coimbra a Leiria, e queimar-se-lam em fogo preso e do ar os melhores artifcios de quantos pirotcnicos alegram os arraiais de Portugal. Vestiria os nus, albergaria os velhos, dotaria as donzelas pobres, casadoiras; e na procisso vistosa, coalhada de bandeiras, andores, fogaas, anjinhos de asas de pata, que teria de trilhar o longo caminho do Coimbro at a praia, s pediria para si a

mortalha branca dos penitentes. P descalo, cabea descoberta, a sua humildade seria grata ao Senhor que o

tornara incrivelmente poderoso. Cumprida esta obrigao, cuidaria do seu interesse particular. Quando fosse a pedir a mo da sua amada em luzida e nobre equipagem, como convinha  cerimnia, o Penalva havia de dobrar a fronte, repeso da quarentena que lhe ditara. No pretendia humilh-lo, no; mostrar-lhe apenas o que valia. Ah, no fosse ele o pai da constante e terna Filomena, que o seu regalo seria atafulhar-lhe pela boca abaixo um

rolo de peas... as peas indispensveis com que adquirir "vinha para dez pipas, terra para trs jeiras e casa de soalho" . Mas pelos doces olhos tudo perdoava. A sua

Filomena receberia dom de fidalguia, no pisando segunda dona numa roda de multas lguas. E os filhos porque haviam de t-los bonitos e asseados - botariam a doutores, engenheiros, homens de luva e bengala.

E se o tesoiro no passasse de louca inveno do entendimento? No podia ser; era to real como quela hora atravessar os campos do Lis, inundados pela cheia de janeiro. Repoisava sobre premissas seguras e insofismveis a descoberta venturosa. Base e garantia capital

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era a pgina do velho livro mandingueiro, j sem frontispcio e sem nome de autor, presente  sua memria:

" ... e o prior dos Crzios encheu uma arca com o oiro cunhado, avultado cabedal para onde corriam h sculos as rendas de muitas terras e prazos, tenas e patrimnios de novios, sem falar nos legados dos reis que sempre votaram particular afecto aos frades bentos de Coimbra. Noutra ajuntou os pintos amealhados pela comunidade em missas, produtos de obras pias e oferendas, em tal cpia que no houve outro meio de avaliar-lhes o montante seno medindo  rasa. Na terceira e na quarta disps o tesoiro da capela, estimado superior ao da Mirra de Lisboa em preo e sumptuosidade. De lgrimas nos olhos e com fundos suspiros, trespassado da grande mgoa de se apartar de to custosos e perfeitos objectos, foi o digno prelado acamando em serradura pxides, abrolhadas de rubis, de brilhantes e topzios que os primeiros vizo-reis trouxeram da ndia, clices que as esmeraldas, safiras e turquesas revestiam de lumes de vitral, hostirios esculpidos pelos grandes mestres, turbulos, custdias e outras alfaias, que valia bem cada pea uma herdade. Ao centro, para mais resguardo, acondicionou o cibrio, orgulho do mosteiro, recamado de berilos, ametistas, gemas de purssimas guas, com grinaldas de prolas, jacintos e opalas, o todo soerguido por dois querubins de oiro macio, cinzeladura dos mestres italianos de Quinhentos e ddiva do Papa Jlio 11  comunidade. E s mos-cheias, pelos vos que ficavam das espcies preciosas, semeou diamantes soltos, maiores que ovos de andorinha, bisalhos com jias raras, sardnicas talhadas em camafeu com as bentas efigies dos papas e dos grandes doutores da Igreja, e toda a casta de pedraria fina que se colhe na sia e nos Brasis. Atestadas as arcas, que eram de ferro e com precintas tambm de ferro, o prior desceu as tampas e, depois de as fechar,

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lanou as chaves  cisterna. Da, chamando trs frades, em quem a resoluo no desluzia da virtude, que haviam revestido para a boa sada do cometimento o disfarce de almocreves, disse-lhes:

- Em nome de Deus Padre Todo-Poderoso, eu vo-las confio. Levai-as...

Transportaram ento aqueles religiosos, que eram

moos e pujantes, as arcas para a cerca e as carregaram em duas mulas. Tinham-se confessado e ajuramentado e

saram da cidade depois do apagar dos fogos, a favor da escurido da noite. Foi numa quinta-feira e, dois dias andados, entravam os franceses em Coimbra. No se demoraram os malditos a invadir o mosteiro e praticar na santa clausura toda a classe de latrocnios e profanaes. Mas o tesoiro, glria da Ordem, estava longe, a

bom recato,

Foi assinalada a passagem dos trs almocreves em

Montemor-o-Velho e na Marinha das Ondas. Neste povo estiveram colhendo informes da terra das dunas e do pinhal que nosso senhor D. Dinis mandou semear  beira-mar. Mais tarde foram vistos nas cercanias do Grou por duas vezes, com dois dias de intervalo. Da primeira, no pinhal chamado do Urso e ocupavam-se a abrir uma cova na areia. Os mateiros, que os aperceberam, mal deram conta haver sido sentidos, no receio de que lhes fizessem pagar caro ter olhos e olharem, fugiram a ps de cavalo. Da segunda vez, j no levavam as carps.

A volta para o convento, os trs recoveiros caram nas mos dos franceses que, descobrindo-lhes tonsura e tomando"os por espies, os passaram pelas armas. E assim desapareceu o tesoiro dos Crzios, que computavam em

oitocentos mil cruzados pela ora a olhos cegos, e s Deus sabe onde jaz escondido e se tornar  luz enquanto o mundo for mundo. Conta-se que na noite em que os

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trs servos de S. Bento foram martirizados pelo brbaro inimigo, um deles se mostrou em sonho ao prior e lhe falou: o tesoiro est sepultado nas areias, numa grande mata,  beira do oceano. O Senhor no-lo manda guardar sob a forma de trs milhafres at que venha o homem de corao limpo, mos e ps lavados em gua salgada, sem pai nem me, eira nem

beira, que haja de o desenterrar. E l est e ningum lhe chega enquanto Deus quiser."

Ouvira ler esta relao ainda menino e nunca mais o teor se lhe varrera do entendimento. Com a ideia fisgada no tesoiro viera seu pai dar  praia agreste. De pararia com o Antnio das Uchinhas, bento e santarro, batera o

Pinhal  do Urso de cabo a rabo, escavando as lorgas e

refegos da areia. Consultara adivinhos e corpos-abertos. Mas baldou-se toda a porfia, no havendo a registar na casa, em matria de acrescentamentos, um prato novo de Coimbra.

Ao lume da lareira, pelas noites velhas de Inverno, era frequente aludir a tia Zefa ao tesoiro assombroso dos frades. Seu pai, que alis no reunia as condies precisas de desencantador, arqueando as sobrancelhas e repregando os beios sob os dentes, ficava a abanar a cabea. Semelhante mmica traduzia o seu desconcerto. E de olhos no braseiro a esmoer-se em farelo se abismava a cogitar, e ele sentia-lhe o pensamento tecer, urdir, como

aranha, tela inextricvel em redor das riquezas misteriosas. Ao arrancar da longa cisma, como se quisesse pr um dique  prfida maquinao, de rompante dizia:

- Vamos  deita. Desta arte, ao calor da cupidez paterna, a imaginao nativa e bisonha se lhe foi desenvolvendo e excitando na representao dos haveres encantados. E pouco a pouco arreigou-se-lhe a esperana de que fosse ele, se no por obra de acaso, merc da graa de Deus, o descobridor do tesoiro. s escondidas, quando o pai desarvorava, corria

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ao armrio ler e reler a pgina maravilhosa. Por este jeito lhe quedou gravada na memria, com tudo o que encerrava, at o mais mediato, em expresso e forma: vocbulos, letras, pargrafos, cor e rugas do papel, inclusive mculas da humidade.

De manh no se erguia,  noite no se deitava sem rogar, ajoelhado na cama, aos santos da devoo: meu

rico Sant'Antoninho, Virgem Senhora da Aparecida, fazei com que descubra o tesoiro dos frades'

Durou mais de quinze anos o seu transe. Afinal, falecido o pai, acompanha s portas da runa, um tanto pelos azares da sorte, no pouco de peito feito, sem

palmo de terra onde plantar ramo verde, conciliava os

requisitos quase todos do homem predestinado a pr mo no tesoiro: corao limpo, pois aborrecia a malcia e a falsidade, mos e ps lavados em gua salgada, como trabalhador que era do mar, sem pai nem me, que assim rezavam as folhas voltadas do livro de Deus; quanto a

eira e beira, tudo sacrificaria para propiciar os destinos.

Certa noite, os gnios celestes, amerceando-se dele, em viso retrospectiva conduziram-no ao lugar e hora em que os trs freires ocultavam do invasor os bens inestimveis de Santa Cruz. Era ao entardecer, em brenha cerrada de silvas, samoucos, miporos, onde a custo penetravam os raios do Sol. Enquanto um dos religiosos velava, os outros abriam na areia cova profunda, de mais

de vara, para inumar pestfero. Pinheiros novos, a todo o mbito, escondiam o stio das bandas da terra, que para

o ocaso alongava-se imenso e solitrio o bravo mar. Depostas as arcas, atupida a fossa e aplainado o solo de modo a no parecer mexido, mediram com referncia 

costa um ngulo que de futuro lhes permitisse determinar matematicamente a situao do tesoiro. Feito o qu, tiraram as mulas ao largo, para logo volverem atrs a

apagar o calcadoiro em boa extenso do percurso. De-

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pois, seguros de que ningum os espreitara, desopressos da grave incumbncia, a cavalo nas bestas possantes, despediram.

Como em diorama, viu em seguida dobarem anos, geraes, varrerem as areias, formarem morouos, duna, e, crescendo e bracejando at    atingirem alturas descomunais, sobreporem-se  **1n;waso, em guerra acesa com o assaltante, os pinheiros bravos. E, signo supremo, divisou trs milhafres a pairar de asa desembainhada sobre as rvores gigantescas e a gemer.

A partir do anncio extraordinrio, deu-se a explorar

a mata palmo a palmo. Trazia nas meninas dos olhos, minuciosa como estampa aberta a buril, a paisagem entrevista. Mas corri identific-la no terreno no atinava o seu faro e ral de batedor. Alm de consultar bruxos e mulheres de virtude, solicitou com dissimulado desgnio o aviso de pessoas que lhe o, como fizera seu pai pareceram competentes quanto  fidedignidade do livro e  inteligncia dos sonhos. Se bem que no lhe amortecessem o alento, nenhuma das respostas lhe ministrou senha que o encaminhasse. Desesperava depois de meses e meses de pesquisas quando, na noite anterior, segunda vez viu em sonho a duna entreabrir-se e, como ourio maduro, patentear nas entranhas as arcas de ferro de S. Bento. Depois, as duas moles de areia, nem que girassem sobre gonzos, comearam a mover-se, a rodar, cisparam-se de todo, e a seus olhos desenhou-se o terreno com o relevo particular, bossas e pregas, sinuosidades e contornos, pinheiros e tufos de samouco e zimbro em determinada ordem geomtrica. E, como selo de tal revelao, novamente distinguiu as aves de rapina em suas rondas e voejos. Naquela mesma manh, com a alba, correra ao pinhal, e na denominada Cova da Serpe achou reproduzido, sem faltarem os passares vigilantes, o panorama vislumbrado. Rendido  evidncia, cara de

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joelhos no cho, e em delrio, arrebatado por asas msticas, enaltecera ao Senhor.

Pois que recebera do Alto a munificente comunicao, o seu cuidado era agora dar curso  empresa. A duna ocupava mais rea que uma courela de trs moios, embora, havia de revolv-la de cima a fundo se tanto fosse mester, at pr s escncaras o estupendssimo contedo. Fossem precisos rios de dinheiro, rios de dinheiro aviam de correr. Antes de mais nada, apressava-se a levar a Filomena a grande nova. Advertida pela Carma padeira, ela l estaria  janela ou no paredo a esper-lo, embrulhada no xailinho de l. Seria das derradeiras 'vezes que a furto trilhava aquele caminho. Mal dele se muito breve,  luz do Sol, no aparecesse ao Penalva com a deprecada:

- Aqui lhe venho pedir a filha. Nesta mo trago com que comprar vinha para mil pipas; nestoutra, terra para cem jeiras. Ainda lhe no serve? Ento ponha-me em hasta a vrzea do Lis que tem comprador.

Assim mesmo. O Penalva havia de afocinhar com o orgulho todo no cho. Mais tarde, quando tivessem feito pazes a valer, oferecia-lhe um garrano, um bom garrano selado e bridado, para andar pelas feiras, feito lorda, a arrotar grandezas.

- Vamos a derirar! - exclamou o Marrazes. -  o Lis...

A toda a extenso, hirtos como praas em formatura, os choupos e salgueiros perfilavam-se em linhas paralelas  flor lvida das guas. A cheia alterosa apequenava-os e pelas ramas destroadas escorria, branco como linho asseado, o luar. Em frente, na fumarola do cu, confundidas com as estrelas, luziam janelinhas de Monte Real, encarrapitado no cerro. Sempre que lho permitia a profundidade do rio, o Marrazes varejava forte. A descer, ia encostando para a margem.

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- Esperas-me na venda do Hilrio, caso esteja aberta
- disse o Algodres, deitando mo a uma frana para abordar. - Seno olha, acendes fogo por ali perto; eu

vou l ter. Cuidado, que a barca fique bem amarrada! Seno, adeus volta...

Embrenhou-se por atalho ngreme e escorregadio, choupal dentro. Por cima da cabea, a estrela vizinha das Duas Marias irradiava, rotunda e luminosa, uma luz mais verde. Parecia ensinar-lhe o caminho.

Breve batia o taco ferrado macadame fora e, tomando a primeira viela que vinha da povoao, encontrava-se diante da casa do Penalva. Ficava esta no encontro de duas ruas, com prdios baixos e quintais entremeados a

todo o longo. Para uma abria o seu balcozinho alpendrado, com as esteiras recolhidas por via das chuvas, mas

com vasos nos parapeitos  espera da Primavera que viesse enflorar os pelargnios; para a outra, o cercado de muro alto e cancela de tbuas, vergel de laranjeiras e de duas ou trs rvores de caroo de par com pocilga e

abegoaria. Nesta parte, que eram as traseiras do edifcio, se falavam os namorados. Com a boa quadra e dias remansosos, a sabor das sombras que difundiam as fruteiras enfolhadas, ela do muro, ele da rua; nos dias de Inverno, Algodres saltava o paredo e, sob o beiral do telheiro que fazia esquadria com o quarto de Filomena, arrostando uma arcabuzada, falava-lhe para a janela horas to esquecidas que, mais duma vez, a manh lhes arroxeou o horizonte. Oferecia-lhes certo resguardo a

circunstncia da construo se desenvolver em linha quebrada e estarem ali no extremo saliente. No ngulo, de tope quela espcie de cubelo, apoiava-se a escada, pois com o terreno em declive a casa aumentara para aquela banda mais de dois cvados de p direito.

Um bom migalho se quedou o Algodres esttico diante da habitao adormecida. Tinham acabado de

A BATALHA SEM FIM                      67

cantar os galos e no se ouvia o mais frouxo rumor. De sbito viu negrejar um vulto rente  parede, ao amparo dos ramos esguedelhados. Era ela. Mos que se estreitam, olhos dum que se banham na meiguice dos do outro, menos sofregamente do que se enlaam e se

penetram as almas. Foi ela que rompeu o silncio que os aconchegava como lenol nupcial:

- Vieste por Monte Redondo? To longe...
- No, vim a direito pelo campo.
- E a @cheia?
- Passei de barca; se no houvesse barca, botava-me a nado, Sabes, Filomena, trago-te uma grande notcia... H-de te parecer romance, mas no ...

Digo que no digo, pois que para isso viera especialmente, acabou, instado, por contar. E contou o grande sonho, uma nuvem branca, de noite de Vero, na conscincia do pai; nuvem que fora inchando, condensando-se sobre a sua cabea at frutificar na iminente chuva de oiro. As suas nsias, os seus quebrantos, a sua f e os confortos que tirava daquele nico e infindvel amor, eram como borbotes vermelhos da narrativa exaltada. A Lua foi subindo, postou-se por detrs duma chamin a espreitar, e ele continuava desfiando a epopeia magnfica. Havia um arrepio de alvorada a nascente, disse-lhe ele:

- Hs-de ser a inveja do mundo todo!
- Meu Jos, tanto te quero rico como pobre. A voz de Filomena, depois daquela frvida e sentida confisso, gelou-o; quase o fez gritar de dor. Mas recalcando a mgoa, retorquiu para os olhos negros, escrutadores, que o fitavam:

- Vais ver, vais ver!
- Olha, eu no sei o que meu pai traz no pensamento; mas adivinha-me o corao que coisa boa para ns no .

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- Mas qu? Dir-lho-la mais tarde; agora no valia a pena; talvez se enganasse. Mas o Algodres ergueu a voz, exigiu. Oh, que havia de ser... ? O meigengro do Jlio da Sebastiana que no lhe largava a porta todo fragueiro e rapaps. Quando no vinha pelo brao do pai, aparecia de rpia, a modo de quem anda aos negcios. Na sua famlia todos se desfaziam em amris para o mequetrefe. j a me, como quem atira pedra sem indagar onde cai, lhe dissera: "Aquele  que te servia para marido." Diabos levassem o homem que antes queria deitar-se a um poo que receber-se com ele'

Ao ouvir aquilo, o Algodres soprou como cobra assanhada. Depois desatou a rir, mas o seu riso soava falso. Podia l ser? Casarem-na com o filho da Sebastiana e do Rodolfo, de Garcia, de quem herdara a m pinta e o gnio arrevezado j pela banda da me, no Ia mal convidado. A Sebastiana, que conhecera mais homens do que cabelos tinha na cabea, embora fosse senhora de rua e farta trunfa, dera duas filhas ao fado e dois meliantes ao cadastro da gatunice e rufianagem. Um deles comia, na qualidade de polcia secreta, na gamela do Governo. O outro fazia a naveta entre o Limoeiro e o Cais de Alcntara na indstria de passar o vigrio aos embarcadios. Quando o negcio rendia, andava  solta, tu c tu l com a gente da Parreirinha. Quando o golpe gorava, ia estudar  sombra das esquadras e do palcio do conde de Andeiro a teoria das malas-artes, punindo-o deste modo os seus captores por mal-aprendido e desastrado. Este, o tal Jlio, andara a vender cautelas nas Caldas, assentara de moo de farmcia em Lisboa, depois de contnuo num pasquim legitimista, at que o estanceiro, que lhe tomara a irm mais nova por conta, lhe abonou crdito para negociar em madeiras. Fora por alturas da guerra e seria o cmulo que o pilho esfo-

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meado, chegando com a mo ao monte de papel-moeda que atulhava a praa, a tirasse vazia. Tirou-a cheia e to apurados os dinheiros que j contava interesses na serrao de Palaios, casa de soalho e umas belgas na terra onde a me o enjeitara ao mundo. O Algodres ultimamente via-o muito de gorra com o Penalva que todo se

babava ao p de gente que no trazia as mos como ele encardidas de fossar na terra. Posto que reles de figura, com os seus quarenta e cinco no plo, para mais que no para menos, acalcanhado dos maus tratos de nascena, trajava  papo-seco, colarinho preso por travesso de prata, polainas de coiro, relgio de pulso. Pingalim de hipoptamo na unha, browning na ndega direita, polainudo, chapu s trs pancadas, dava-se ares por aquelas terrinhas bisonhas do rey chiquito que lleg. Aprendera com os meninos-bon    ltos,  fora de lhes fazer mandaletes e alcovitices, a arte de pompear. Lia o Realista, presumia de bem-falante, e j uma vez o Algodres o

ouvira em roda embasbacada s turras com o professor Romo, que era demagogo, a propsito de poltica tradicionalista de que se alardeava corifeu. Agora se lembrava ou julgava lembrar-se que se tomara de inexplicvel antipatia pelo sarrafaal a primeira vez que o vira. Porqu, se no lhe causara leso nem dano, nem lhe jogara palavra mal dada? Compreendia agora que o seu

instinto, l no fundo, palpitara que alguma torpeza lhe adviria de semelhante borra-botas. E que torpeza, se era

verdade ele acalentar tais desgnios?' Bastava pensar que sim, para a imagem dela, que trazia dentro do peito com

to recatada ternura, empanar como cristal em que bafejou um pestfero. S em conceber que o Penalva favorecia tal monstruosidade, o pai da sua amada se lhe tornava abjecto. Mas podia l ser?'

Como duvidasse, Filomena foi categrica. Monte Real era cheio que tinham o casamento ajustado. Quem

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dera asas ao rudo, no podia imaginar. Ela no, que nem uma s vez mostrara os dentes a corujo igual.

Jos reparou-lhe para os olhos que o fitavam direitos e firmes em prova de verdade, sentiu-lhe a voz que tremia em acorde com os arquejos do corao escandalizado. E disse-lhe:

-  Antes de dois domingos venho pedir-te.
- Jos, no te enganas? @
- Qual o qu, menina!? A f de evangelho. Depois que se apartou da vista   'dela, percorrida com delongas, xtases, retrocessos, a zona em que se deixava ver ao luar a silhueta adorada, olhou para o cu. Comeava o dilculo da aurora. Ainda havia estrelas. Mas aquela que emitia um luaceiro verde e ele tomara, horas antes, como padroeira, por muito que procurasse, no a

avistou mais. E, porque a sua alma cndida e supersticiosa a tudo no mundo atribua uma significao, pela primeira vez descreu da sorte.

IV

Engoliu a tigela de caldo a grandes tragos, de p, mal saboreando o migalho de broa, um olho na rua onde o sol matutino, batendo contra a vidraa, esgrelhando pelas talisgas da porta, era como amigo que ficou de fora e perdeu a pacincia de esperar. E, de saquitel debaixo do brao, despediu:

- At logo, tia.
- Onde vais, cabo dos trabalhos? - lamuriou a senhora josefa. - O jantarinho... preparo-o?

- No vale a pena. O mais certo  recolher tarde. Era domingo, e a terra tinha o seu qu de animal a

espreguiar-se gozosamente na fresquido enxuta da meia manh de janeiro. Lavados pelas chuvas, os areais resplandesciam brancos, duma brancura a que tons de ocre e rosa, muito ao de leve, mareavam o fulgor. O mar

sussurrava com moleza, a largas pausas, mal riado o seu verde retinto, semelhante na tremulina e cintilao  s searas quando, a aloirar ao sol, brinca com elas o vento. Saam das buracas hibernais os pescadores, e era um regalo v-los ir a saltar por atalhos e dunas, tontos de luz, a caminho dos penedos com espinis e cachoceiras.

Depois de espraiar olhos consolados em redondo, o Algodres meteu tupa que tupa pelo macadame, tornando costas ao Pedrgo. Soara-lhe aos ouvidos que o

senhor Lousal Pai 'acabava de chegar  casa do Coimbro, e corria a comet-lo para a empresa, no retirasse ele de

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esbaforida. Para a circunstncia, a revestir-se de solenidade, envergara o melhor fato, camisa de goma, gravata de seda por estrear, no colete a corrente de prata, que fora do pai, com um centenrio  dependura. Palpitava-lhe que aquela diligncia seria capitalssima na sua vida

e com angstia ia estudando o recado. Decerto que o

velho Lousal, homem coado nos negcios, no se deixava engrolar com duas razes. Alm de cauto, formado na escola que, a ttulo de zorreira c-minuciosa, qualificam de p-de-boi, era pirrnico por ndole e escarmento. Havia dez probabilidades contra uma de que duvidasse dele e tivesse como fumos da fantasia o que era obra amadurada pela reflexo. Mas quando houvesse desdobrado perante seus olhos a traa magnfica e irrefragvel, no teria remdio seno render-se  realidade. Dinheirama tinha ele a rodos, no para demolir uma duna, mas trasfegar para longe da vila e termo os areais todos de Vagos  Marinha. Que era homem s rio, com a comandita do qual podia dormir a sono solto, tambm no sofria contestao! Quisesse ele!

A manh estava deleitvel, para ser bebida a plenos pulmes e olhos arregalados, mas ele no a sentia; a estrada tinha lombas speras, rectas de estoirar um cavalo, e tampouco dava conta delas. Debruado sobre si

mesmo, apenas ao tocar as primeiras casas de Coimbro se libertou de seus absorventes cismares.

 imagem do que ele prprio era, homem que subira  opulncia, conservando os modos lhanos e honestos de trabalhador de serra e machada, a moradia do senhor Lousal compunha-se dum palacete, construdo por arquitecto de fama, e da antiga casinha, herana de avs. Dum s piso, com alpendorada aberta, dois vasos nos

parapeitos, duas esteiras no cho, mostrava esta, em face do prdio soberbo, um ar misto de bom agasalho e de humildade. L vivia a me, to idosa que esquecera a

A BATALHA SEM FIM                       73

conta dos anos, e se aboletava ele quando lhe consentia aspirar os ventos natais a folga dos negcios. A vivenda nova era para o filho, moo de volante e de yachting , para os sobrinhos, com seus convidados; ele aprazia-se no ambiente da edificao regional em que varanda e cozinha eram os repartimentos por excelncia: uma, sala de estar e receber; a outra, verdadeiro larrio com a ampla chamin de colunas, o guarda-loua de ifo ao alto para o Cristo familiar, arquibancos e cadeiras de ressaibo medieval  roda, tudo em pinho da terra, e, a vestir as paredes, almofias rsticas e pratos azuis historiados. Almas que por ali passaram e se erguem da penumbra e

do silncio a falar com os vivos, a partir da hora em que os vivos comeam a ver lobreguejar  flor dos cemitrios a boca negra da campa, sagravam as pedras gastas, as

madeiras carcomidas, de afabilidade e doura. Ali o

velho granjeador sentia as razes do ^Ser, enterradas no

hmus ancestral, beberem fora e estica quietude para o resto dos seus adiantados dias. Deitava esta andaina de edifcios para deserto e vasto ptio e a foi o Algodres surpreender o senhor Lousal quando dava instrues ao Esperana, que ao mester de barbeiro e algebrista aliava as funes de mordomo da casa. Cheio de f, arroubado no seu sonho, ainda que em voz tartamuda, referiu ao que vinha. Ouviu-o sem pestanejar, boca entreaberta, o comerciante. Ao fim, dando dois passos para a banda como se desandasse e volvendo logo ao ponto de partida, proferiu num tom em que a benignidade natural mal abafava a clera:

- Pedes-me dinheiro para desenterrar um tesoiro... Homem, mais valia pedires para as almas. Quem se fia em sonhos?!

Estava julgada a deprecada, mas para que o no tomasse por tolo redarguiu:

- Sonhos so o que Deus quer. Mas, aldrabice ou

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no da nossa cabea, a pgina deste livro no a sonhei eu... - e, puxando o cartapcio da bolsa, escancarou-lhe diante dos olhos a passagem maravilhosa.

Lousal Pai cavalgou a luneta e, deixando-lhe a ele o livro nas palmas das mos como em estante, ps-se a ler.  medida que deletreava, sentia-se-lhe a ateno presa como fateixa que pegou lastro. Ao terminar, abandonando a luneta ao cordo, laado em torno do pescoo, e limpando a vista com os   ns dos dedos, proferiu:

- Sim senhor... sim senhor' Resta agora saber se o alfarrbio no  nenhum   almocreve das petas. Como se chama?

- Rompeu-se-lhe o      frontispcio. Pelo ttulo que corre ao alto das laudas, veja, e ainda pelos dizeres do fecho, quando o autor d graas a Nossa Senhora, averiguei que tem este nome: Sylua de prodgios & aces memoraueis que assucederam nos Reynos de Portugal. O professor Romo teve-o l e disse que em tudo batia certo com os livros de histria.

- Nessa poda, meu compadre Romo  mestre. Mas que bata certo, quem me garante que atinaste com a duna... ?

- J lhe disse, senhor Lousal, sonhei.
- Cantigas,  Rosa! Sonhos so sonhos.
- j que cuidar no  saber, fui pedir conselho a esse respeito. Tenho aqui no bolso a resposta que me deu um homem que v mais longe que uma junta de doutores e mais no  formado. Conhece o Manuel Rito que mora  sada de Leiria, na estrada para a Batalha?

- O Rito dos espiritismos? No conhecerei eu outra

coisa. E ento?

O Rito, que em tempo de banhos ia muito por nossa casa, por sinal gordo como um texugo, quando agora o encontrei amarelo e escanelado que nem tico, dizem que  fora de estudar os livros proibidos, ou-

A BATALHA SEM FIM                       75

viu-me e, a pedido meu, fabiscou as linhas que vai ver...

Sacou a carteira de coiro de trs voltas e da carteira o escrito que Lousal Pai leu com a repugnncia de quem toca em coisas do outro mundo: "Os antigos acreditavam nos sonhos; so sobejo testemunho as Sagradas Escrituras e diferentes livros da Igreja. No sculo ltimo, os sbios decretaram: sonhos so fantasias dos nossos sentidos  solta. A cincia de hoje  mais reservada. Nem todos os sonhos se podem considerar produtos arbitrrios do entendimento. Em determinadas pessoas representam fenmenos ainda por estudar, em correspondncia com feitos ou coisas reais, sucedidos ou a suceder no domnio da natureza. "

- Falou-me em mdiuns, magnetismo, segunda vista, o diabo a quatro que eu no percebo - acrescentou o Algodres. - O que lhe posso afianar  que vim

do Rito convencido de que o meu juzo no anda desgovernado.

- Para mim tudo isso de almas do outro mundo, espritos vagantes, mesas p-de-galo so endrminas que no profundei, nem quero profundar. O Rito tem queimado as pestanas, nestas matrias  barra, concordo. Por mim, ouo o que dizem leigos e professos e no arredo deste finca-p: pode ser que sim, pode ser que no. Quanto ao que te traz, olha: ter razo o calhamao, ter razo o Rito, ters tu todas as razes e mais uma, eu  que no sou a pessoa que procuras. Estou velho e acabado para cavalarias altas. Dois vintns que arrumei ao lado para mim ho-de sobrar.

- E o menino Quim enjeita-o? - observou o Algodres em ar de graa.

- O meu filho j tem a legtima da me e que cuspa s unhas como eu fiz. Depois, sempre te digo, dessas fortunas q"ue caem do cu aos trambolhes tenho medo que me pelo. Nem tu imaginas! Lembra-me sempre que

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o dono me sairia ao caminho, na pessoa dum neto ou

tetraneto, para me roubar e esfaquear.

- O tesoiro era dos frades...
- Fosse ele do Diabo. Nesta altura da vida no se me d nada enriquecer. E de forma nenhuma, nota tu, quanto mais dessa'

- Rico, to rico que nem abarca o que tem de seu, est o senhor... _   Remediado, remediado - pronunciou o velho, abeirando-se mais   dele e arrastando a voz. - E, sabes tu, custou-me muito. A fatia de po, que vou comendo pela velhice fora, amarguei-a bem amargada. Meu pai, que Deus guarde, deixou-nos a casinha trrea que ali vs

e as palhas para dormir. Fui para Lisboa com uma bla-milha s costas, pendurada do cabo da machada. Anos a fio trabuquei rijo e feio. Quando pude, graas aos bons padrinhos, montar estncia por conta prpria, morava na Rua do Pasteleiro e ia  pata para Xabregas, onde era o negcio, para forrar o bilhete do Chora. Conheces a capital?

O Algodres, a contar j com a refervida anedota, acenou que sim e tornou ele em voz amical mas desdenhosa:

- Fao ideia, conheces o cavalo de D. Jos e o tnel do Rossio. Pois olha que era de respeito a estafa que eu

aguentava todas as manhs, com a barriga a dar horas, quer soalhasse quer chovesse. E vais ouvir: no caminho topava duas mulheres que vendiam caf no olho da rua, feito ao fogareiro contra o vo duma porta. A primeira tinha a chafarica chegante a Santa Apolnia, mas vendia a xcara a trinta ris. A segunda poisava l para cascos de rolha e vendia-a a vintm. Pois, meu menino, para poupar os dez reizinhos, embora contrariasse o corpo, a esta  que ia tomar o cafezrio. A tens. S assim, a poder de trabalho e de economia, um pobre levanta cabea.

A BATALHA SEM FIM                       77

Bons tempos, senhor Lousa V l hoje com essas

a ver se acerta pr p em ramo verde.

- Que monta hoje ou ontem? - acudiu o velho em voz ralhada. - A questo  que vocs todos, gente de fresca data, no tm flego nem pacincia para coisssima nenhuma. julgam que o cho lhes falta, que o

mundo se acaba amanh, e buscam gozar a vida mal despem os cueiros. Enriquecer, enriquecer da noite para
* dia  o vosso fito e na primeira carta apontais o vosso e
* alheio. Coitados, as mais das vezes, dais em vaza-barris@

Nem todos se devem medir pelo mesmo alqueire, senhor Lousal. Eu, se gostava de ser rico, era para fazer o

bem; por mim pouco apeteo...

- Todos os pobretainas cantam essa ria. No fundo, sois todos os mesmos. O canudo  que a pobreza no se

move em bagalhoa pelo facto de se fazerem votos, promessas a santos, e ter boas intenes. Acredita' A minha pena  que um rapaz de assento, como tu, tambm se deixasse picar da maleita. Escusas de abanar a

cabea. Pois no meditas largar a pesca, que  um tesoiro certo, por outro, que me pintas de fabuloso e se me afigura mais que problemtico?' Sei que desleixaste a companha na safra passada; compreendo agora porque foi. Pois olha, o teu futuro est ali. A indstria do mar, com jeito e firmeza, preleva de muito  de lavrador. Eu, se tivera um princpio desses, nadava hoje em dinheiro.

- E l se viu, meu pai nunca saiu da cepa torta...
- Teu pai podia ter pregos de oiro pelas paredes, mas com uma mo recebia o dinheiro, com a outra o

semeava. Era um bom homem, amigo do seu amigo, mas perdulrio... perdulrio. Eu que o jure, que suciei com ele em feiras e pandegadas. Mas no me dirs: para que precisas tu de ser rico? Hem? Eu, no teu lugar, com esse corpanzil, essa sade de toiro, estava-me bugiando

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para a riqueza. Pudesse trocar contigo, duma banda os

meus anos, a minha gota, os meus patacos; da outra essa

fortaleza de animal, com uma camisa s no corpo, sem ter cruzes nem cunhos, e no balanceava meio segundo.

- S se aprecia o bem que se perdeu e se cobia o que se no possui, senhor Lousal.

Sim, sim,  verdade.  verdade em parte. Tanto assim que tu vens oferecer-me um tesoiro e eu que no tenho  no quintal a rvore das patacas digo-te que no quero. Para que me servia?... para deixar ao rapaz? Olha,   o mdico bem administrado vale mais que o muito   desmedida. Aprenda ele a dirigir-se e quita de andar  de chapu na mo a pedir a coroa emprestada. Depois, eu sou de parecer que  destempero deixar grandes legados. L reza o provrbio: "De cem em cem anos se fazem dos reis viles e, aos cento e seis, dos viles reis. " No meu fraco juzo, quer isto dizer: com o tempo tudo se esbarronda, famlias, fortunas, palcios. Quando penso no meu Joaquim, bem me confranjo, fica sabendo.  moo da berra, estoira-vergas e, o que  pior, desconhece as virtudes respeitveis do vil metal.

Permaneceram calados um instante, como se o velho estivesse a espreitar l de longe, por detrs das paredes da cova, os passos do filho Joaquim por esse mundo dali a anos. E, erguendo a fronte repentinamente, tornou:

- Pois, amigo, obrigadinho, mas o teu convite no me tenta. E aqui te declaro: boa, boa fortuna so os

braos rijos e a alma escorreita. A outra, de fazendas e

capitais, tambm conta, no digo que no. Mas para a

gente apreciar quanto vale, poder sabore-la como limo espremido na gua quando se tem sede, saber defend-la dos baldes da sorte, foroso  que a tenhamos amassado por nossas mos. Essas que desabam das nuvens, vem

por um tio da Amrica, a lotaria ou a vermelhinha, arrenego delas. O azar as deu, o azar as leva. Sou to

A BATALHA SEM FIM                        79

ignorante como tu, mas capacito-me que trazem consigo mandinga, qualquer princpio inflamvel e, s duas por trs, ardem nas mos, nos cofres, no que estejam empregadas, para no quedar mais que cinzas e fumo no ar.

Queres tu uma pinga?

O Algodres agradeceu, fez meno de rodar e o velho

em tom paternal, ao passo que lhe estendia a mo, pronunciava:

- Se aceitas o conselho dum tolo, queima o livro. S serve para tresleres. Poder ser a boa estrela que te guia, mas, hum, desconfio muito que seja a desgraa. No melhor dos casos, no  a felicidade. Para ti, que s simples, nado e criado na modstia, a riqueza seria como uma amante de pancada alta que arranjasses ao dobrar a esquina. Derrancava-te o sangue, alua-te os alicerces  vida, punha-te a mioleira em gua e, por cima, mandava-te  tabua, quando menos o esperasses.  o que te digo

- Assim como assim, quero experimentar a minha sorte, senhor Lousal.

-  L fars. Se enveredares para a arte e precisares dos meus limitados recursos, encontras-me aqui e em toda a parte. Fui amigo do teu pai, at me matava se virasse a cara ao filho. Para cavar o tesoiro, no contes. L isso do livro, do sonho, da duna, so guas envoltas de que me

arreceio. A gente nem acordada acerta, quanto mais a dormir@ Tu no tarde me dirs. A esta altura da vida, no me seduz dar saltos num terceiro andar para enriquecer. Tambm ando pouco abonado. Mas olha, a talvez haja quem se tente... Meu tio Fara tem dinheiro como milho, o Carreira  atiradio para negociatas. Fala-lhes. Pois, adeusinho! E desculpa, hem?'

Rodou o velho Lousal em direco  fazenda, nas traseiras do prdio, onde o aguardava o Esperana, rodou ele mo na nuca, a coar-se dos seus mordentes cuida-

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dos. Automaticamente., achou-se  porta de Alberto Lousal, de alcunha o Fara. Vou, no vou, hesitou bom espao. Mas como um homem  para a guerra, e o Fara, ainda que machucho e de maus fgados, podia dar-lhe com o no, mas nanja com a tranca, aventurou-se a falar-lhe. Ouviu-c, o ricao com o sorriso a esvoaar no caro camos e achavascado e respondeu:

- Meu rapaz, eu se aceitasse a tua proposta era um refinado roubo que cometia. Um roubo com todas as letras. Ento descobres um tesoiro, sabes os palmos de terra em que se esconde, e eu havia de ir contigo desatol-lo? No, at bradava aos cus. Vai tu sozinho e no convides ningum. Essas malhadas fazem-se  capucha.

- Percebo, no tem confiana.. .
- Qual confiana, ou qual dialhol Multa gente, quando junot invadiu Portugal, escondeu os haveres debaixo da terra e nas furnas dos montes. Esto a aparecer a cada passo; a questo  que quem d com eles no deita foguetes. Vai, vai l sozinho e quando tiveres a maquia no seguro manda rezar uma missa por alma dos frades que os franceses arcabuzaram e andam penando por cima dos pinhais. Eu c era o que fazia!

No velo mais adiantado da conversa com o Carreira.
- Pode ser - disse ele. - Porque no? Dizia meu

pai que h mais oiro, escondido debaixo da terra que nas

gavetas dos bancos. Veja se lhe chega. Eu no que posso ajud-lo  em cambiar as moedas antigas, que esto fora de curso, e em sustar a pata do Governo que, segundo a

lei, tem rasca na assadura.

Estava decidido, ia vender a armao de pesca. As esperanas que depositara nos homens de dinheiro haviam morrido de morte macaca. Duvidavam dele como os judeus de Jesus Cristo. No fundo, as respostas do raposo de rabo pelado e falas bondosas, do financeiro

A BATALHA SEM FIM                        81

picardo, do jogador que tem escrpulo em deitar a perde r uma mil   ionsima  probabilidade de ganhar vaza

pareciam-se mais entre si que trs ovos do mesmo cgado. Por aquele rumo no colhia um chavo. Estava tirada a prova. Para eles, o tesoiro dos frades era coisa to fantstica como ribeira de diamantes a explorar na Lua. Compreendia porqu. A sua certeza no os tocara; homem simples, pouco senhor das palavras, no tivera artes de a impor a gente ao mesmo tempo esprito de cobia, unhas-de-fome e olho suspicaz. Era inegvel que, ao sair do terreno objectivo para o domnio escuso do sonho e da revelao, o prospecto que lhes fornecera exigia que fosse aberto crdito  sua boa f e so entendimento. Por desgraa, servira-lhes uma verdade pobre, cobarde, mal enroupada, para cmulo maravilhosa como

histria da carochinha, em vez da verdade forte e incontradita, jacente no seu seio. Pacincia! Havia de confundi-los, ainda que tivesse de dar com a cabea pelas paredes  busca de soluo. Tinha de andar depressa por causa de Filomena, quando no ele sozinho viraria a

duna, ainda que fosse obrigado acarretar a areia na boca

como as formigas. Desgraadamente, o tempo, que tanto fecunda como corrompe se se lhe d corda lassa, conjurava-se contra ele   . Sacrificando a armao, podia ter a sorte, com o capital obtido, de desencovar o tesoiro. Todo o problema se cifrava em que as arcas se

achassem circunscritas  zona a explorar. Era a lotaria. Se errasse, como a duna media mais comprimento que a rua

por onde pisava e mais largura que o adro da igreja, o

seu dinheiro sumia-se no areal como um bochecho de gua. Fosse o que Deus quisesse&

Parafusando no magno assunto, atravessou a povoao, to regada de sol que os seixos, a mica dos telhados velhos, os vidros das janelas fulguravam como as pedrarias de Santa Cruz na noite em que as viu em sonhos.

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Iam e vinham de ptio para ptio moas endomingadas, chapelinho de veludo a tombar para a banda, canos a

luzir de alvos, joviais e azevieiras, duma brusquido em

que se traa naquele dia criador a febre lasciva da natureza. jeitosas de corpo e meneios, lanavam-lhe algumas turva e involuntria mirada. S com os olhos de Filomena se acendiam, porm, os olhos dele.  porta do Pinto, um vendedor ambulante puxava do macho padres berrantes de chita e popelina. Novas e velhas atropelavam-se em torno, vidas e curiosas. E eram papoilais, braadas de amores-perfeitos e cravos vermelhos que se esfiocavam dos fardos sobre as pobres e negras vestimentas. A taberna zumbia como um cortio. Apetite sentia de meter no bucho uma parva de po com um copo do verde. Mas o caminho para a Ervedeira lembrou-lhe Eudxio Blxolim, nabado da terra, como pessoa susceptvel de lhe comprar a armao, e rompeu adiante.

Passos andados, encontrou a tia Afonsa do Aires, no

trao da porta que dava para um terreirinho, com a mo esquerda apoiada ao bordo, com a direita deitando s galinhas o milho que trazia no regao. Tinha cento e trs anos e uma alcateia de bisnetos, crescidos uns, outros a

gatinhar. Envolta num mantel escuro, a cara mais cortada de rugas e gorovinhas que as batatas velhas que ficam esquecidas de ano para ano ao canto da tulha, cor

da terra quando cora depois da lavra, a chamar: " Pilinhas1 pilinhas todas!" a sua voz soava ao so e alegre. Para olhar uma franga se tinha ovo, lanou-se lesta, sem

o pau. Como ela se escapulisse, o Algodres ajudou-lha a

caar. Enquanto sondava com o dedo a cloaca da "grande zabaneira", foi perguntando:

- Vossemec, seu moo, no  filho do Pedro Algodres da praia?

- Sim, senhora,

A BATALHA SEM FIM                     83

Ah, pela pinta l me queria parecer! Eu conheci muito seu pai, Deus lhe fale n'alma. Certo dia apareceu-me aqui a indagar se no tinha rumor dum tesouro que mais de quantos cavaleiros, a fugir aos franceses, esconderam nas areias da beira-mar. Pois tinha, tinha. O Rosendo Feteira, av do Feteira que noutro dia foi dado  terra, fartou-se de esgadanhar nas dunas, l para os limites do Grou. Perdeu ali uma junta de vacas e o linhar que  hoje do Lousal Fara. Era eu menina e lembra-me ouvir dizer que aquele que o haja de desencantar h-de romper por meio dum rio de lume e travar batalha com o Demnio que est a ele de guarda. Seu pai no lhe chegou a pr a vista em riba, que eu saiba...

O Algodres declarou-lhe que de facto o pai nada conseguira descobrir e inquiriu:

- Ento vossemec est convencida que o tesoiro l est?

- Est, est, e que monta? Ningum quer meas com o Porco-Sujo. Nos meus bons tempos, os homens saam aos domingos a esfossar pelos areais como cerdos. Hoje pensam noutras coisas... O dianho da pedrs que fica maninha! At nem as galadelas tm virtude como antigamente... - e jogou com a franga ao cho de arremesso.

Leva que leva, por entre paul e pinhal, o Algodres chegou  Ervedeira, amodorrada ao calor do meio-dia. Viam-se mulheres a espiolhar-se na argalha fofa dos soalheiros, luziam roupas brancas pelos estendedoiros e os galos cantavam. Topou o Eudxio estendido na eira,  borda da casa, com o chapu de palha nos olhos, to enfronhado no sono que foi preciso a mulher aban-lo

com o p para acordar.

- Que h? Que h? - exclamou estremunhado.
- Pouca coisa, seu Eudxio - acudiu o Algodres. Ora viva! Ento dormindo-se a sesta?

84               AQUILINO RIBEIRO

-  verdade - proferiu, erguendo-se. - Os cuidados no faltam, mas j que  domingo e obrigao guardar o dia do Senhor... Viva o amigo@ C por estas Calbrias?...

Insensivelmente dirigiram-se para a alpendorada da casa, alvoroando os patos que dormiam nos poceires de cisco e que em fila, bambaleando e grasnando, cortaram a eira a caminho do charco. Chamejava a dois passos a

gua suja e,  roda, no lamao ftido e calcurrinhado, um bando de galinhas, com o seu, sulto, catava as

minhocas. Mais longe, a gua preta criadeira, as vacas

ratinhas, de jugo, @ duas malhadas, de leite, tosavam a erva, animando a paisagem verde, siderada, com seus grandes vultos, mansamente movedios e tilintantes. A fazenda, mata e prado ao fundo, horta e vinha rente  habitao, distribuda esta em duas alas, com todos os

cmodos que pode apetecer o lavrador, poo, forno, lagar, sequeiro e pocilgas, era a inveja de quem a via. O Algodres no se cansava de gabar umas coisas e outras e, consolado, disse-lhe o proprietrio:

- No h dvida, em arrumao e apeiragem a minha herdade leva as lampas  mais pintada da borda de gua. Alguma coisa foi obra de meu pai, mas o mais, seu Jos, levantei-o eu por meu ardil. Venha, sempre lhe quero mostrar a adega...

Entraram na adega, pipas mais pipas, barris de bagaceira, presuntos  dependura do tecto por nagalhos, e, depois de elogios e rejubilaes, puseram-se a beberricar  boquinha da torneira, com azeitonas e broa de puxavante. Emborcados os primeiros copos, interrogou o

Eudxio em tom cordial:

- A que velo o amigo? Em voz segura, um tanto pela franqueza inesperada do Eudxio, no pouco pelo efeito generoso do palhete, deu conta o Algodres do seu propsito. Tinha necessi-

A BATALHA SEM FIM                       85

dade instante de dinheiro e vinha empenhar-lhe a armao de pesca, ou vender, como melhor lhe conviesse. Mas o outro deu salto, fraternamente indignado:

- Homessa, voc quer desfazer-se do seu ganha-po'@ Asneira@ No faa isso.

- Est decidido, seu Eudxi& Est decidiU
- No sei em que o amigo vai fiado, mas  asneira. Asneira grande como uma casa. O negcio do mar, bem tenteado, no  to mau como o pintam, Olhe o Vem

"I' Eu em gua salgada  que no deposito nem ma' oi .                                       1             is um real. Ficou-me de emenda o naufrgio da Vieira. So empresas que precisam dum homem sempre  testa, e eu

no levanto costas com os encarregos. Para a, no ... 1. Para a, no' Tambm ando debulhado. Os anos tm sido uma peste, os salrios altos, as mantenas caras. Depois que terado e patena vivem de cama e pucarinho, as terras mal do para os tributos. Se a Antnia se no safa da bicheza, o lavrador acaba de surro, a pedir. Rai's abrasem tanto larpio como h em Portugal! Porque no

vai ao Vermoil, que anda pilando por isso?

O Algodres torceu os lbios num esgar de nojo e

acudiu logo o Eudxio:

- O Vermoil  m rs,  m rs, mas ao dinheiro nada se pega. Ganho no fado, ou ganho com uma enxada a cavar, tem o mesmo correr. E a prestao de Esmoriz? Bem, bem, eu sabia que o amigo no me deixava entalado. Mas seja claro uma vez para sempre: que necessidade tem o seu Jos de liquidar a armao?

- Eu lho conto, embora me tenha por luntico e se fique a rir de mim. O que lhe peo  segredo...

Acedeu o Eudxio com rasgado gesto e o Algodres abriu-se. Tintim por tintim, desde o incio at o colquio de h pouco com a Afonsa do Aires, relatou a sua

descoberta com tanta eloquncia e convico que os olhos do Eudxio extravasaram das rbitas.

86               AQUILINO RIBEIRO

Sem ver no crer - murmurou em voz estrangulada, branco como a cal.

- Venha c... Levou-o para o ar livre, que na adega fazia escuro, e

abriu o saco. Perante a crnica excelsa, venervel nos coiros arregoados, nos flios amarelecidos com o tempo, nos oiros semiextintos da lombada, transpirando mais

verdade que um missal, no soube o Eudxio dissimular a sua emoo. Homem de letras gordas, para ler  vontade, sentou-se num madeiro que ali jazia. Estarelando em seguida o livro nos joelhos, depois de mirar e

remirar com respeito, no isento de certa desconfiana, aquele tombo mgico, ps-se a soletrar, enlevado como  missa, a passagem portentosa. A medida que ia cortando a mida vessada dos caracteres, parece que ia subindo o seu corpo no ar. Quando terminou a leitura, estarreceu de pupilas em alvo, os silhares toscos da portela e as

paredes da casa a figurarem-se-lhe, lambuzados pelo sol, rumas de berilos e topzios, pedras que nunca vira, mas deviam alumiar como lampies.

Vendo-o entroviscado, disse-lhe o Algodres:
- Quer voc, seu Eudxio, entrar em sociedade comigo para desenterrar as riquezas? Partes iguais, e sobe por oiro para a cama... ?

Eudxio esfregou os olhos e, disputado entre os rasgos da cobia e as cautelas da avareza, balbuciou:

- Atinaria voc com o stio?
- Tira-se a prova. Pode ser ainda hoje...
O Eudxio mandou aparelhar a gua de albardo; meteram um cibo de carne no estmago e, cavalgando Algodres na garupa, largaram  desfilada. Na Cova da Serpe, pormenor a pormenor, confirmou-se tudo quanto o bruxo do cartapcio referia, presentes, como sentinelas que eram, os guinchos agoireiros.

- Quando as arcas se me mostraram em sonho

A BATALHA SEM. FIM                     87

explicou o Algodres - a duna escancarou-se assim... os pinheiros alm para uma banda, aquela moita de samoucos e o pinheiro grande para outra. Por este ponto  que se deve romper...

- A duna  de respeito... - rosnou o Eudxio.
- Maior  o mar e d-se-lhe volta! - respondeu o Algodres. - Pode-se ter a sorte de ir bater com o tesoiro s primeiras pazadas...

- Pode... mas tambm se pode moer aqui uma fortuna. Olhe, no digo que sim nem que no. Deixe-me consultar o travesseiro.

No dava passo o grande sovina que se no aconselhasse de antemo com a mulher, a conscincia, o Diabo, e resignou-se Algodres a esperar. Levou uma

noite de inferno, cismando, reloucando nas possveis tropelias do traioeiro e no desforo sangrento que lhe seria legtimo cometer. Se lhe usurpasse a sua riqueza, matava-o  esquina como um co.

Mal alvoreceu a manh, chamava  porta do Bixolim. Tambm ele - percebia-se - no cobrara sono, aos tombos, decerto, com as medas de oiro dos frades. O seu olhinho azul, da mais fina gua, parecia choco, sugilado de lutar com sombras e vises. No fitava de frente, traindo o trabalho de maldade e perfdia que se lhe desenvolvera no crebro. Mas todos os seus planos deviam ter cado ao pensamento de que s Algodres possua os predicados requeridos de desencantador.

Desta feita o Eudxio mostrou-se mais perro, voltando  carga com os mil gravames que tornam impossvel a vida da lavoira. Maus emprstimos, piores tornas, pagas tarde e s ms horas, andava pouco menos que a tinir. Quanto imaginava ele necessrio para o desmonte?

Confessou com lisura o Algodres que no fazia a mnima ideia. Talvez umas centenas de mil ris, talvez contos... Consoante.

88                AQUILINO RIBEIRO

- Pois  isso que me dana. Se houvesse um oramento, logo lhe dizia se era eu ou no o scio que lhe convm. E como havia de ser? Metade por metade nas despesas e ganhos, hem?

- Sim, mas eu no tenho dinheiro pronto.
- Assim no me venha ver. Nada feito!
- Empenho-lhe a arte, cordas, barcos, rede...
- Arreda, meu povo'
- Olhe, senhor Eudxio, no vale a pena perdermos tempo com razes - proferiu Algodres com desgarre.
- Se quer fazer sociedade, vossemec vai adiantando  minha parte at o montante em que for avaliada a

armao, de que lhe passarei um recibo em boa e devida forma. Fora disso, -me precisa de antemo a quantia que devo aos cordoeiros. Por seu lado, entra com importncia igual  que vai pondo em meu nome. Serve-lhe assim?

Marralha para aqui, marralha para ali, l apalavraram o negcio. Um dos prximos dias iriam selar a aliana em tabelio. Mais que o apego  fazenda, amanhada pelo pai, o senhor Antoninho Bixolim, homem de carapua e alforge,  fora de pulso e de onzena, acrescida por ele mediante vrias artes e tranquibrnias, mais que a sua suspiccia e clculo de campnio que traz vacas ao ganho e po a quarta, pde a mstica da lucubrao prodigiosa e

a comunicativa f do Algodres. Tinha ainda a empurr-lo o anjo da felcia, que nunca o desacompanhara desde o bero, com a lembrana da panela de peas, encontrada pelo pai ao demolir um pardieiro, e a do argolo de oiro que lhe viera no arado ao lavrar a ch.

Meteram-se na adega a beber o alvaroque. Horas depois a mulher foi dar com eles borrachos tombando, a

torneira aberta e o vinho a derramar-se para o cho:

- Diabos vos carregue para estragados, bebedes!
-  alegria@ - lagrimejou o Algodres.

A BATALHA SEM FIM                    89

- No se verteu muito? Deixa, Micaela.  alegria!
- repetiu o Eudxio.

E, depois de bater sozinho o sarambeque com repicado de castanholas, arrastou a mulher  roda das pipas em chula e endiabrada valsa.



Duas semanas que durava o ataque  duna, e a duna parecia, como na vspera, imensa, bronca, inaltervel. Trouxera o Eudxio a sua aldeia em peso e cinco juntas de bois; admitira o Algodres a gente de Pedrgo, boa parte da tripulao do Vermoil,  testa Mira e Brs, convicto este e reconciliado; recrutara ainda nas praias, desde Lavos a S. Martinho, caterva numerosa, e no Coimbro e arredores os carreiros inactivos. E de sol-nado a sol-pr a chusma de homens encarniava-se contra a montanha branca, varrendo a areia com rodos e rapadoiras, arrojando-a  p, desgalgando-a  sebe e a carro de mo para a baixa, que entre as dunas lembrava o cavado de pomas colossais.

No sop crescia o desaterro, tomava vulto, mas  noitinha, quando depunham as ferramentas e os carros abalavam surdos, to surdos e leves pelas sendas fofas do pinhal que dir-se-ia carregarem de empreitada para as aldeias o tinido das campainhas, a duna oferecia a mesma carantonha brusca, alterosa e formidvel. Desmancho pouco mais demonstrava que o produzido          '  ao cabo dum dia, por formigueiro esfaimado em monte de po.

Havendo reconhecido que o empreendimento seria rduo e longo, no surpreendia as suas almas o des,-**^Inimo

ou a fadiga. Tanto o Algodres como o Eudxio, desdenhando o papel de feitores, manobravam a p como

A BATALHA SEM FIM                      91

hrcules desenfadados. Suarentos, negros, descalos,

eram em pleno malhadoiro espelhos de resistncia. Mas, sem tal exemplo a estimul-los, todos  uma amargariam a Jorna que cobravam e o vinho extra que bebiam. Divulgara-se o intuito da obra, e a esperana de serem contemplados na partilha do tesoiro dava-lhes alento inquebrantvel. Os ralaos de marca mediam-se em brio

com os diligentes; Marrazes, Passafome, Penela, Lavagante e muitos outros to acirrados andavam que nem se

permitiam roubar  faina magnfica o tempo de fumar o

cigarrinho. Cobertos de andrajos, sujos de lama, lembravam nos dias de mormao grandes e sfregos besoiros a fossar em estrumeira rebolcada.

Com semelhante patuleia, o Eudxio, que nutria fumaas de lidador, exaltava-se. jogando o chapu ao ar, mandava buscar na gua preta, a toda a brida, um odre de vinho. Quando o estafeta reluzia, de volta, nas raleiras da mata, um urro atroador rompia das gargantas assadas. Esgotavam mais depressa o verdial que a duna um chuvisco de Agosto. E volviam  tarefa com dobrado frenesim.

Com o rolar dos dias, os pescadores ergueram tendas, colmadas com velhos oleados e ramos. Chamaram mulheres e filhos e  sombra da mata nasceu uma sorte de arraial cigano, cheio de farrapagem, gritos e lumarus. Ali forjicavam o comer e dormiam as noites glaciais, amassagados corpos com corpos em volta dum lume de tangos. De dia a garranada dos filhos, quase em coiro, picados das pulgas e das bexigas, gambiava nas dunas, e

o seu chilreio de pardais misturava-Se COM o chap-chap das ferramentas a rasgar o areal.

Ardiam todos os olhos com a mesma chama; martelava em todas as cabeas o mesmo pensamento: o tesoiro Era a glosa das mulheres, acocoradas no cho em felizarda e pattica roda. Oh, iam dar um pontap na

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maleita, ser limpas e fartas, poder comprar chapus de veludo com espelhinho ou penas de canrio conforme as

lavradeiras que, montadas em seus jericos, trazem  ideia rainhas antigas, pendurar argolas nas orelhas, ir de

farnel s romarias! A m  iria de oiro e de pedras preciosas havia de chegar para todos, pois s grandes, muito grandes riquezas se podiam esconder debaixo daquela aventesma de duna. Nem concebiam dvidas de que assim fosse. Era bastante atentar na f e sacrifcio dos dois homens, o Algodres que empenhara o que tinha, o

Eudxio que atrasava a fazenda, para que todas as suspeitas ruins se desvanecessem. Nenhum deles, mormente o lavrador, jogariam os haveres contra leite de pombas. Se um dera sinais de prdigo, fora em coisas de quotiliqu, quanto ao outro, bom granjeador e filho de pai, contavam-se pelos dedos da mo as larguezas que praticara. No eram elas que lhe salvavam a alma do inferno. j do Blxolim velho se dizia que no tempo da estiagem tinha o costume de estercar na fonte que lhe limava a propriedade com o fim de empecer os vizinhos de l irem com o cntaro para os gastos de casa. Em jornada, descia-se da burra a apanhar feijo ou gro de milho que seus olhos de aor descobrissem por terra. A mesa dele era caldo e broa, caldo e batatas, as batatas com a casca para empanzinarem mais depressa. Comeara a vidinha ganhando soldada; enterraram-no senhor de fortuna descomedida, para carta de fidalgo se houvera rei. O filho aprendera de cor e salteada a cartillia do forreta. De portas a dentro tinha dois alqueires, to irmos um do outro que ningum seria capaz de os

distinguir. Com o abonado cobrava as rendas, com o

ladro vendia da tulha e emprestava. Trazia cem e uma

vaca ao ganho, dinheiro a juros altos, a mais de um enforcado desatando o barao para tempos depois lhe fazer deitar a lngua de palmo do n corredio da sua

A BATALHA SEM FIM                      93

usura. No faltavam provas pblicas da sua somiticaria. Nos bons tempos, quando comer galinha no era ainda exclusivo de milionrios, acontecia  senhora mestra ou

mulher de parto proverem-se-lhe da capoeira. Tinha sempre muita criao, que a quinta possua gua de merugem e s em minhocas se fartavam. Cada bico, mais arroba menos ona, regulava pelos dezassete vintns. Salvo andar no trabalho, quem vendia era ele. Mas que trabucasse no cabo da fazenda, desde que percebesse a mulher com gente de fora no galinheiro, punha-se ali de dois pulos, a tempos de cortar o caminho ao fregus:

- Levas uma pita? Deixa ver...

Metia-lhe o fura-bolos no sim-senhor e, se topasse ovo, era sentena certa:

- Vai a pr. Tem santa pacincia, mas so mais dez ris...

 fora de onzena e ajudado do aro de oiro que lhe saiu na vessada e converteu em cunquibus, amassou um forturio. Com homem de tal estofo no havia, pois, erro

a temer; ou o areal se derretia em dinheirama, ou o Diabo dava estoiro. Coraes ao alto!

Em vsperas de riqueza, seguros de que ela se no desvaneceria como sonho da noite de S. Joo, atormentava-os apenas uma cisma: o critrio de justia com que seriam repartidos os montes de oiro e de prata, as ribeiras de pedras finas e mais maravilhas sem nome. Essa apreenso serrava-lhes por vezes os gorgomilos como unhas de ferro dos salteadores. Bem certo que Algodres e Eudxio arrecadariam a parte de leo. Era-lhes devida. Fossem eles equitativos no partilhar, o bodo contentaria a todos. Com duna to vasta, que abatendo de alto sobre o povo do Coimbro entupiria metade das ruas e das casas, como  que a fartura no havia de ser um autntico preia-mar que chegasse a todos

Repassada de boca em boca, a verso primitiva am-

94                AQUILINO RIBEIRO

plificara-se. No eram j duas mulas, apenas, que tinham vindo descarregar os fardos preciosos; fora uma

rcua, uma longa rcua pimpante, ajoujada de franjas e

guizeiras castelhanas  moda dos almocreves do Mondego; j no constava o tesoiro de quatro arcas, mas de muitas, sem conto, todas grandes e fenomenais como arcas de No, grandes e pesadas como vages que se

vem rolar pelas linhas frreas, atestados de carvo de pedra. A todos tocava o seu quinho, a todos havia de saciar, irmamente, como o paozinho de famlia quando volta do forno nos tabuleiros. Criam nisso no menos que na balana de Deus. E, firmados na cega confiana, com ansiedade cada vez mais opressiva, esperavam a hora em que o tesoiro se entremostrasse na duna como as castanhas arreganham nos ourios.

As mulheres, c@Lda vez mais lazarentas, limitado o seu passadio e o dos filhos a duas cenouras churras e  olha de azeite ranoso a nadar em aguadilha, no sentiam fome. A raia salgada, o toucinho das esmolas reservavam-nos para os homens, que rompiam os rins, curvados para a areia. Tampouco entrava com elas o frio que, se a lenha do pinhal era inesgotvel, consumia-as contnua e ardente febre. Andavam feias, sebentas, inapetecveis a

homem ainda as mais moas; que importava se, em breve, se arreariam a prazer, botando merinos, pondo canos, embebendo o lencinho em cheiros, oprimindo o peito com grilhes de oiro, e depois, depois, fidalgas perluxosas, arreitadas pelos peralvilhos, acenderiam o

cime e os amavios nos olhos dos maridos! Por agora deix-los l, derreados, modos como a palha das enxergas, a conquistar-lhes a felicidade.

Um ms de rijo lidar, a duna acusava rasgo no

flanco, como se gigante lhe despedisse uma cutilada.  margem, o desmonte fora-se arredondando e empinando a ponto de soterrar at meia altura pinheiros velhos de

A BATALHA SEM FIM                       95

quarenta anos. E foi mester arras-lo a todo o largo para facilitar a evacuao do grande mar de areia.

Era em pleno Inverno e quando no dobava este borraceiro lgido e miudinho, que at os seixos trespassa, btegas grossas faziam do solo um tremedal. Embora atolados da cintura para baixo, no suspendiam os homens a tarefa. Do alto da duna divisavam as vagas de dorso medonho correrem para a praia como cavalos brancos furiosos; viam o noroeste, o grande boizana, a fustig-las, a espaos lanando-se por cima delas e esmagando-as como fariam cilindros das estradas. Mas era em terra que se tinha a impresso do grande vergalho batendo a torto e a direito. Nas sementeiras, que ramos secos do sargao carvoejavam em linhas direitas e finas como papel pautado, os pinheirinhos de palmo confundiam-se com o cho, sucumbidos. No pinhal velho, ululante, a ramaria revoluteava, vergando e encabritando-se ao aoite. E pelas limpaas calvas e ao longo da beira-mar, as areias saltavam, refluam, nos seus montes esculpindo o vento formas caprichosas e efmeras como se brincasse com greda. Umas aps outras, na costa deserta, tomavam caradura de esfinge as dunas. Umas aps outras, com seus ombros lisos, as brandas eminncias besuntadas de ocre, tinham ares de fazer sinais, aproveitando-se do mais leve bulir da gente para mudar de fisionomia. Trazidos na refega, vinham os corvos marinhos pairar de asa altiva sobre as suas cabeas, dir-se-la curiosos da estranha lavra.. . No mar encapelado no se avistava vela nem penacho de vapor; era a solido, espavorida pelo marulho das ondas e a zunideira do vento. Mas que eram essas coisas, bem triviais, de resto, se por baixo dos ps estava a carta de alforria? Que o oceano enraivecesse, o firmamento desabasse em procelas, todas as aves do cu os viessem espreitar, continuariam, animados de vigor sobrenatural, a dar combate  duna'.

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Pena tinham que o negrume das noites os no deixasse trabalhar e os dias de Fevereiro, em rapidez, fossem a

mo que se abre e se fecha. Mal a alba despontava em

casa de Pilatos, saam os martimos das cafuas; a breve trecho, apareciam em bando os cavadores do Coimbro, Ervedeira, Grou, taleigo s costas, a rilhar a cdea do arrebenta-diabos; ouvia-se atravs do pinhal a tarantela das campainhas, o doce **chi-ii-heru dos eixos, e emergiam das sombras hesitantes,  testa dos bois e a soprar s unhas engadanhadas, os carreiros. O arrebol encontrava a malta de p em punho, e todos os carros num badanal. Mas antes, j Algodres e Eudxio tresvolteavam na crista da duna, esfalcando-a de grandes toalhas de areia, que corria, corria dos fiancos como a matinada buliosa do gro das tulhas.

Espalhara-se, entretanto, por vila e termo o rumor daquele empreendimento e acudiram mirones aos cardumes. Zombavam uns, abanavam muitos a cabea. No poucos, ao engodo da aventura ou tocados pela f, se engajaram na obra. Do mesmo passo sucedeu que a

Direco Florestal cobrasse sombras duma explorao de tal envergadura, quando o requerido e autorizado consistia no agenciamento dum bebedoiro pblico para os gados, e mandasse guardas a investigar. Procurou o

Eudxio conciliar-se o parecer dos homens, utando-lhes a barbela em casa e acenando-lhes com boas luvas. Para mais segurana, deitou-se a falar com o guarda-chefe, funcionrio das suas relaes, fazendo~se acompanhar de dois cabritos recentais e um almude de vinho. E, como

no era parvo de ontem, tratou de apoucar a natureza da malhoada com confessar ser corrente por aqueles povos que certo almocreve viera esconder um cofre de pintos na

Cova da Serpe, a fugir aos franceses. Os velhos juravam estar a maquia escondida naquela duna e no algures. Como era agora o tempo morto e andava a gente com as

A BATALHA SEM FIM                       97

mos a abanar, dera-lhe na telha para semelhante trinta-e-um. Se Deus quisesse, nunca perderiam tudo, pois o

bebedoiro, de to reconhecida necessidade, ficaria ao resto uma beleza. Quanto aos estragos que se produzissem no pinhal, deles se arvorava responsvel.

Ouviu o chefe o arrazoado e disse, cofiando a pra, uma perinha mariola de Satans:

-j que tem tanto dinheiro que no sabe onde o h-de moer, continue com as pesquisas. Por este lado no lhe vir empeo. Mas sempre lhe digo, amigo Bixolim, que os cobres que h-de apurar tomo-os de arsnico e no morro!

- A ver vamos.
- L faa. A Direco no se ope a que mudem uma duna daqui para acol, contando que no danifiquem o

arvoredo. O que pode acontecer  que venham os guardas de Rilhafoles e os levem para o chelindr. Adeus@

Foi o Eudxio de rota batida com o alembrete ao parceiro. Este encolheu os ombros:

- Homem, e o livro? E os milhafres? E a voz c dentro a dizer que vamos por bom caminho... ? E os

sonhos que temos tido? Deixe falar quem fala. A Direco o que queria era vir ela explorar o tesoiro.

Cinco semanas vencidas, o Eudxio reparou que despendera os rditos do ano e as economias, postas ao canto da gaveta para uma pressa, soma alta em que, segundo os termos da escritura, o Algodres entrava por devedor de metade. E, para prosseguir, necessrio lhe foi recolher as letras chegadas a prazo de vencimento, que o scio, se rebuscasse nas algibeiras, pescaria apenas coto. Uma semana mais de arrancada, e o dobro do montante em que os peritos louvavam a companha estaria subvertido na areia. De livre, ao Algodres, restava apenas a casinha.

Foradamente, o Eudxio comeou a vender ao des-

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tempo os cereais, o arroz, depois, as vacas e manadas de carneiros que dera ao ganho. A cada operao, atirava pinote como se lhe arrancassem os dentes  turqus, mas

naquela altura o remdio era aguentar e cara alegre. Apavorados ante a voragem, engenharam-se, no entanto, os dois a estudar plano que lhes permitisse com menos dispndio destravancar a queijada dos crzios. Haviam at ento sapado a duna pela ilharga, mas com o

pendor contnuo da areia poucos cvados de terra firme resultavam a descoberto. Afiguro u-se-lhes que seria mais rpido e eficaz atac-la pelo centro, ao jeito dos mineiros quando abrem um poo. E assim assentaram de comum acordo, que dois irmos no seriam mais unidos a resolver e a obrar.

No dia seguinte, com o lusco-fusco da aurora, o

Eudxio riscou um largo crculo na lomba da duna e chamou o Marrazes, graduado em capataz:

- Desaterrais daqui. A areia ide-la botando por essas rampas abaixo, onde no faa febre.

Assim foi executado. Distribudos em turmas, os

homens desbastaram a corcova da duna, rojando a areia pelas vertentes s golfadas.  p, a carro, a rodo, tinham ao anoitecer aberto campa para soterrar um batalho. A esfregar as mos de contentamento, bravateou o Eudxio:

- Eh, rapaziada, havemos de fazer  duna o que se faz  pele duma cabra quando se esfola: vir-Ia do avesso..

Choveu aquela noite torrencialmente de mistura com ventania grossa. Na manh, aos primeiros lucilamentos da luz, deram com o fojo que haviam cavado raso de areia. Os trabalhadores ergueram as mos  cabea.

- Foi desfeita de Barzabul - exclamou o Pencla.
- Foi desfeita do vento! - retorquiu o Marrazes. Soprou tanto esta noite o grande co que morreram

quantos escrives h em Portugal.

A BATALHA SEM FIM                       99

Levaram todo o santo dia a desatulhar a cova, pouco mais adiantando.  hora de trindades lembrou-se o

Marrazes, que era industrioso, de cortar franas verdes de pinheiro, de samouco e de tamargueira, e com elas revestir as paredes do fosso. Toda a noite bufou e rodopiou o vento, mas desta feita foi leve o estrago que produziu. E, satisfeitos daquela manha, continuaram com porfiado encarniamento.

Em breves dias cumulavam, com o trasbordo da areia, o entalhe que haviam rasgado no flanco da duna durante semanas, e a escavao engoliria a igreja paroquial com o seu campanrio. Mas, a avaliar pela carrasca dum pinheiro, que parecia, oca e petrificada, cano de sonda

imerso nas profundas da terra, faltavam ainda muitas varas para tocar o cho firme. Aconteceu, porm,  medida que profundavam, a areia ceder  prpria mobilidade e resvalar surda, hipcrita, traioeira, at o fundo do pego. A sua mesma massa se deslocava, espremida pelo calcadoiro de bois e de pessoas, quando no escorria

em finas e quase invisveis toalhas pelas paredes em funil do aude. Reconhecendo a lentido com que progrediam, no descortinavam, porm, a origem do mal. Culparam o vento que, mal apanhou a cratera dilatada, lhes jogava pela cabea incessantes zagalotadas de areia.

Era a estao de ele correr e bandarrear por toda aquela corda de costa, rapando e esgaravatando, desatupindo e

atupindo, descompondo umas carantonhas e inscrevendo outras nas dunas alapardadas. Depois de esgrimir com a

onda esquiva, era v-lo na praia a fusgar, moldando a

areia, padejando-a, sujeitando-a ao que muito bem quer. Ela acabava por se lhe entregar, dcil de todo. Bailavam ento juntos, e  tropeada de tal par danante no havia processo de escapar.

A estas granizadas frenticas, para as quais a estacaria de ramos era impotente, atribuam o magro xito de

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suas canseiras. S quando amainou o noroeste, verificaram que na prpria areia residia, sobretudo, o inimigo caviloso. Cada gro parecia um diabinho a fugir para o inferno. Um que desatava e todos a despedir-lhe na

rasteira. Mal se viam rolar, e era a mole toda que derivava lenta, fluda, incansavelmente.

Debatendo os vcios da sua engenharia, concluram os

dois scios que era indispensvel, para bem parar a areia, revestir a cova dum anteparo de tbuas, como se usa nos poos das minas. Queimavam-se ali vinte carros de pranchas e pranches, mas no havia segundo expediente eficaz. Em harmonia, escolheu o Eudxio, por vezes homem de rasgo, um piquete de trabalhadores a quem muniu de serras e machadas. E, conduzindo-os a um dos seus pinhais, marcou os limites e deu ordens para a: derrubada:

- Vamos deitar estes mastros abaixo enquanto o diabo esfrega um olho. Cuspi s unhas!

 cada martimo, por via de regra, um serrador, e a

tarefa executou-se com despacho e boa ordem. Aprestado o madeirame, com igual presteza o levaram, ainda verde, para a Cova da Serpe os eixos chiadores. E os jeitosos que havia entre eles e os carpinteiros que vieram do Coimbro puseram mos  obra. Dias a fio o bater dos martelos espavoriu os bandos de patos reais, pardilhes e gaivotas que buscavam o refgio da terra, acossados pelo mar revolto.

Forrado o imenso lagar, respiraram. Embora o entulho fosse laborioso de remover pela rampa ngreme se

bem que longa,  multa altura a que ficava a crista da duna, puderam profundar uns bons pares de metros sem embarao de maior. A corcdia, porm, que lhes servia de bssola, continuava a mostrar-se rija, direita, com dimetro invarivel, senha evidente de que, a fugir  asfixia, o pinheiro crescera sem lei nem medida, tendo

A BATALHA SEM FIM                     101

cravado o espigo a fundura desabalada. Queria dizer, estava longe a terra firme, cho primitivo sob que se

acoitava o tesoiro.

No lhes restava outro recurso seno perfurar e foram perfurando.  Tinham   descido obra de dois cvados, comeou a areia a reminiscer mole e insidiosa por debaixo do escoramento, a gotejar das fisgas e olheiros das tbuas como o gro da moega. Em alguns stios gorgolhava, noutros corria como a gua da bica das fontes. Convertera-se, tambm, em escorregadoiro - por onde a areia dobava em rabanadas, era s o vento erguer-se - o

plano acondicionado para os carrinhos de mo. Valeu de pouco calafetarem aqui, rolharem alm. O deslize acentuava-se, tolhendo-os de ir mais longe. Impunha-se nova cintura de madeira, sarilhos e pols que iassem o

desaterro a balde. Ata, no desata, props o Eudxio:

- E se ns fssemos ao feiticeiro do Grou?... O que ele riscar  que se faz...

Abalaram na madrugada, de espora fita. O tio Manuel das Uchinhas s recebia a horas certas e no cenrio das suas corujas empalhadas e camisas de cobra estendidas pelas paredes. Mas o Eudxio foi pela porta do genro, seu devedor, que os conduziu ao quintal onde, sentado no cabealho do carro, muito velho e trmulo, a

peitaa florida de felpa branca, o homenzinho espreitava o sol. Declinada a matria da consulta, informou o bruxo que sim, que o tesoiro l estava, havendo ele e o defunto Algodres gasto dias sobre dias para o desencantar. Mas, aquilo no reunia as condies da lei, tanto valeu bater brenhas, esfuracar lorgas, como estar a dormir. j a seus avs ouvira rosnar que debaixo da duna mais avultosa da mata do Urso se acobertava um tesoiro de cara. Pedro Algodres trouxera o livro, que era a prova das provas. Que ele l estava, tinha-o por to certo como mais hora menos hora apresentar contas de sua alma ao

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Criador. Contava dois carros de anos menos sete e j tudo lhe aborrecia, seno entrava com eles na sociedade... Tinham, ento, atacado a duna grande do pinhal...? Iam por bom caminho. Mas vissem bem se possuam os requisitos todos: corao escorreito, mos e ps banhados em gua de mar, rfo de pai e me, sem beira nem ramo de oliveira.  falta deles, valia mais guardar os

pintos ao cura.

- Vossemec, seu Eudxio, no  o desencantador... ? - inquiriu. -  este moo?

- Sou eu, sou - respondeu o Algodres. - E olhe l, no me tira pela pinta? Afirme-se bem...

- Ai, no tiro, no. Estou sem vista...
- Meu pai era a pessoa de quem h migalho falou... o tio Pedro Algodres.

- Como podia eu atinar?' Mas ele deixou-te alguns bens de raiz... casa....

- Sim, senhor, mas os bens foram por gua abaixo e

a casa, que monta,  uma lura de rato.

- Isso no quita, moo. Tem telha, tem beira... E l viveu teu pai, que Deus tenha na glria. Veio a coisa fusca!

Decorreu uma pequena pausa e tornou o feiticeiro:
- Hum, veio a coisa fusca. Compreendem: tem telha, tem beira... No resto est concorde com os mandamentos.

- Se o entrave est na casa - proferiu o Algodres depois de reflectir alguns instantes - fao doao dela a minha tia josefa e acabou-se'

- E como vai de sade a tia josefa Algodres? Boa... ? Estimo, estimo. Fazia caldo que at abria o apetite a um morto. Aprendeu na serra;  borda de gua, no sabem... no sabem dar as voltas  panela e deitar-lhe o tempero devido. Mas, homem de Deus, que montava fazeres a casa a tua tia, se o que  dela  teu?

A BATALHA SEM FIM                     103

- Ento vende-se...
- No sei se ser de valha. Duvido. Sempre fica o

dinheiro; sempre rendeu dinheiro. Eu, nos vossos casos, prometia voto taludo a Nosso Senhor, que tudo manda.

Est prometido - declarou o Algodres. Pois tende f e continuai. Continuai, que o tesoiro

l est.

O tio Manuel das Uchinhas no s recusou a esprtula, como teimou para que tomassem o mata~bicho. Foram dejejuar-se  taberna, e, ainda a meia manh no era passada, despediram. Levaram o caminho a mascar nas palavras do benzilho.

- Rai's abrasem a casa se h-de ser a nossa desgraa! dizia e redizia o Eudxio. Naquele dia fossou-se  grande na duna mas com frouxo resultado. Tornava-se urgente revestir a escavao de nova cintura de tbuas; dez a quinze carros de madeira, porm, que a obra consumia, eram quantidade de peso no oramento e o Eudxio hesitava. Comeava a

tortur-lo a dvida. Em vez de desenterrar um tesoiro no andaria a abrir a sepultura  sua casa? Diziam-lhe que sim os amigos e conhecidos e, em certas horas, as vozes prudentes daquela parte da sua pessoa que no desperdiava migalha nem dava ponto sem n. Mas o Demnio, que se posta  espalda dos jogadores quando esto  banca, na voz que abafa todas as outras, gritava-lhe: persiste' A vaza era de respeito e com um pouco mais de perseverana podia arrebanh-la para si. Se desamparasse o jogo quela altura, nunca mais teria sossego em sua alma. Ficar-lhe-ia o remorso do que deixara, possivelmente, de ganhar, e, mais que tudo, do que perdera sem remdio. As despesas havidas cifravam-se em dezenas de contos, e no se resignava a que o seu rico dinheiro fosse pela gua abaixo. Ser-lhe-ia rombo irremedivel na fazenda. Mas, alm do interesse

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to profundamente ferido, havia desdouro em desistir. Estava a ouvir a surriada dos trocistas, por aqueles povilus fora, no dia em que renunciasse ao tesoiro. Por outro lado, depois das reservas que formulara o feiticeiro do Grou, teimar era correr os riscos de prejuzo maior. Que fazer? Sentia mo de ferro a segur-lo e outra, no menos feroz, a impeli-lo para a frente. Duma banda o medo, o amor desatinado aos bens, a sua cautela de raposo, a avareza; da outra a ambio, o seu brio de ricao, a dor do que desbaratara, a confiana na boa estrela, batalhavam em rija guerra. Que fazer, santo Deus? A fria era alta e reconhecia que a indeciso s agravaria o problema, o mais difcil e angustioso problema que at  data se plantara na sua vida. Se deliberasse continuar, foroso era proceder ao revestimento, sujeitando-se aos

sacrifcios indispensveis; se retirasse, devia faz-lo sem

perda de tempo, que a jorna dos obreiros era voragem sem fundo. Mas por qual optar, santo Deus?

Uma das noites que no pudera pregar olho, levantou-se, ainda a alba no vinha de@ Castela, tonto de todo. Saiu de arremesso, s passados tempos dando conta de si e de que ia sem destino pelo caminho do Coimbro.  claridade baa das estrelas, que se iam sumindo no cu plmbeo, mal negrejavam os cimos negros dos pinheiros e as rvores das sebes que ladeavam os caminhos. Era esta espcie de viglia que precede o

no. amanhecer, mais quebrantada que a noite em seu pi: , quando os galos deixam de cantar e as sombras esvanecentes e a friagem lanam sobre as coisas silente e impondervel mortalha. Parece ter-se suspendido-o curso do tempo. Se se fecharem os olhos, o mundo morreu. Subitamente, ouve-se um piar de passarinho e  a intermisso que acaba. A terra desabrocha como imensa aucena, e os mil rudos da vida correm como regatinhos de aude que encheu e trasborda. Aurora.

A BATALHA SEM FIM                     105

Ouvindo ao longe, no campo, as ave-marias flbeis, quase meladas, dum campanrio, o Eudxio tirou o gorro e rezou. Rezou pelas almas que penam nas chamas do Purgatrio, e para as quais a prece matinal  como jorro de gua fria; por alma do pai que lhe legara grossa fortuna, amealhada gro a gro; depois, rezou por si, para que dos lbios lhe fosse desviado o tremendo clice da amargura. Se as almas lhe inspirassem o rumo a tomar,, era capaz de lhes mandar erguer um nicho naquela mesma altura do caminho, com uma lmpada de azeite sempre acesa para seu refrigrio. Mas as alminhas, se apareciam neste mundo, corriam espavoridas por montes e vales, semeando o terror e no apaziguando. Estava na sua condio de penadas. Os santos, que gozam da cincia de Deus,  que podiam dar-lhe a senha
inestimvel. Muitas vezes o faziam para os seus devotos. Mas no se amerceariam dele, que nunca gastara as solas dos sapatos nas romarias, nem enchera com o gro das tulhas o bornal elstico dos mordomos. Era crente, nado e criado na lei divina, mas no santanrio, e avesso a votos e penitncias. Aos santos rezava quando rezava, e dessem-se por contentes em no fazer todas as encomendaes a Deus. Deles, pois, no havia que esperar aceno ou rebate que o orientasse no caminho a seguir. Mais lhe valia jogar um vintm ao ar e - cara ou cruzes assentar em sim ou no. Podia, ainda, apostar dum caso o desempate do negcio...

Naquele momento a torre do Coimbro bateu, tambm, as ave-marias, medrosas, dir-se-ia lvidas, no cu gelado. Trmulas, liquescentes, pareceu ao Eudxio que aquelas badaladas calam como gotas de orvalho no Purgatrio em brasa.  semelhana do que via nas bandeiras das irmandades, nos restbulos, nos frontes de pedra que ladeiam os caminhos, as alminhas erguiam olhos splices para os vivos. Gemeriam, rodeadas de chamas,

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erguendo na balsa de fogo, umas por cima das outras, os

dedos tisnados. E, rendido  piedade merc da imaginao, o Eudxio ps-se a desfiar padre-nossos atrs de padre-nossos, ave-marias e ave-marias sem conto. E, reza que reza, entregue do mesmo passo aos seus roedores cuidados, ocorreu-lhe fiar duma condicional em que entravam as lminhas atormentadas a soluo do caso.

Pois era a hora consagrada s almas, se dali at  igreja do Coimbro encontrasse criatura do Senhor a rezar, prosseguiria; se no encontrasse, mandava a duna para o Diabo.

Dizia-lhe, todavia, o entendimento que tanto valia creditar de tal contingncia, por de mais problemtica, deciso to poderosa, como tom-la desde j riscando para todo o sempre com a obra em que se metera. Mas, pois que a sugesto lhe viera ao esprito no momento em que orava, revestindo at certo ponto um aspecto de mandato, no lhe era legtimo abdicar da prova. Com este tino avanou para a aldeia dormente nas sombras do lusco-fusco, sombras que se iam tornando rarefactas  medida que se acercava, com leves fosforejos de luz nas

cumeeiras altas. No tangia chocalho, no rumorejava voz, e o Eudxio ouvia os seus passos como de tropa que estivesse a romper de debaixo da terra para lhe sair ao encontro. Ao inflectir da rua, que era o cabo do caminho que vinha desde a Ervedeira, a massa area da igreja, depois, o solo nu do adro ao mesmo tempo cemitrio, com as raras e negras cruzes de ferro esparsas aqui e ali como arbustos desfolhados, lobreguejaram a seus olhos. E, afirmando-se, o espanto que o tomou foi to grande que quase ia dando em terra. A toda a volta do templo, vultos, muitos vultos, deslizavam ao longo das paredes do templo, silenciosos como sombras. Uns na peugada dos outros, com ritmo fantstico, genuflectiam diante da porta maior e desapareciam, ao fundo, no ngulo

A BATALHA SEM FIM                    107

formado pela tribuna, para reaparecerem dobrando a esquina da galil.

Ainda que arrojado, pouco atreito ao pavor sobrenatural, o Eudxio persignou-se, a medula passeada por um calafrio. Recobrando-se pouco a pouco, esfregou os

olhos, no fosse joguete de sonho ou iluso. Estava bem acordado, no gozo dos cinco sentidos, e pelas casas, a

taberna do Pinto com o ramo de loiro na umbreira, os caminhos, a forma e aspecto das coisas, que lhe eram

peculiares, certificou-se que estava no Coimbro e que o

prodgio que tanto desejara se estava operando. A procisso dos fiis de Deus prosseguia lenta e sossegadamente com as mesmas pausas e zumbaias. Reparando bem, depois de vencer-se em sua pusilanimidade, observou parecerem de natureza terrena os seres que divisava. Sombras nas sombras envolventes, mais que tudo, viu-lhes mantis velhos, saias escuras repuxadas para a cabea, gabinardos amarfanhados. Espera...

Abeirando-se em ps de l, encarou com o primeiro penitente. Quem ele era! O Pamplino.

- Deu-vos para boa' - exclamou. - So horas de rezas?

Apinharam-se em torno dele. Eram os martimos, os cavadores, com mulheres e filhos, gente que trazia na duna, e vinham nas trevas da noite, pois o dia era pouco para a labutao, implorar Deus e os santos que lhes fossem favorveis no desenterramento do tesoiro. O Eudxio prestou-lhes um ouvido rpido e foi ajoelhar em frente da galil, naquele ponto em que o seu olhar encontraria o do Esprito Santo, perfilado no altar-mor

com a pomba da sabedoria  mo direita. No o via, mas bem sentia na alma o olhar que penetra corpos e coraes. E, ali na terra nua, pediu perdo a Deus da sua descrena, agradecendo  infinita bondade ter-lhe mandado um claro sinal. Em vista desse sinal, ia empregar a

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fortuna no prosseguimento da empresa, prometendo-lhe a ele e aos pobres ricas e opulentas alvssaras. E, desafogado do seu transe, cheio de uno pelo Senhor Omnipotente, lhe rendeu fervorosas e abundantes graas. Com a turbamulta dos trabalhadores rompeu jubiloso para a Cova da Serpe. Amanhecera quando se lhes deparou a montanha branca de areia. j o Algodres ia e vinha no meio do desaterro, como engenheiro que tira a planta, e homens e carros formavam s bandas, prontos  primeira voz.

- Temos que deitar mais pinheiros a baixo - declarou o Eudxio. - Toca a aparelhar!

Abalaram. De caminho, disse para o Algodres:
- Amigo, ns vamos para diante, mas convena-se duma coisa: da companha no resta com que mandar cantar um cego...

- Pacincia!
- E oxal no v o demo da casa empecer-nos... Aprestaram o madeirame necessrio e aos carpinteiros de Monte Redondo encomendaram aparelhos de alar. E, em breves dias, a imensa cisterna desceu mais fundo na terra, e a duna esfandegada alargou os flancos pelo pinhal, pela regueiras, pelas outras dunas, como se lhe soprassem, a um tempo, mil furaces.

vi

O homem chegou at ali, ora de gatinhas e de rastos, ora flectido para o cho como lobo que vai furtado. Pinhal dentro, ergueu-se e tomou flego. Ningum o

via, salvo Deus, e ele podia tudo ver: o oceano, as dunas e, a menos de cinco minutos de passo folgado, o monto de fuligem, de frio e sordidez que era a aldeia na sua mortalha de Inverno. A tropo-galhopo nos algares do solo, os ltimos beirais afocinhavam de tope nas ondas e pareciam bolar.

Fosse rudo que o inquietasse, fossem escrpulos da prudncia, o homem postou-se ao abrigo duma rvore, desconfiado. Assim esteve um bom espao, sete olhos  direita, sete ouvidos  esquerda, at que se capacitou que na mata no rondava alma que viva. Depois de limpar o suor da fronte e a lama dos joelhos, bateu o terreno. Andou, mirou, rondou de moita em moita, e, marinhando, afinal, pelo tronco dum pinheiro, estes pinheiros anes e disformes da beira-mar que do ideia, sem guia e com a rama contrafeita para o solo, de gal desmastreada, acocorou-se entre os galhos como milhafre  espera.

Caa uma chuva irregular e grossa que, tangida pelo noroeste, tamborilava contra a casca das rvores um rufo miudinho. As franas e corutas altas vergavam, gemendo. Mas, indiferente ao temporal, o homem ps-se a espiar o casario, a casinha do catavento, sobretudo, de ar

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espantadio e solitrio  beira do macadame, como irresoluta entre fugir ao povoado e s areias, que desciam das dunas virgens em catarata. Com os muros sem cal nem frestas; seixos a prender a telha-v; a sua pobreza transida; o seu vulto de humildade, em nada se distinguia das mais choupanas dos pescadores. Miporos e

tamargueiras, no esfranado ainda da cancula, protegiam-na at meia altura, ao mesmo tempo que defendiam contra a duna os dois palmos de quintal.

A todo o mbito, floresta, terra e mar, no se avistava sombra de criatura. Aqueles que a manh agreste no ferrolhava de portas a dentro chamara-os a sineta da capela para a missa que o reverendo Horcio Biu ali viera dizer a rogo de mestre Vermoil. Fechara este a safra com lucro e sem estrago de vidas; mas que tivesse perdas ou naufrgios a deplorar, invariavelmente, ano por ano, enderearia a Santo Antnio a missinha agradecida. Do poiso, o homem descobria a sineira da capela, de encancha-perna sobre o encume, que no era mais que uma

ndoa verde-limosa ao rs da terra branca. A duna submergira o templozinho at os beirais, permitindo que os ces se lhe fossem deitar no telhado, de Inverno a

espreitar o sol, de Vero a gozar a sombra do campanrio. Mas a cruz pairava alto, com os braos negros, abertos, a abenoar igualmente os palheiros dos martimos e os chals fechados dos ricaos de Leiria.

Para tudo o homem olhava com pupila rpida e superficial; para tudo, afora a casa desamparada  beira do macadame. Ali a sua vista interrogava; marrava-se como

aor diante da presa; parecia esquecer-se do resto do mundo. Por vezes, de lassitude, os olhos distraam-se-lhe pelo mar que o temporal encapelava. Ao largo, tudo era negrume; rente  costa, no meio da tenebrosa mobilidade, reluziam muito brancas as cristas das vagas, rolando umas sobre outras em esquadres velozes, em-

A BATALHA SEM FIM                     111

penachados de espuma esvanecente. E o marouo repercutia contnuo, atroador, picado de instante a instante pela bofetada alta da rebentao. No se divisava vela nem tbua de navio; as asas tinham desertado do mar e, nas toiceiras de estormo e refegos da costa, marrecos, mergulhes, gansos patolas deviam ser mais fceis de pegar que galinhas no choco. Grande pechincha para os pescadores que iam pela praia a cima derreando a pau os atordoados palmpedes e encafuando-os para o saco! Era um dia cheio, de comezaina  tripa-forra, como para zagais, caadores e caarretas as nevadas nas serras. Vendiam ainda parte dos passares pelas tabernas e casas dos lavradores e derretiam o resto para adubo da panela. Louvores ao Pai do Cu, merc da sua misericrdia a procela dava de comer como a bonana!

O fito do homem, porm, era a casa e, aps breve divagao, voltou a olhar para ela. Um, dois, trs minutos de vista obsessa e, perante o panorama inaltervel do telhado escorrendo dos beirais lamao, tdio, melancolia, novamente se alheou. A todo o redondo, gua, areal... e vento. As duas imensidades eram picadeiro do vento. O mar recebia a vergastada, e crespo, furioso, rojava-se para a terra como se tivesse a peito esmagar contra ela o fugidio agressor. Nas dunas, cemitrio das ondas, era outro o seu lidar. Como se a areia fosse o seu pimpampum, cuspia-a s rebatinhas, disparava-a em chapoiradas por ptios e telhados, punha-a a desfilar diante de si, ora baixa e mansa, semelhante a rebanho de carneiros, ora mais alta, irreal e vertiginosa que voo de gafanhotos. Com ela, trazida no se sabe donde, andava h anos, h sculos, edificando aquelas lguas informes de dunas, alterosas e ondulantes como as prprias vagas, mar branco e desolado diante do verde mar. Ali, embora orla do pinhal, o homem apercebia-se da obra tirnica: as areias crescendo, ele sentia-as varrer,

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tinir, acogular-se com o alegre rumor do gro ao varrer

na eira para o monte.

Mas ao homem que lhe importava a gestao centenar das dunas? Importava-lhe a casinha isolada, com ar de morta, sob a fxlra do cu. E, volvendo olhos para ela, depararam -se-lhe as mesmas imveis telhas, encardidas pelas intempries e pela tristeza daquela manh sem sol, o mesmo cubo de pedra tosca, recortado pelas franas verdes dos mlporos. Luzia o barro vermelho nos guieiros, e esse lampejo era o nico quebranto  morrinha que exalava. Rente a ela, tambm nua e deserta, a estrada parecia um corredoiro do vento.

Chovia, ele porm no sentia a chuva. Com as grossas gotas, de mistura com a areia, ia o noroeste metralhando o arvoredo. Era sempre assim pelo Inverno fora, Estava escrito nas formas torturadas dos pinheiros da zona que entesta o mar. Tinham a)oelhado uns pelos tronco, depois de dois rodopios volvido a erguer-se, para enristarem ao alto galhos amalucados. Dobravam-se outros obra de trs metros de alto, semelhante a compasso que se fecha, e a gula ia coleando, rastejando pelo solo, membruda e eriada de escamas, como jib ia na marcha. Alguns apresentavam corcundas de grossura descomunal e um nico ramo, tico, articulado de banda - brao gigante a agatanhar no ar. Havia-os que curveteavam em perfeita espiral, subiam e desciam ao cho, para se

enrolarem e desenrolarem como molas disparadas. Em no poucos sucedia que, estroncada a haste, as frondes reflussem para o solo e, enterrando-se, criando razes e

ricocheteando, rodeassem de filharada o cepo vivo, decapitado. Algumas vezes via-se um tronco de rastos afundar-se no cho, emergir a distncia, largando, depois, em linha recta, retrocedendo em ziguezagues, tornar a sumir-se e tornar a aparecer, to fantstico que seria temerrio dizer onde estava o espigo. Nestes a

A BATALHA SEM FIM                     113

seiva estrangulada concentrava-se em certo lano e pareciam afectados de elefantase; naqueles, de grosso e

atarracado toro, depois subitamente delgados e altssimos, figurava a imaginao anes sapudos, porta-estandartes. Esquelticos, torcidos e retorcidos como tiras de coiro a incinerar; parodiando formas trgicas, humanas; lembrando colossos a cair fulminados e gebos no desengonamento da fuga; de todos os feitios; em mil extravagantes posturas; evocando os infinitos aleijes - ao

lance de olhos, constituam menos um trecho de floresta que um arraial de monstros. As suas linhas convulsas resumiam indescritveis episdios do combate da vida com a morte.

Mas que lhe interessavam os pinheiros estropiados pela asfixia das areias e a bafagem cida do Atlntico? E, erguendo os olhos para a casa, a sua face iluminou-se de alegria brbara. Em cima das telhas comeava a formar-se, no obstante o vento ponteiro, um halo de fumo, bao e miudinho como musgo em rochedo. Exsu~ dava pelas talisgas e, rarefacto, duma palidez de gua a

trasbordar de cisterna, devia encher o interior todo. Flutuando molemente sobre o encume em vez de se desenvolver em altura, esflocando-se dos beirais, revestiu primeiro o cimo das paredes duma faixa cinzenta, algodoada. Depois,  medida que se vertia pelas gretas do telhado, tornava-se denso e negro. E mar, dunas, pinheiros flagelados, tudo desapareceu para o homem -,

* sua vista de ave de rapina, que afinal descortinou caa,
* adejar sobranceira  choupana.

Minuto a minuto   , a fumareda alastrava mole e opaca; descosia-se em novelos que o vento ia dobando, desenrolando pelo cu fora, enriados uns nos outros os tnues filamentos de nanquim e guache; crescia e alava-se em orbes e parbolas; debruava-se para o solo, cingindo as paredes e oscilando pelos ramos dos mlporos, qual

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neblina dos rios. E, repentinamente, uma lngua de fogo fulgurou, tremeluziu, apagou-se, como se a mesma

elasticidade a projectasse e reprimisse. Logo a seguir, lumarus vrios riscaram o nimbo de fumo, extinguindo-se uns, brotando outros, animados duma agilidade de farndola. O vento soprava-lhes e pareciam, finos e

recurvos, alfnges cheios de sangue. Acima deles, crepitavam e desvaneciam-se falhas    'as igniscentes. Mas os

fogachos engrossaram, subiram mais alto, e negros na base, azuis no meio, rubros no vrtice, somaram-se em meia dzia de chamarelas, direitas e aceleradas como repuxos. Segundos decorridos, duas, trs destas fundiram-se ainda, depois outras e outras, e o ar enrubesceu at longe ao claro das grandes labaredas. Voavam e dissipavam-se as fascas meteoricamente acima do turbilho. E  medida que o incndio tomava p, a casa

desanuveava, destroado o fumo pelas rvores, o macadame, os prdios de dois andares dos estanceiros. Breve, um bulco enorme, mal esfarrapado, vogava  flor das dunas e o seu vulto e a sua sombra eram como dois avejes em rompente luta.

De sbito, ouviu-se, no meio do fragor das ondas, o

estralejar dos materiais, triturados pelo fogo. Lembrava mil serras a morder, mil ceifeiros a ceifar, as vagens dum giestal imenso a abrir ao sol de Vero. Ao mesmo tempo, impregnava-se a atmosfera do cheiro a queimada, que  salobre e abafadio, e de cheiro a chamusco, que enjoa, proveniente da cremao de tudo o que  de origem animal ou tocado por humores animais. A casa era agora uma fogueira gigantesca, de chama impetuosa, aos sacolejes, cadenciada a ritmo binrio, com sua coroa

de fascas a esfuziarem em plena borrasca. Avermelhara tudo em roda e, l em baixo, na espelharia do mar, um

archote colossal ardia, figurava-se arder por sobre o

tropel das ondas.

A BATALHA SEM FIM                     115

A casa jorrava lume por todas as juntas quando um

grito retiniu, to angustioso e agudo que as prprias aves dos bosques teriam estremecido: fogo! Uma curta pausa, e segunda vez se ouviu o mesmo grito, mais

vibrante, trmulo e arrastado. Respondeu-lhe um silncio de tal modo absoluto que dir-se@ia suspensa a vida e o prprio marulho do mar. E, imprevistamente, soltaram-se, como de aude, todas as vozes frenticas e aflitas e todos os rumores dum vespeiro assanhado. E por cima do sussurro e do anncio cada vez mais estridente: fogo! a sineta rompeu a badalar e o seu aulido, opresso, de cana rachada,  flor do solo, era mais lgubre que o

uivar dum co com as pernas esmigalhadas nas ratoeiras.

Do carrapito da rvore, o homem via correr e sarabandear nas vielas o formigueiro da gente ansiosa*. Sem perda de minuto, sacavam das choupanas tudo o que pudesse servir  gua e lanavam-se para o chafariz e lavadoiros. Breve, duas cordas de povo, com vasilhas cheias, com elas vazias, esgalgavam-se em sentido oposto, uma contra a outra, como serpentes fugidias. Mulheres traziam o cntaro  cabea e duas latas nas mos, crianas abraavam ao peito rotundos alguidares; os prprios velhos se punham acarretar gua.

Entretanto alguns homens haviam erguido escadas para o casebre e, forando as portas, despejavam em catadupa a gua que lhes vinha s mos. Aos primeiros jorros, grandes borbotes de fuligem espirraram ao cu; desapareceram os homens um instante para volverem a

descobrir-se pequenos e desengonados como bonecos na nuvem de vapor e fumo. A chama amainava os olhos vistos. Por cada jacto mais forte e acertado, sentia-se o chuchurrear spero da gua nas madeiras incandescentes. Voltava a quebrar-se em fogarus vrios a frgua terrvel. Sacudia-lhe o vento para o largo as rocadas de fumo, agora mais espessas e negras; e, semeando-as pelas du-

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nas, parecia andar a plantar uma floresta de medonhas rvores. A sineta tangia, tangia sem descanso, e como a populao se ajuntara toda ali, martimos e fiscais do Posto, o seu dobre soava a clarim a animar uma batalha.

Caminho fora, atravs das hortas,  retaguarda dos chals, as duas bichas de gente, rpidas e ordenadas que nem regidas a compasso, continuavam a trazer gua. E, negros e infatigveis, os homens iam-na vertendo no braseiro.

Pouco a pouco, descorou o ar; pouco a pouco foram declinando as labaredas; lnguas de fogo, um instante teimosas, amorteceram, apagaram-se; espirais de fumo, brancas e amarelas, furavam ainda dos boqueires do telhado e esvaam-se no cu torvo; uma chama verde alcandorou-se... despediu para nunca mais. Estava vencido o sinistro. Indiferentes  chuva, os homens puseram-se a remover as telhas para a crista dos muros, suspeitosos das traves e caibros carbonizados. Andavam j menos pessoas no corropio da gua. Dilura-se nas dunas, como pesadelo, a portentosa e efmera floresta.

Quanto tempo durara a refrega? Horas ou uma dzia de minutos, ningum o saberia dizer. O homem teve a impresso de acabar de viver uma eternidade. Com olhos rasos de lgrimas, mas o mesmo lampeio de ufania selvagem no rosto, desceu do pinheiro e, ladeando pela mata a fim de no ser visto, meteu  estrada. E a passo resoluto caminhou para a aldeia, de que se distinguia o zumbidoiro por entre a quebrana do mar.

Mal repararam nele, correram ao encontro:
- Senhor Jos, nim& Aconteceu-lhe uma desgraa...

- Botou-se-lhe o fogo  casa...
- Perdeu-se tudo? - perguntou de olhos baixos.
- Alguma coisinha se salvou; pouco. O tecto, se no

A BATALHA SEM FIM                     117

apeiam a telha,  que vem a terra - e a mo enfarruscada dum salvador apontava.

O Algodres ergueu a vista, deparando -se-lhe em formas objectivas o quadro que se lhe representara  imaginao. Paredes calcinadas, a telha em rumas nas arestas dos muros, o escama-peixe roto e fumegante, as portas em estilhas - era a casinha que seu pai comprara com o pobre dinheiro bem ganhado, onde sonhara anos e anos e rendera o ltimo suspiro. Tambm a si o agasalhara com

uma doce e maternal ternura, acolhendo-o prazenteira  volta das longas jornadas e dispensando-lhe segurana nas noites tenebrosas. Era humilde mas quentinha, pequena mas cabonde, e mostrara-lhe sempre alma resignada e amante, destas almas que no tm meio de expresso e so envolvedoras e meigas como asas. Vinha encontrar um cadver que parecia ainda olhar extremosamente para ele pelas duas janelas da frente, negras como pupilas vasadas, e pela porta s escncaras, fora dos gonzos. Fora como um segundo seio para a sua carne e doa-se de a ver morta e mutilada. Mas porque se deixava vencer pela amargura quando estava escrito e era preciso: sem pai nem me, eira nem beira?!

Ao pr p no ptio, acometeu-o a dvida, sentiu-a a estrangular-lhe a garganta como dentua filada duma fera. Se tudo fosse intil, se tudo fosse logro do seu

entendimento? Mas no, no podia ser. E, apertando as

mos no pescoo e desapertando-as de repelo como se

arrojasse longe o agressor, expulsou do sentido as sombras ms. Afoito pisou o cho em que se acumulavam os salvados, mais tristes e imundos que recolhidos de naufrgio. Uma coca negra, com o seu qu de quadrpede e

rptil, pulou-lhe s pernas:

- Mata-me, sobrinho, fui a tua perdio'
O Algodres levantou da terra a miservel rodilha, desceu-lhe da cabea, a esconder as pernas roxas, a saia

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lutuosa. Ela, porm, continuava gernebunda e pegadia:

Mata-me, foi por minha culpa' Minha culpa...
O seu primeiro impulso foi sossegar a alma atormentada, dizendo bem alto:

"No se culpe, que est inocente; erga as mos que os

fados cumprem-se e h~de ser rica!"

Mas vergonhoso, acobardando-se de assoalhar a soberba do seu sacrifcio, proferiu apenas:

- Descanse, tia, que ningum lhe pede contas.
- Para onde havemos ns de ir? Jesus, Jesus, Jesus!
- No se consuma. Vossemec vai para a terra por uns dias, depois ter casa melhor, muito melhor do que esta.

E, apartando-se dela, com a biqueira do sapato ps-se a mexer nos destroos, roupas velhas e estopas, tarecos caseiros, apetrechos de pesca, coisas todas de nonada. Avanou, em seguida, para a choupana, mas no teve coragem de transpor os umbrais. Em despeito do telhado esburacado, por onde a luz de Inverno se despenhava a jorros, merc, porventura, da negrido dos muros e dos soalhos carbonizados, l dentro fazia escuro e lgubre como nas horas em que seu pai estava no

celrio, hirto e imenso, com os queixos atados, em cima de tbuas. Algumas das sombras esfarrapadas que tinham acompanhado o defunto na antecmara da sepultura moviam-se ali, igualmente dolentes e confrangedoras: o Joaquim Bica, coberto de mondongos, que engaava o mortulho para a rua, o Savelheiro de braos robustos, suarentos, a apagar as derradeiras brasas, a tia Remgia, com o eterno piado de galinha choca, a colher a migalha aqui,  migalha acol, para o avental. Ao avistarem-no, repetiram as expresses lastimosas que haviam pronunciado  beira do cadver:

- Conforme-se, Deus  que manda!
O espectculo que se lhe oferecia encaminhou-o a

A BATALHA SEM FIM                      119

meter mo na conscincia e teve medo. Teve medo e, seguidamente, reergueram-se-lhe diante dos olhos os

espectros doloridos do passado. Sentado, primeiro, num banco, seu pai murmurava:

" - Se te pudesse levar comigo... Estendido, depois, na arca do po, desenregelando das linhas severas e fixidez afrontada com que regressa  argila a natureza humana, de olhos acesos e voz de alm-campa, dizia-lhe:

"- Desgraado, que fizeste da minha casinha? Que fizeste?"

Ouviu, figurou-se-lhe ouvir aquelas palavras, e fugiu dali, perseguido pelos fantasmas que vm dos cemitrios e dos infernos habitar as almas. Debaixo de aguaceiros, na roda dos pescadores, sua tia Josefa contava pela dcima vez, entre lgrimas e gemidos, a histria do desastre:

"Levantara-se com Deus na boca e os anjos no peito, ao clarear a manh, para no perder a missinha que a

Rosa Bau lhe anunciara de vspera. Fazia muito frio, um

frio de cortar coiro, e cabelo, e, espera que no espera, prantara uns chamios na lareira para, ao mesmo tempo que se ia aquecendo, emornecer o caldinho que sobejara da ceia. Caf era para os ricos. Por todo o Inverno fora, o seu passadio no botara alm da gua de unto e dos chicharros de salga. E graas! Seu sobrinho, desde que andava na labutao da duna, mal punha os ps em casa, e ela sempre fora de pouco sustento; com dez ris de nada enchia a barriga. Tinha a tigela na mo, desata a

sineta a chamar para o santo sacrifcio. Acabara de comer  pressa e, vai, de que se havia de lembrar? De pr umas

achas no lume. Assim, toparia a casa quente, e lenha, louvores ao Pai do Cu, no raleava no pinhal, era s ir por ela. Mas, jurava pela sua salvao, as achas que pusera no eram tantas que as no abarcasse um menino de

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quatro anos no braado. Alm de no ser gastadora, tinha medo ao fogo que se pelava. Mas que as pusera, pusera; para que havia de estar a negar? E, como as pusera, a culpa era sua. Tinha tantas vezes feito a mesma coisa' Diziam que havia palpites... Ela no sentira o mais pequeno baque do que ia suceder. Fechara a porta, metera a chave no buraco sabido da parede, no viesse por um grande acaso seu sobrinho, e dirigira-se para a capela to descansada da sua vida como quando ia a dois passos a baixo dar um recado  vizinha. Como se pegara o lume? S Deus o sabia e o Porco-Sujo, pois aquilo trazia mesmo a marca do Tentador. Dois dias atrs

carretara um grande molho de lenha para o canto da cozinha. Mas deitara-a longe do fogo e a recato. Que fora rabanada de vento que, entrando pelo suspiradoiro, jogara com um tio para o monte, diziam. N; no era uma nem duas vezes que deixava o luminho aceso com ventania, Deus bendito, que at parecia cair o c u a baixo. N; fora obra do Mafarrico: o Mafarrico no tem sono. W l que havia de ser de si, no pino do Inverno, sem duas palhas em que deitar-se?@"

O sobrinho chegou-se a ela e proferiu com arreganho:

Cale-se, mulher! Vai para a terra e no lhe h-de faltar coisssima nenhuma.

AI, sobrinho, o dinheiro no se cava.... - e, dizendo isto, rompeu novamente na ladainha da sua cadela de sorte.

No valia a pena gastar mais cera com ruins defuntos,

e o Algodres arredou-se da velha, quedando passos mais longe, apatetado, a ouvir a um martimo a narrativa do incndio, nas peripcias e fases vrias. Cansado, finalmente, em seu moral, morto por se ver longe daquilo tudo - regueiras de lama negra, ar ufano dos salvadores, espantalho pavoroso da casa - foi para a tia e, indicando as rimas de destroos, disse-lhe:

A BATALHA SEM FIM                     121

Vossemec que quer daqui? Josefa olhou para ele muito fita, sem pestanejar.
- Tire o que  seu e tudo o mais que lhe apetea...

tornou o Algodres.
- No quero nada - proferiu entre dentes.
- No quer nada,  boa!...
- No, senhor.
- Deixe-se de amuos e escolha... A velha como que impedernira numa carantonha de mgoa e desprezo e ele voltou a teimar:

- Ande, tire l...
- j lhe disse e repito que no quero nada. V petar ao inferno'

- No precisa destas coisas na terra?
- Na terra tenho uma enxerga e duas mantas de burel para dormir. Se no morrer antes,  quanto bonda.

- Faz mal - disse depois de pequena pausa. - Vou dar tudo...

- D, quem lhe pega?
- Amigos - exclamou ele, alteando a voz e dirigindo-se aos presentes -, levem tudo o que est aqui no

ptio. Levem... mas repartam irmamente.

Tambm eles no compreendiam e esclareceu:
- Sim, levem para suas casas. O que salvaram pertence-lhes. Se no so vocs, s ficavam cinzas.

E como ainda se mostrassem perplexos, atnitos com a generosidade, agarrou duma manta, de calado, e atirou-os:

- Tia Charana, tome! Joaquim Bau, umas botas... Mas ainda os objectos iam no ar e j a tia Josefa, num

salto de ona, lhes deitava garra adunca, gritando:

-  d'el-rei, que roubam o que  meu'  d'el-rei, meu sobrinho est tresloucado'

Dez, vinte pessoas tinham-se lanado sobre os despojos e arrebanhavam s mos juntas. Todas queriam e,

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sendo muitas a arpoar o mesmo objecto, pelejavam. Algumas caam sobre a presa, de salto, como gerifaltes,e despediam escoteiras. Outras, insinuando-se por debaixo do cacho de contendores, picavam o bocado sem conseguirem contudo safar-se com ele do monte de gente. Viam-se mulheres a patinhar na vasa, hediondas como demnios; outras, as nudezas mais ntimas s escncaras, gemiam ou uivavam. Os homens fortes abatiam os mais fracos a murro; defendiam-se estes a dente; e, no meio da balbrdia, um garoto, a escorrer sangue, quase nu, com uma angoreta apertada contra o seio, soltava berro de cabrito. Em volta do campo da luta, a

tia Josefa, mos a padejar, clamava com redobrada violncia:

-  d'el-rei, que roubam o que  meu'  d'el-rei." Pea a pea, dez vezes perdida e recuperada esta, enfandegada aquela,  fora de disputas reduzidas umas a fiapo, traadas no poucas em motrecos, desapareceram as roupas. O ltimo bando batalhava pela posse da ltima tela de tomentos, acesos entre si numa briga feroz de lobos. Puxava o cobioso por uma ponta, o invejoso por outra, e vrios cainhos pelo meio, em movimentos opostos. O Cabrita, de Barros da Paz, sacou da nalfa e ps-se a talhar o seu quinho. Mas com os saltos da fazenda no coincidia duas vezes o golpe e, corta aqui, esburaca alm, o pano ficou todo anavalhado. Quando cada qual deu conta do farrapo que tinha na

mo, minsculo como o sanguinho da missa, olharam uns para os outros furiosos.

- Cem ces vos mordam, mais o que fizestes  pea!

rosnou o Cabrita, cuspinhando de enojado.
- Ladres! - bradava a tia Algodres. - A maldio caia em vossa casa. Oxal que nem um lenol podre vos

reste para mortalha! Ladres!

O Algodres assistiu de corao alanceado  peleja dos

A BATALHA SEM FIM-                     123

miserveis. Quanto h pouco, no ataque ao incndio, se

haviam mostrado abnegados, eram agora srdidos e ferinos. O famlico disputava ao famlico com unhas e dentes o osso a esburgar; o roto disputava ao esfarrapado a roupinha com que abafar-se. Restitudos  misria, apeados da faina de solidariedade, descobria-se em suspenso o seu resduo de feras. E, repeso de ter provocado aquela exploso de instintos, o Algodres disse-lhes em voz comovida:

- Tende f, ainda heis-de ser remediados! j o cercavam, focinhos no ar de chacais que farejam posta, quando o Jos Rodrigues, fiscal, que voltava de baixo com o Vermoil, escandalizado do que se passara, arremeteu para eles:

- Rodem daqui, seus pirangas! Ficaram ali os dois com o Algodres e a tia, que se

deitara de borco sobre a estrumeira, de sala arrepanhada para a cabea, a soluar. Descalo, mos atrs das costas, caninos ferrados sobre o beio, o Vermoil olhava em silncio para as quatro paredes, insensvel  chuva que caa. De sbito, o Algodres virou-se para ele e disse-lhe:

- Senhor Manuel, vendo-lhe isto.. Quer fazer negcio?

O mestre nem pestanejou; decorridos minutos, com a mesma cara de pau erguida ao vento, as manpulas nos lombos, semelhante a boneco que s move as pernas, deu meia dzia de passos para a frente, no jeito de entrar em casa. Mas no foi mais longe que o trao da porta; demorou-se apenas o tempo necessrio a percorrer a runa com o simples lance de olhos. E volveu franzindo a boca em ricto de mofa:

- Nem dada ta queria. A pedra est a esmilhar e no presta para erguer parede. Seria preciso tir-la daqui para fora, e o terreno no paga a despesa.

Essa resposta j eu esperava - sorriu o Algodres.

124              AQUILINO RIBEIRO

- Ento para que me falas? Oha, compro-te a COmpanha...

- A companha j tem dono.
- Sim, o Eudxio.
- No, senhor, no  do Eudxio.
-  Vendeste-Ia a outro? - e os dentes dele acutilavam,  manifestando   surpresa e despeito.

- Vendi.
-  Pode-se saber a quem?
- A seu tempo se ver.
O Vermoil ficou um instante a cismar, de olhos no cho, e exclamou, j de costas voltadas no jeito de se ir:

- Quando andares de surro a pedir pelas portas,  minha no apareas.

Desandaram todos, pouco a puco, e por fim o Savelheiro, que acabara de agadanhar o rescaldo para o ptio, to negro que apenas lhe luziam os olhos. A ss com a tia, o Algodres disse-lhe:

- Levante-se da e ponha cobro  macarena que me est a fazer febre. Vossemec vai navegar imediatamente para a terra. Aqui tem dinheiro...

Metia-lhe  cara umas tantas notas, que ela ficou a

contemplar muito admirada, sem esboar o mais pequeno movimento.

- No quer?
- Desencantaste o tesoiro dos frades? - perguntou, encarando com ele e achando-lhe rosto alegre e desenfadado.

- No desencantei, mas estou a caminho.
- Ah! - e, baixando a cabea, a tia mergulhou, pareceu a Jos que mergulhava, num mar desfeito de pensamentos.

Estiveram calados um bom pedao, ouviram-se as

ondas e, a intervalos, a ventania escavar a areia das dunas.

A BATALHA SEM FIM                   125

Que tinhas que fazer hoje na praia, sobrinho? perguntou a velha, tornando a alar para os olhos dele olhos fitos e molestos. - A obra no te segurou...

- Vim saber se no necessitava de alguma coisa

gaguejou ele.

- Percebo - redarguiu baixinho, a cabea aos salamaleques. - Percebo. Foste tu que deitaste o fogo  casa. Hs-de pagar cara a ambio. Teu pai l est a

amaldioar-te do outro mundo, desgraado!

Vil

Quando baixou a noite e os trabalhadores no eram mais que vagas sombras sonoras, semeadas pela duna a

recolher as ferramentas, o Algodres abalou a galope na

gua do Eudxio.

- Olha que anda pejada, alma do Diabo' - gritou-lhe o dono que, por ser fim-de-semana, se dispunha a largar com a malta da Ervedeira.

Era costume dizer-se dele que emprestaria com mais agrado a mulher que a besta. No cessando de desfilar, respondeu em tom de fleuma o cavaleiro:

- Sossegue, antes da madrugada est  manjedoira. Pinhal e mais pinhal, dunas calvas e dunas ervadas, to regulares algumas como salinas, um morcego que atravessava, sarabadeando, no ao do cu, um galo que se erguia espavorido do sono e arriscava o saricot de ramo para ramo, um regadinho que cantava, saltando a

rigola escavada na coirama do mato, a noite que Parecia desenroscar-se da copa das rvores e engolir, avanando mansamente, os espaos descobertos, os troncos negaceando em frente e fugindo em batalha aos lados - e ora

 rdea solta, ora a trote largo, o caminho ia dobando. Imagens, porm, eram estas que se reflectiam nas suas pupilas e desapareciam sem deixar mais p que no lume dum espelho. Quem ele via e levava nas meninas dos olhos era Filomena; no a Filomena de optem, morena

de tez sobre a holanda branquinha do chambre, mais

A BATALHA SEM FIM                     127

precisa que dentro de medalha, que lhe jurava boca contra boca, peito contra peito, mos nos ombros: "tua ou de mais ningum"; mas uma Filomena vaga, indecisa de carcter, de lbios no sabia se risonhos se tristes, sapatos de cordovo, vestido cortado pelas modistas de Leiria, entre dama e camponesa, calcorreando o caminho da igreja a casar-se com o Sebastiana. "j andavam os preges o correr", viera anunciar-lhe a Carma padeira, entremetida nos seus negcios particulares. Podia l ser"' Nem que o Cristo com as cinco chagas abertas a

lagrimejar sangue lho dissesse, acreditava. Pois se uma

semana antes Filomena lhe fizera protestos de amor at  morte' No, aquela recoveira vinha de mando do Demnio roub-lo  sua devoo, tecer-lhe armadilha que o impedisse de pr a descoberto o tesoiro dos frades. Mas, fechando os olhos, Carma jurou: " Ceguinha fosse, se no era a pura da verdade' No s o prior lera j uma vez os proclamas, como o Penalva trazia trolhas a rebocar e caiar a casa, levado na farfia de luzir os esposrios. O Sebastiana fora a Lisboa encomendar o enxoval e trouxera, como alvssaras, para Filomena um afogador com

pedras verdadeiras, para o sogro um relgio de prata com mostrador luminoso, para a sogra um casibeque de astrac, e para os dois pombinhos espairecerem - vejam o lorda - uma side-car. Sim, senhor' Todo ancho, a

mostr-la aos pasccios de Monte Real, andara o Sebastiana em correrias, passeando uns e outros no cestinho. A Filomena, fosse por medo, ou l por que fosse,  que resistira a experimentar semelhante berlinda. Por fim, anuiu. E devia ter gostado que segunda vez a encontrara em cima da mquina, disparada no caminho de Leiria. Ao 'que constava, ainda antes do Carnaval iam ao conjugo

VOS. "

Ouvira o Algodres aquelas notcias, mais pungido do que se o cosessem  navalhada. Era ento certo? Ela

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consentia em troc-lo por um mequetrefe, s porque tinha mota, usava polainas, trazia anis nos dedos e sabia dar o n  gravata melhor do que ele?@ E o seu amor no contava? E a sua mocidade? E as riquezas de que ia ser

senhor? Bem verdade as mulheres gostarem de volantins que lhes falam  imaginao e no so como toda a gente. Do barbeiro, que tangia viola, derivaram em seu

fatacaz para o chauffeur ou motociclista. So estes os marialvas dos tempos modernos. Se a par com o mester que a elas lhes d goto pelo que tem de vadio, de aventureiro e, porventura, de miraculoso, os meliantes arrebitam o bigode e usam grevas, deixam-se enviscar como tordas, malucas de todo. Pelas grevas, sobretudo. Talvez porque assim os homens se paream um tanto

com os galos. Coitadas, as mais das vezes, as polainas escondem a falta de espores. Um Sebastiana reptador no existia; mas com espcires, grandes como os das guias, que lhe saltasse  dianteira! Mal pecado ter essa

sorte ... Tinha a impresso de que um grande dio, desde que conhecera o macanjo, estivera a crescer-lhe no

seio como leo em caverna. Ia agora pular fora, e sentia-o, de colmilhos aguados, possudo de fria sanguinria.

Restava-lhe apurar se Filomena ia, afinal, de vontade ou sob o acicate do Penalva para o Sebastiana. Na primeira hiptese, havia que mostrar-se superior ao achincalhe: " do teu gosto, 6 coisa? Pois bem hajas, que andava farto at os olhos. Restituis-me a palavra que te dei, restituo-te a palavra que me deste, e adeusinho. Daqui em diante j posso dormir as noites dum sono." A no lhe falar assim, sobranceiramente, pr-lhe as mos no gasnete e espremer, espremer at cuspir os bofes pela boca. Deix-la espernear, bater o chifarote com as pernas, mugir perdes, engasgada. "Aguenta a, que hs-de amargar o que fizeste. V, deita c para fora,

A BATALHA SEM F1M                      129

palmo e meio, a lngua que to bem te serviu a mentir; deita c fora a alma, essa alma celerada que tinha mais

vboras dentro que um matagal. No invoques o nome

de Deus, que no te vale; no chames por tua me, que teria a mesma sorte se aqui aparecesse. Morre, j que foste a minha perdio." Depois, quando os olhos lhe sAssem das rbitas, a tez se lhe fizesse mais roxa que os

lrios roxos, quando comeasse o corpo a arrefecer, ia

botar-se ao Lis e estava tudo acabado. Seria um drama como os que se lem nas gazetas. Da Figueira a S. Martinho, durante muitos dias, no se falaria doutra coisa. Dar-lhe-iam todos os nomes de maldio e o padre negar-lhe-ia sepultura em terra santa. Embora' Ia para o

inferno? No era certo que existisse. Se existisse, o justo juiz perdoava porque matara e se matara cheio de razes.

Quem teria tudo a lucrar com semelhante desfecho era o Eudxio. Quite quanto  companha, ficava senhor absoluto do tesoiro. Mal empregado' O scio no era

homem que recolhesse rraos e desvalidos, custeasse enxovais de donzelas pobres, casadoiras, e erigisse a Deus templo digno da incompreensvel grandeza. A cobia dele era encher tulhas e burras, aferrolhar, no tirando outra fruio do oiro que sab-lo seu, cunt-lo de cabea, e uma vez por outra, como homem abstmio a

quem acontece tomar bebedeira, dispor as moedas em pilhas, ouvir-lhe a msica do Diabo, besuntar os dedos

no monte como em lagaria de azeite. V, com a explorao da duna, os dinheiros do ricao tinham fundido como sebo ao sol de Agosto. Mas o seu fundo, no obstante aquele rasgo, era a somiticaria. Porque era

avaro, com a esperana de vaza taluda, jogara na carta

em que outros, menos formas, se tinham escusado a apontar. Por isso mesmo lamentava que parte das riquezas lhe cassem em sorte, em vez de ser ele a desfrut-las todas. O que no faria, sendo suas, em beneficio prprio

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e do semelhante?' j s a metade lhe daria para receber-se com fidalga, destas que vo de chapelinho  missa, lambuzam a cara com tintas de drogaria, frequentam as pratas e sabem trazer os filhos bonitos como anjos. Honra e saber vm com poder, no admirava que chegasse a grande trunfo na poltica, camarista, deputado, comendador de Cristo, com alas de gente na

estao, sempre que viesse da capital ao seu condado, lestas ao salamaleque. Para que assim sucedesse, bastava mandar bugiar Filomena, que, salvo as mos brancas e o asseio dos trapitos, no passava duma patega chapada. Em verdade, mais acertado era d-Ia ao desprezo e seguir caminho, que derrancar-se a alma por via duma ingrata. Deste modo, estendia a bofetada sem mo e findavam as consumies. Olar1 Com que ferro ela o no veria, anos depois, janota, respeitvel, arrotando postas de pescada, de carro na companhia da senhora e dos meninos, e a negra - podia ter dvidas que desse em negra a mulher dum mamposteiro - a arrenegar da vida, batida, enxovalhada, desfeiteada pelas concubinas do marido, um rebanho de filhos, ranhosbs e friorentos, de calonicos de racha presos por uma ala, a pedinchar pelas portas a codinha de po@ Tinha o pressentimento de que tais destinos estavam escritos no livro de Deus, e viv-los era uma questo de tempo. O Sebastiana possua bens ao luar, mas se dinheiro mal ganhado, mal te precatas, est gastado, acabaria baldo ao naipe. Naquela hora, trajado  maneira da cidade, chocalhando os seus vintns, punha mais vulto que ele, fiel aos costumes simples dos homens do mar. Dum dia para o outro, porm, as arcas de S. Bento vinham  tona para confuso dos olhos ruins, e j o safardana lhe no ganhava. Pena era

que no estivessem j a cu aberto, para se rir duma, achatar o outro, e, se o Penalva era o pai da conjura, podia ir ter com ele e quebrar-lhe os dentes com duas

A BATALHA SEM FIM                     131

manchelas de pedras preciosas, jogadas como pedras dos caminhos a um co. Pelo que Filomena lhe confessara e

deixara adivinhar, pela ndole ainda da rapariga, que era garrida, ciosa da sua juventude, para a qual o Sebastiana devia, quarento e gebo, no ser perfeita forma do p ou desagradar-lhe ao menos de princpio, andara ali a pata do velho. As polainas, a motocicleta, os presentes, as

sete falinhas doces teriam derribado depois a fortaleza, tremida pelos brutos safanes. Aliana duma figa' O mal-estreado tomava pombinha de papo, como quem vai com o seu dinheiro a uma casa de moas e escolhe. S

pelo papo, que os haveres do Penalva roavam a mediania, como a criao deles todos a tacanhez. Para Filomena equivalia, claro como gua, a vender o corpo, e to

feio negcio era abominvel. Se o pai, que sabia voluntarioso e assomadio, teimara, que a filha pusesse tambm ps  parede, seno que fugisse ou se suicidasse. Cedera a bem ou a mal, cedera em todo o caso sem indcio de luta, e esta suposio empeonhava-lhe o

sangue. Alma, porm, at o inferno' O melhor do melhor era varrer ao cisco que o vento leva o seu tolo sentimento. Ah, mas dentro dele vivia um homem, outro homem, que andara num sonho de anos e anos a construir-se uma felicidade e que no se resignava a perd-la. To cego, que reagia contra os ditames da razo' To louco, que desesperadamente saltava por cima

do orgulho e do brio. A mulher amada fugia-lhe, e todas as foras ele reunia para correr em ps; trocava-o por outro, e dispunha-se a estender os braos de tal maneira, to longe, que a pudesse arretar. Cobrira-lhe a cara de vergonha, era-lhe infiel, perjura, e no lhe queria menos. Esse segundo indivduo arrepelava-se, torcia-se, tanto meditando matar como matar-se, movido pelo palpite do irremedivel. A esse interessavam-no as riquezas dos frades s para que ela fosse mimosa, farta e

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invejada; no lhe sorriam fidalgas de chapu, pois apenas tinha olhos para o leno vermelho que borrifava de tons

camoesa o rosto moreninho; fascinavam-no as pompas e

honras do mundo pelo realce que dessem  feiticeira. E, no seu selo, o homem humilde e lastimoso e o homem desenganado e odiento pelejavam. Duma banda estava

Filomena, da outra o mundo todo. Um preferia-a a

quantos tesoiros houvessem  superfcie e nas entranhas da Terra; disput-la-ia com unhas e (lentes ao mais pintado; pura ou com manchas que a gua no lava, sria ou refalsada, solteira ou at mulher do chulo, que viesse' A questo era que viesse. Mas o outro, que no perdera o

sentido das coisas, regougava: ao raio, Pois que, ao

contrrio do Sebastiana, no usava polainas nem pingalim, no sabia dizer as chochices que as mulheres ficam a saborear de lbios doces, regalados; as suas mos eram cabeludas e grossas, feitas para manobrar os remos, e ensaburradas da salsugem marinha; o tesoiro permanecia engasgado na areia, e  prprio das criaturas cativarem-se do que se v, do que brilha, e no do que ser no amanh - a luta era desigual. Encomendar a todos os mafarricos Filomena, maila choldra, voltando-lhe as

costas, de fronte erguida, seria ainda vencer. De resto, o

apaixonado no passava dum tmido, um pobre de Cristo, incapaz de dar passo para alm das suas cleras e dos seus suspiros. j que no tinha outra coragem, tivesse, ao menos, a de fugir.

Assim malucando, galopa que galopa, nem se sentia levado; esperanas, desnimos o levavam, crendo um

momento que tudo acabara, para logo depois se julgar ludbrio de pesadelo. Revolvendo-se em pensamentos contrrios e ftuos, a prpria fadiga de brigar com

fantasmas lhe restituiu serenidade. Pois que Filomena, dias antes, lhe mostrara to decidida firmeza, no havia ensejo a esperar. Porventura o Penalva fosse o autor

. A BATALHA SEM FIM                      133

exclusivo da ventaga, contando  ltima hora, com as formalidades em regra, vencer a relutncia da filha. Sendo assim, que fazer? Antes de mais nada pr num feixe os ossos do Sebastiana, nmero fcil do reportrio, e ganhar tempo. Dentro de semanas, quem sabe se de dias, talvez a pudesse ir buscar a casa do pai em coche de oiro, puxado a horsas inglesas. Seno, se ela de facto o houvesse desdenhado, passe bem, menina' Dar-lhe mostras de mgoa, seria mesmo envilecer-se. Se culpada, se inocente, breve ia averiguar. Filomena no o

esperava, mas desse por onde desse, havia de v-Ia e

falar-lhe. A altas horas da noite, quem ousaria bater  sua janela, se no ele? A menos... a menos que o outro, havendo ocupado o seu lugar, herdasse simultaneamente
* desfrute daquelas liberalidades. Mas no; Filomena era

* recato em pessoa. Consigo, tinha chegado a urna tal privana de relaes aps a longa jornada de cinco anos. Nunca fiando, todavia. O juzo das mulheres  movedio como catavento, e honra, virtude, fidelidade tanto so nelas redutos de bronze como teias de aranha que um sopro desmancha. A suspeita detraente ficou muito tempo a morder, a lacerar-lhe o seio que nem cem lacraus juntos, assanhados. O crebro como que lhe

amorteceu em sua laborao tormentosa e, no colapso, ouviu o silncio da noite, as patas da gua na geada, e divisou envolvidas em sombras as rvores espectrais. Mas, sentindo-se levado, o sentimento da sua pessoa fez-lhe saltar as barreiras e entrou em si. Breve ia libertar-se dos suplcios da dvida. O principal, por agora, era esclarecer-se. Com pena de levar um tiro, havia de desenredar a meada. O resto era com Deus, cujos desgnios so impenetrveis. Se os seus maus pensamentos e angstias fossem produto de cataratas que trouxesse na alma, magnfico; se a sua vida fosse a reconstruir desde o rs-do~cho corno casa incendiada, pacincia; se, aquela

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noite, empandeirasse com Q canastro, morra um homem e fique fama'

Imprevistamente, achou-se s portas de Monte Real. Estava a noite escura, mas no oiteiro avultava mais denso que o prprio negrume o cogulo do casario. Acomodou a besta na tenda do ferrador, fechada ao cravelho, como  de regra em terras pequenas e descuidosas. E circunspecto, se bem que afoito, subiu a rua. Seria passante as

onze, e os moradores dormiam a sono solto, candeias e

fogos apagados. Um tinir de chocalho, o breve rosnar de rafeiro, uma voz estreloiando longe, talvez para o

forno, caindo morta como pedra em cisterna, e nada mais borbotava no escoamento surdo da noite. Diante da casa do Penalva, adormecida no mar de trevas, respirou;

o ar pareceu-lhe mais fresco que ao atravessar campo e rio, e o sangue nas velas desopresso. O sossego ambiente foi-lhe prova da esttica profunda que h em tudo e garantia dos sentimentos de Filomena. No batera, no chamara, ningum ainda respondera  sua apreensiva turbao, e j sabia que o Sebastiana no estava dentro,

em seu lugar. Bastara-lhe pulsar a paz impondervel da moradia, incompatvel com sucesso de tanto alevante. Bendito fosse o Pai do Cu, que lhe poupava a primeira vergonha' Tampouco havia sinal de novidade importante naquela casa. Estas coisas exalam odor especial e ali era-se penetrado por um relento de optimista calma. Satisfeito em seu desafogo, suspendeu-se  escuta. Ouviu outra vez um chocalho... depois novo chocalho, mais flbil que gemido, e por fim o bater do prprio corao. Ao cabo de bom momento, no enxergando alma que viva nem percebendo rumor do qual houvesse de se precatar, foi direito  cancela. Estava trancada por dentro, e assentou que no tinha outro recurso seno saltar o muro. Escolhido o ponto que se lhe afigurou

mais escuso e favorvel, marinhou pela solta alvenaria,

A BATALHA SEM FIM                     135

cavalgou a crista, e deixou-se escorregar. Pisava os domnios do Penalva,  merc da sua reiuna. Adiante; bem dormido quela hora, podiam passar carros e carretas

que no estremunhava!

Avanando para o patim, a brancura dos muros rebocados de fresco, adivinhada pelo cheiro, descortinada depois pela fosforescncia da cal, abalou-o mais do que se visse com os seus olhos, na porta da igreja, os banhos de Filomena com o Sebastiana. No havia que consultar, o alma de co do Penalva trabalhava nos preparos da boda. Valia mais, tendo-se por esclarecido, bater em retirada. Mas acudiu-lhe ao entendimento que era temerrio fiar de facto to banal a prova de matria to grave. E, se bem que oprimido de maus pressgios, trepou a escada, sorrateiro e audaz.

No patamar, os ps sobre a extrema aresta da laje, a

mo direita agatanhada  esquina, esticando-se todo, alongou o brao. Com as pontas dos dedos,  semelhana do que das outras vezes fazia com a vara, batucou nos

vidros da janela. E esperou. Decorreu um minuto, mais outro minuto, e entrou a compenetrar-se dos riscos que corria. Alm de que Filomena podia assustar-se e gritar, no era ponto de f que dormisse ainda naquele quarto. Quando Deus quer, em vez dela saltava-lhe pela frente a

caadeira do pai, desfechando-lhe no peito, sem tir-te nem guar-te, a carga de zagalotes. Posto que resoluto, sentiu trepar pela espinha, como larva de neve, o arrepio do medo. Do medo e do espanto que anda espalhado pela mudez e negror da noite. Mas dominando-se, com reflectir que a rapariga, ao toscar o tamborilado na

vidraa, reconheceria que era ele, e que o velho tinha o

sono perro, pois nunca por nunca lhes fora interromper os colquios, animou-se a rufar com mais fora. E amassado contra o muro, pvido do prprio atrevimento, aguardou. Arrastaram-se desesperadoramente

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lentos os segundos, os minutos, sem que se anunciasse bulcio do quer que fosse. Ia-se embora ou teimava? Nova indeciso, novo exame de conscincia, durante o qual encomendou a alma ao Senhor dos Aflitos, com

promessa duma missa cantada se daquele passo sasse airosamente. Infludo desta febre fria que galvaniza os

movimentos do homem, imprimindo-lhes ritmo e segurana SUprema, repetiu O gesto, com        mais vigor ainda. Nada **rneXCLi e nem o prprio sangue **OUVILI Pulsar. Com imperativo, levado na exaltao     da temeridade, tornou a bater. Volvidos instantes, pareceu-lhe sentir passos; um chapejar de passos, mais brando que dC feltro; deu conta, depois, que as portas da janela se descerravam de mansinho e que uma face se apoiava contra os vidros. Era o ensejo de reiterar a senha que havia entre eles e f-lo, compassando bem as pancadas. Lenta, docemente, a vidraa abriu-se e uma cabea assomou:

- s tu? Vai-te embora que meu pai mata-te...
- Deixa matar!
- Ai que te mata! j anda a p... Deu conta'
- Em acabando, tal dia fez um ano - respondeu com voz sardnica.

- Jos, que te desgraas e me desgraas' - gemeu ela. - Olha, vai-te e vem amanh...

- N.@    quero-te duas palavras, e h-de ser hoje.
- Meu pai mata-te q-.@, to juro eu' Foram-lhe dizer que nos falvamos de noite e a altas horas vem passar revista ao ptio... E ento hoje com o barulho que fizeste' AI que l vem... OUVE-**I0@

De facto distingUia-se estrondo de portas a dentro. O Algodres hesitou se devia abalar se permanecer ali a ps juntos; ia finalmente para fugir, mas os tendes recusaram obedecer-lhe, inteiriados. E, de par com a sensao de paralisia, veio-lhe um grande desnimo e desprezo

A BATALHA SEM FINI                      137

pela vida. Foi balbuciando que respondeu a voz angustiada:

-   Pois que me mate,  menos um infeliz no mundo.
O rudo acentuava-se; dava ideia de movimentos coOrdenados... estrpito de passos.

- Deixa ver a rua mo... - proferiu Filomena de garganta opressa. - Agarra-te bem' Cuidado, no roces as pedras to de rijo... Mas agarra-te, agarra-te bem, que eu isso. V, com jeito... Dobra-te' Isso... Salta agora...

Num acenar de olhos, o Algodres estava da parte de dentro do parapeito. Nem mediu o prodigioso do lance. No obstante a rapariga o socorrer com nervoso e robusto brao, s msculos de ferro seriam capazes daquela contoro lateral. Cai--. e ligeira, fechou ela a vidraa, as

portas, e, um rente ao outro, recalcando o flego, ficaram medusados  escuta. Rangeram gonzos, toaram tamancos degraus a baixo... martelaram na geada do quintal... estarreceram a distncia.

- No te disse... Que desgraa a nossa'
- Vir ele aqui?        balbuciou o Algodres.
- No costuma, mas quem sabe l'?... Olha, a porta est fechada por dentro; tens muito tempo de saltar pela )anela e fugir. Se me der tantas que nunca mais me

levante, deix-lo!

- No, Filomena, no. Daqui no arredo; em ti no se toca, eu  que sou responsvel.

Filomena pegou-lhe na ti-io, mas ele no soube avaliar se -aquela carcia era de quem prende ou busca instintivamente amparo. O Penalva percorreu o quintalejo e, depois de dar volta ao alpendre e de suspender~se minutos interminveis por debaixo da )anela da filha, em esculca, subiu a escada, satisfeito porventura com a devassa. Os seus passos soaram lentos e arrastados, sinal de que a suspeita se desvanecera. No patamar estacou

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novamente, como em planto. Estrugiu um baque metlico, que devia ser a coronha da espingarda descansando  na pedra.

- Se me vier bater  porta, por alma da tua me, larga' - murmurou ela.

- No.
-   Deus se amercele de ns'
O corpo dela descaiu sobre o dele, dando-lhe a impresso de que se fazia pequenina, pequenina, para lhe caber no peito. Estava em camisa, coberta apenas com o xailinho, e o Algodres sen tia as formas delas fundirem-se nas suas, e no sangue infiltrar-se-lhe, desatado pelo sono, o aroma dos poros e dos cabelos desgrenhados. Tremia como paveia ao vento, e Jos passou-lhe, em

volta da cinta, brao amoroso e tutelar.

- Aperta-me muito... assim! - ciciou ela, a boca to perto da sua boca, que os hlitos se confundiam. Se te matar, hei-de morrer contigo.

Mas o Penalva despedia, e, com o desafogo de quem se evade a pesadume de morte, futuraram que tornava para a cama. E logo ela disse:

- Vai-te j' Meu pai  desconfiado e pode voltar.
- Vou j, Filomena, vou j, mas primeiro quero que me respondas: que sou eu para ti?

Como a rapariga no proferisse palavra, volveu ele:
- Trouxeram-me uma novidade que, a ser certa, mais valia que teu pai me varasse com um tiro...

Manteve-se ela no seu silncio e o Algodres, empurrando-a brandamente para fora dos braos, rouquejou:

No falas;  ento verdade...? Dize,  verdade?

Sentia-a distante de si no mais que a mo travessa, mas, porque nada do corpo dela lhe tocava, era como se estivesse no cabo do mundo.

- Custa-te a falar? Percebo, at no escuro tens ver-

A BATALHA SEM FIM                     139

gonha. Nunca julguei, ah no, nunca julguei que assim faltasses aos juramentos@ Sabers tu o bem qu perdes?@ Sabers a runa que causas? No sabes, mas eu te conto.. . - e por um bom espao, gemendo e suspirando, desfiou o longo rosrio dos planos ambiciosos, trabalhos, mgoas, torturas do seu enlevado amor. A sua voz tremia, com lstima de si prprio a via tremer e chorar como o rouxinol nos balsedos quando lhe desaparece a companheira.

Suspendendo-se um instante, estrangulado pela comoo, no a sentiu bulir, nem bafejar, to imaterial que julg-la-ia trasgo esvanecvel se no fora a certeza que tinha de sua crist e humana corporeidade. Mas, refluindo  corrente das suas amarguras, increpou-a:

- Para que me trazias ao engano? No tens pena? Eras o meu sol, e a vida para mim agora vai ser uma negra noite. Tudo o que fazia, de olhos em ti o fazia. Riquezas s para ti as cobiava. Deste-me bem o pago' Mas,  Filomena, eu no posso crer que me troques por um matula daqueles. No  verdade, dize, no  verdade... 1?

Cuidou que houvesse fugido e estendeu a mo a procur-la. E encontrando a mo dela, que se lhe abandonou, disse em voz soluada de esperana:

- No  verdade, pois no, Filomena da minha alma? Estava doido; deita as culpas  Carma que me foi matar o bicho do ouvido.

A sbitas, sentiu calor na mo, calor hmido, e compreendeu que eram lgrimas. Chorava, a sua Filomena chorava' E, mal a estreitou contra o peito, louco de ternura, arrebatadamente, rompeu ela em pranto convulso, descomposto pranto, to abanada que ele, beijando-a e afagando-a, se ps a pedir-lhe perdo e a criminar-se das execrveis suspeitas. Quando serenou e

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afrouxou a catadupa de lgrimas, lanando-lhe os braos ao pescoo, disse Filomena em voz ainda dolente:

- Dize, Jos, queres-me muito?
- Como  luz dos meus olhos.
- Apenas?
- Mais que ao mundo todo.
- Ento, pega em mim esta noite e leva-me. Leva-me hoje que me diz o corao que me perdes para sempre.

- Mas que h...? Sempre  certo?
- Se gostasses de mim, como dizes, no me perguntavas nada. s homem? Leva-me e deixa l que ters tempo de saber.

O Algodres quedou mudo, abismado, como se um pego se abrisse a seus ps. Que poderia fazer sem dinheiro, com a duna em aberto, o Penalva  perna como fera?@ Mas ela tolheu-o de prosseguir nas suas cogitaes com dizer:

-  No respondes, ora ouve: no h dvida que meu pai quer  fina fora que eu case com o tal indivduo. Quando h dias me saiu com a proposta, declarei-lhe que j tinha escolhido aquele que havia de ser o meu homem, e desatou a rir. A rir como um perdido, a rir

que at me vieram lgrimas aos olhos, ofendida com o

seu desdm. "Queres casar com o doido que anda a

desenterrar o tesoiro da areia, ah, ah, casa, casa, e hs-de rilhar pedras. Casa e vai-te preparando para entrares com ele numa casa de orares. Ainda trazes no pensamento o

tolinho? Pobre rapariga, julguei-te outra loua" E palavras assim deste jaez. No segundo dia, velo dizer-me que, se no aceitava a receber-me com o Sebastiana, ia vender tudo e abalava com minha me para a frica depois de me botar a maldio. A minha resposta foram lgrimas. Saltou-me a me, por outra banda, a pedir pelas Cinco Chagas que no rejeitasse aquele homem que

A BATALHA SEM FIM                      141

estava rico e farto e vinha tirar a famlia da cepa torta.

Porque torna, porque deixa, que meu pai deve o coiro e a camisa, iam-nos        o arresto  casa, fartou-se de me

tisicar. Depois no rarearam as vizinhas, umas a escarnecer do meu gosto, outras, atia que atia, a gabar o

fulano. Eu no disse que sim, -mas meu pai, por alta recreao, foi mandando ler os banhos na igreja. A est, nunca a mulherzinha foi mais verdadeira. Agora digo eu: leva-me daqui para fora e leva-me hoje...

- Para onde te hei-de levar... no tenho por enquanto eira nem beira' - exclamou ele em tom de enfado, ofendido com o cru relato.

- Para o meio dum monte onde ningum d connosco.

Ele reflectiu e disse:
-  D-me quinze dias, e faz-se tudo...
- Quinze dias para qu?
-  O tempo de concertar as minhas coisas.
-  Percebo, o tempo de arrancares o tesouro...
-  E porque no? No acreditas...? Nunca me disseste que no acreditavas, mas queria-me parecer. Sempre me mostraste pouco entusiasmo pelas riquezas de que reza o livro. Mas elas l esto, que to afiano eu. To certas como existir um Deus que nos ouve. Olha l se o Eudxio, que  o maior financeiro que Deus ao mundo deitou, ia empenhar os capitais  tola?' Queres saber quanto eu e ele, ele sobretudo, j enterrmos na duna? Para cima de cento e cinquenta contos. Ora se o negcio no fosse seguro, no era aquele que arriscava um ceitil. Deixa l teu pai cantar, e ver-se- quem bate certo'

- So mais os que no acreditam que os que acreditam. Mas supondo que seja certo, os homens que trabalham na duna no vos deixam para que erguer olhos. So uns esfomeados e ho-de roubar tudo. Ouve, Jos, velo-me uma ideia; tira-me daqui e embarcamos para o

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Brasil; est l meu irmo estabelecido e pede-se-lhe agasalho. Era muito meu amigo, faz-nos tudo. Queres?

- Quero, mas hs-de me dar quinze dias, s quinze dias... Valeu?

-  Receio que venhas tarde. Amanh, domingo, lem-se segunda vez os preges. Meu pai, minha me, as comadres no me largam. O homem deita a casa a baixo

com presentes...

- Em quinze dias toco no tesoiro ou digo-lhe adeus. Arranjo dinheiro e abalamos.

Filomena, lanando-lhe novamente os braos em roda do pescoo e apertando-se contra ele, suplicou, e nunca a sua voz lhe pareceu mendigar com mais doura:

- Jos, meu Jos, leva-me, que te perco e me perdes' O meu corao adivinha...

- Impossvel, ainda que quisesse. No trago comigo um vintm furado...

- Ento vai e vem depressa... vem em dois ou trs dias. Faze-me isso' Pe as tais riquezas de banda, tambm as podes ganhar doutra maneira. Queiras tu@

Chorava outra vez e o seu choro era miudinho como de fonte que est cansada de correr:

- Queres-me muito, faze-me essa vontade...  por mim, por mim@

- Pois faa-se a tua vontade' Havia-se agarrado a ele como hera; ante o corpo quase nu, quente e rendido, sentiu uma tentao; em seu tumulto, acudiu-lhe, ainda, mais claro que a estrela de alba, o pensamento de que podia fazer uma boa e certa puxada sobre o destino. Mas no, no' Desprendendo-se da boca que se lhe entregava com afoiteza, caminhou para a janela. Abriu as portas, e cautelosamente comeou a descerrar a vidraa. De cima j do peitoril, atraiu para si a figurinha inefvel. Beijou-a na testa, nos lbios, nas duas faces, em sinal-da-cruz de amor, e disse:

A BATALHA SEM FIM                 143

- At sbado  meia-noite estarei aqui para te levar. Se no estiver... reza-me por alma!

E, manso como sombra, mergulhou na noite.

VIII

Apresentou-se na duna, ao romper da manh de       segunda-feira, nova e numerosa caterva de homens.  trapilhos, macilentos, alguns com ar de desenterrados, Pareciam,  beira dos prias que j ali trabalhavam, um rebotalho da humanidade. Quando os viu, o Eudxio carregou o sobrolho:

- Valha-te Barzabu maila pendangada que rogaste' EStOU em dizer que se despejaram para aqui as cadelas de Portugal.

O Algodres, que passara o domingo com o Marrazes a arrebanhar por aldeias e praias todo o bicho capaz de erguer p ou empurrar carrinho de mo, mendigo, vadio, jornaleiro sem amo, pescador de espinel, afrontando a m vontade do scio, retorquiu:

-- Considerei que no estado de adiantamento em que vo os trabalhos qUantos mais braos melhor. Pode ferrar-se de temporal e arrasa-se outra vez a cova.

- Pois sim, mas havias de trazer cunhos para bater moeda. Com que lhes pagas?

- No se rale, homem; est por pouco.
- Cantigas,  Rosa' Tambm de princpio dizias: 

uma semana at duas, e j passou um ror delas. Adivinho fosse eu que no me metia em cavalarias destas'

- E no se h-de arrepender.
- A ver vai-nos. j aqui esto enterrados  roda de duzentos contos. Se a melgueira os valer...

A BATALHA SEM FIM                    145

Ora, ora' Dum lado o concelho, lavradio e mata, do outro o miolo das arcas, e d-me a escolher respondeu o Algodres, rosto alumiado de confiana.

O Eudxio dobrou a cabea em atitude de meditao e proferiu:

- Com a ratazanada que agora chegou, s em diria vai-se  gaita um conto de ris. Por este caminho, fico sem uma corda para me enforcar...

- Recambia-se o pessoal' - exclamou o Algodres com arrebatamento.

- Recambia-se, recambia-se... ' No so galuchos que se lhes diga: meia volta, rodar. Parece mal. Despedirem-se  noite se, como imagino, se estorvam uns aos

outros ou que no amarguem a jorna, isso sim. A calacear ou vender gua ningum me come o po' Est feito; destinem-lhes l o trabalho...

Repartiu-se o monte de lapuzes ao aceno dos capatazes; foram vigiando o manejo os dois patres.

- Se chegarmos a prantar o dedo nos bas, no escapa um pinto falso para amostra - murmurou o

Eudxio, apreensivo e cabisbaixo. - H-de ser pior que cem ces a um osso!

- Estou de pedra no sapato, no se aflija! - disse o Marrazes. - As arcas a virem a lume e tanto eu como os meus cara-Linhaas de pistola em punho: largueza ou vai balzio'

- Olho neles' Gente que nunca avezou cheta  perigosa a tirar bagulho.

- O negcio fica por minha conta. As arcas no se abrem aqui; s se os senhores forem asnos' As arcas abrem-se em sua casa e  porta cerrada.

- No  mal pensado. Toca a cuspir s unhas' Com aquela leva subia a duas centenas a gente que andava na duna, sem contar as mulheres, que nos seus

trajes pretos de corvachas iam e vinham  espreita que

146               AQUILINO RIBEIRO

tilintassem os dobres de Santa Cruz, os meninos, em coiro ou encafuados nas japonas dos pais, e os curiosos, por cobia ou por desfrute, bastos como moscas em

aougue. Alavam a areia vinte sarilhos armados  boca da escavao, que media cento e trinta metros por quarenta de largura e nove de fundo. Mal vazios, logo cheios, mal arriados, logo a descarregar para carrinhos de mo e carros

de bois, giravam os baldes em ordem e despacho. Era esta

a faina essencial. Mas, aqui e alm, chusmas de homens ajeitavam o entulho nas medas e nos enchedoiros, estendiam-no a rodo por onde no causasse empeo. E o

estridor das ps, o rangido das pols, a chiada dos eixos, a

musicata das campainhas, de envolta com vozes speras: a vai! larga! arrasta! o compasso e a brusquido, ao

mesmo tempo, da manobra davam este tom impressionante das robustas e ciclpicas empreitadas.

Ia em mais de semana a boa quadra. De dia, sol radioso, com nuvens brancas e lentas,  vela no cu azul e alto; de noite, todos os astros acesos e uma geada que se cravava na terra, funda e aguda como punhais. O mar um espelho e, sfregas de claridade, gaivotas e negrolas faziam  cima de gua estrdulo e altvolo chinfrim. Cortava, porm, como fio de ao, requerendo aco e membros geis, o ar da manh e da tarde. Tempo a sabor, nunca como naquele dia a duna, coalhada de homens, negros e pequeninos no espao desmedido do areal, pareceu borbulhante e laborioso formigueiro. Lidou-se  grande; se cada um andasse a cavar a sua exclusiva felicidade no empregaria mais alma. Comunicara-se a todos o mesmo fludo de fora mstica e os sarrafaais da ltima hora competiam com os veteranos em brio e resistncia. s ave-marias, o Eudxio chamou-os  taberna; e, satisfeito com o trabalho produzido, em vez de despedi-los, mandou deitar uma roda de bagaceira.

A BATALHA SEM FIM                     147

Dispersou-se o pessoal pelas aldeias e pelos abarracamentos, e os recm-vindos que no tinham boleto nem telha nas cercanias, ligados pelo vnculo de sua desnudez, aninharam-se no mantel ao toro dos pinheiros, com

lume de ramos aos ps. Acabavam de rilhar a cdea dos bornais quando comeou a lavrar rebulio entre os pescadores. O arraial deles dava j o seu ar de povilu, as tendas capeadas por latas velhas do petrleo, zincos

colhidos nos logradoiros pblicos, tbuas que davam  costa, no faltando um poceiro com guas de chuva para lavar, e um estanqueiro com cigarros, vinho e

aguardente, para lhes varrer a fria. Pelo dia fora, as

mulheres ocupavam-se com o amanho domstico e o, mexerico. Espiolhando-se ou remendando a sua choldra ao soalheiro, no raro batiam lngua e se despicavam, como nas velhas aldeias gregrias, de curtas e de compridas. Ouvindo-lhes ralhos e ditrios, vendo-as moinar

de cabana em cabana por um dente de alho, uma lgrima de azeite, dois biqueires, ou de roda-viva para a venda a pedir o quartilho fiado, dava-se conta que estavam apegadas com seus hbitos ancestrais aos contrafortes da duna.  hora de comer, rescendia no aduar ao badulaque e  sardinha de salga, assada a chamios. Com o dobrar dos dias, os seus homens haviam regressado tambm ao

vcio da bebedeira e manhas correlativas. Espancavam-nas sem d nem piedade e o banz, acrescido do coro esbarregado dos meninos, repercutia a certas horas contra os mameles de areia numa chiada infernal. Nos dias de paga, a baluca do Quindim, de ripa e folha ondulada, regurgitava at tarde. jogatinava-se o loto, o liques, e o

Rodrigo Pamplino batia em novas partes gagas o coturno de histrio. Noite velha, ainda os borguistas zanguarelhavam pela mata, com as tonturas da bruega.

Intanguidos ao toro dos pinheiros, os malteses mal davam ouvidos aos rumores do arraial, inexpertos de sua

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significao. Se davam, era sem outros sentimentos alm do azedume e inveja de peregrinos s portas de magnfica Babilnia. Cabeceando uns, atiando outros o fogo, que estava a cair um codo de gelar o sangue nas veias, cismavam, porventura, em lares que no possuam, nas

riquezas que iam apontar  luz do Sol e sabe Deus se delas veriam migalha, em coisas e loisas do vasto mundo ou do domnio pessoal, no menos mundo. Subitamente, nas barracas, o alarido cresceu e cachoou. Que seria, no seria, os que ainda velavam apuraram o ouvido e os sonolentos estrenoitaram.

- Que vm os noitibs do inferno c cheirar? exclamava uma voz de mulher que pelo trmulo, a alta e baixa, parecia cacarejo de galinha choca. - Queriam, tambm, ter rasca na assadura' Peldasnos, tudo o que venha  tona  para os patres e para os negros que h mais de dois meses andam a deitar os bofes de p em punho.

- Ter os coma, se aparecem agora que a duna est quase virada,  que trazem ms intenes' Ho-de roer

um chavelho! - rugia segunda voz de mulher, mais

furibunda ainda.

- Uma de duas: ou so larpios ou vigias - pronunciou uma ronca de homem. - Ns somos honrados, quitamos polcia.

- Aquilo os amos prometeram-lhes quinho.--tornou outro homem. _  Arrisca-se por a algum a quedar com as tripas ao sol' - bandarreou o vozeiro de borrifador.

-  o que merecem - disse a garganta esganiada. No tinham emprego? Pedissem esmola, fossem para o Alentejo, aperrassem o bacamarte nas encruzilhadas...

- Tanta lria, tanta lria, e ningum d um passo para correr os entremetidos. Homens, se quereis, vamos a eles, e ou se prantam-na pireza ou tocamos-lhes pari-

A BATALHA SEM FIM                     149

deiro nas costas - disse um homem com mordente inflexo.

- Assim  que  filar, tio Passafome - apoiou a goela feriria. - Mas vocs todos nasceram com fgados de cordeiro. Havia de eu pr calas'

- Toca a armar e vamos a eles!
- Aqui est quem vai  frente - blasonou um falsete de borracho.

Mas olhal que j tem um dia ganho... - advertiu outro mais cordato. .- Deixa ter. Quantas vezes no vai a gente ao mar e

no pesca uma petinga-' - retorquiu a voz colrica.

- A eles!
- A eles! Mas todos... temos de ser todos...
- Todos! Esparramou-se por instantes a balbrdia, e os homens, engoiados ao relento, havendo compreendido que eram eles o alvo das ameaas, deliberaram entre si. E, prevalecendo o parecer daqueles em quem o escarmento da vida aconselhava prudncia, pegaram de mantas e

bornais e acolheram-se s sombras fundas do pinhal. Quando surgiu fera e rugidora a malta inimiga, encontrou apenas a fogueira que ardia, charriscando com labaredas tranquilas o cho e a carcdia dos pinheiros. Foi para as mulheres uma surpresa mofina, motivo de alegrorio para os homens. Em coro bradaram:

Surriada' Fugiram os medrolas' Foi o que lhes valeu, seno havamos de lhes arrancar os olhos e verter-lhes gua nas poas!

- Se tornam, enforcam-se para a nos galhos dos pinheiros'

Nas trevas da mata, os lapuzes ripoStaram:
- Se sois gente, saltai para aqui...' Ouvindo o desafio, as mulheres procuraram aular os

homens. Mas, esperados de emboscada, o lance oferecia

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certos riscos e, sem embargo de injunes, no adiantaram p. De dentro do pinhal, os maganos jogavam-lhes torpes bacoradas:

- Vinde vs, cabras' No vm eles, vinde vs... Vinde e tereis gostinhos de lhes lamber o beio... gostinhos como h muito no provais!

Ali estiveram muito tempo batendo lngua, jogando-se a lama dos bordis. Quando se calou o entremez, luzia o setestrelo no cu alto.

Na manh seguinte o Eudxio, sabedor do motim, admoestou deste modo a gente sediciosa, antes de pegar ao trabalho:

- C) ces, se voltais a armar arruaa no pinhal, rodais daqui para fora a cantar a moliana! Ouvistes bem? Pessoal no me falta.

A ob)urgatria dirigia-se tanto aos martimos como

aos manatas chegados de vspera, e no houve cabea que se no curvasse. O receio de serem despedidos, voltando ao desemprego, e a esperana de virem a enriquecer com as vertalhas do tesoiro, sentimentos estes superficiais nuns, arreigados noutros, apagaram como gua fria os ardores da ciznia. Para mais, apresentou-se na duna novo bando de operrios, resto da rebanhada de domingo. Entre eles vinham dois faias, navalha de ponta e mola na dobra da faixa, e um varredor famoso de feiras. Ainda que em nmero superior, os martimos, timoratos por gnio,  temiam-se de brequefestas em que entravam pimpes das serras. Tudo induzia  moderao e fizeram pazes.

Por aqueles dias soalheiros, de lusco-fusco a luscofusco, a duna sofreu raivoso e inclemente ataque. A todos tomara a febre de lhe ver o lastro, arredando a areia

que as ventanias de dois sculos haviam acumulado sobre as preciosidades de S. Bento. Como eram Muitas, fora de

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conta e medida, e de valor sem estimao, cada um

esperava ter a sua fatia de folar. Sonha o terreanho como o oiro, lavrado das moiras; nasce e morre sonhando o homem, a quem embalou no bero o cntico das ondas, com palcios submersos, naus a varar em terras repletas de riquezas, fortunas colossais de piratas escondidas na

areia das praias. Evadem-se assim  msera condio. Se alguma vez se lhes entremostra passadio para o mundo fantstico, uma vontade de ferro secunda suas almas iluminadas. Os belurios da duna, pedintes na vspera, cavadores, martimos, baldeados entre os remos e a vida srdida, lazarenta, dos Invernos, lutavam sob este signo.

Ao cabo de trs dias de esforo desesperado, repararam que o madeirame alura, cedendo  presso que se

exercia sobre os flancos da albufeira. A areia comeava a

gotejar pelas fendas como a gua das chuvas nos sagues. Por baixo do couce das tbuas, era um reminiscer contnuo de mar turbulento, que nada estanca, se vale da mais pequena folga, de golpe mais alto, de jeito menos ordenado, para se escapulir e alastrar.

Daquela guerra aberta, frtil em contratempos e ciladas, os homens tiravam um significado: havia algum gnio mau de guarda ao tesoiro. Feitio, maleficio, embruxamento, o quer que fosse, comandava a areia, insuflando-lhe astcia e mobilidade inelutveis. Bem se benziam e faziam as suas rezas antes de tocar as ferramentas' Acocoradas ao fogo na barraca mais vasta, bem desfiavam as mulheres o rosrio, conjurando os santos bons advogados a serem-lhes propcios na empresa, com promessa de oferendas taludas, maquiadas do oiro que havia de amanhecer no subsolo. Persistiu a m sina.

Lembrou-se o Eudxio de solicitar a bno da Igreja por intermdio do prior. O padre Horcio Biu, pessoa de nimo largo e generoso, respondeu-lhe com uma dilatada e edificativa sermonenda quanto ao quimrico e

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at pecaminoso daquele cometimento. Foi dar vozes no deserto. O Eudxio saiu a resmungar contra a corja de saias e mandou o Marrazes na gua criadeira chamar de Monte Redondo carpinteiros  altura. Veio um piquete deles e, de noite, ao claro de archotes e lampies, consertaram as avarias.

-  preciso revestir o lagar de nova andada de tbuas disse o mestre. - Assim, milagre ser que aguente grande freima...

Com a alba de quinta, no obstante o tempo ter @irado de Inverno, volveram redobrando de frenesim, a

investir com a duna. A semana ia em metade e o Algodres tomara um compromisso de honra que tinha a

peito cumprir. Tambm empenhara a palavra com o

scio e repugnava-lhe sofrer desmentido. Por isso o viam manejando a p e comandando aos homens, esbaforido, olhos exorbitados na nsia interior, em frias que metiam medo.

Sexta, pouco antes do sol a pino, voltou a areia a conspirar, como elemento de perfdia que era, insinuando-se pelos orifcios, 
lagrimejando pela juntura das tbuas, esboroando-se de alto, suspirando a todo o circuito do revestimento, caindo do cu trazida nas asas do noroeste. Derrancado, o Algodres apanhava punhados dela, mordia-a, cuspente, amaldioando-a. Agarrando os martelos, prega que prega, mais a areia
escorria e se juntava em pequenos cones como farinha ao
destilar da moega. Enquanto os homens almoavam, Eudxio, Algodres e os fiis andaram reforando e calafetando o madeiramento, e ao cabo de duas horas figurou-se-lhes que a canseira no fora v.

Prosseguiu o trabalho com raiva e velocidade. Sobre a tarde de sbado, declinava para o oceano um sol inverruo, doente, comparvel a ovo podre, esborraado, certo homem espetou a alavanca e bateu em cheio.

A BATALHA SEM FIM                      153

Acudiram todos; os golpes repercutiram sonoros, metlicos, alvissareiros do grande advento. Vinte ps e outras tantas enxadas, sob o olhar desvairado dos empreiteiros, atropelaram-se na zona maravilhosa. Desaterraram, limparam, e j o crepsculo estendia a fmbria melanclica pela terra quando reboou um estertor formidvel como se no pinhal as rvores todas desabassem de assentada. Fora o revestimento de madeira que estoirara, descalado  roda pela imprudente pesquisa. A areia jorrava aos

quatro pontos e a sua golfada era violenta como de aude que rompeu os diques. Os homens lanaram-se  uma

para a sada, cegos de poeira e alucinados de pavor. Todos queriam ser os primeiros a salvar-se, mas como a escada, improvisada com dois troncos de pinho e pedaos de ramos verdes em guisa de banzos, fosse estreita e escorregadia, na vesania da pressa, enganchados uns nos

outros, no conseguiam firmar p. E o perigo tornava-se instante, menos pela inundao da areia que se despenhava dos bordos, que pela ameaa dos taipais que, cada

vez mais desarticulados, sepultariam ao desabar a gente toda.

Terando duma p, o Algodres entrou a desancar os aflitos. A acometida foi to imprevista e desapiedada que logo se arredaram e lhe franquearam caminho. Supunham que quisesse ser o primeiro a evadir-se e ele, plantando-se ao fundo da escada como rachador em postura de descarregar o golpe, gritou para o Jos Passafome que tinha sete filhos:

- Passafome, suba... !
O desgraado marinhou como um gato. Ao Pamplino, cuja prole no era menos numerosa, ordenou em seguida: ,_ Pamplino, suba!

Num pice agatanhou o jogral pelos madeiros acima, servindo-se de ps e mos.

154             AQUILINO RIBEIRO

- Penela!
- Ambrsio janeiro@
-   Lzaro Brs,  a sua vez...
- Tristo Baul
- Tio Mira, vossemec!
- Tenho tempo. Outro por mim! - e, dizendo isto, oarrais afastou-se para o lado.

- O Manuel Drago!...
- Pronto! Cabea por cabea, consoante a idade e os encargos de famlia, procedia o Algodres  chamada. E fazia-o to rpido como acenar de olhos. Os riscos, entretanto, agravavam-se, que o madeirame pendia cada vez mais desconjuntado. Sabendo a ordem que a cada um pertencia na fila, o salvamento decorria com mtodo e ligeireza. E era de aspecto resignado, se bem que de corao transido, que os restantes aguardavam a voz de largar. Atrs deles, a nuvem de p, levantada com o peneiramento da areia, adensava-se, escondendo uns dos outros. E o tapume vergava, vergava, premido pelo peso progressivo do entulho, que as mulheres e os homens que trabalhavam fora, correndo em louca gritaria ao longo da cratera, vinham ainda engrandecer. Face ao Algodres, os fracos soluavam ou carpiam a negra sina dos filhinhos, enquanto a voz retinia imperturbvel:

- Barnab de Quiaios!
- Senhor Eudxio, quando quiser... Rendido ao exemplo do Mira, o Eudxio lutou consigo para ceder o lugar. Empurraram-no para a escada.

-   Lavagante! E este, aquele, aqueloutro, todos abandonaram o

fundo infernal da cisterna. Mal o Algodres punha ps, aps o Marrazes, no segundo banzo, as paredes de madeira davam em terra com temvel fragor. Pulando, a

meio da escada voltou-se e, ao ver a areia que se lhe

A BATALHA SEM FIM                     155

precipitava na peugada como monstro vivo, as feies torcidas em esgar doloroso, murmurou:

-Quando lhe amos a tocar! ... Ah, misria das misrias!

Esperavam-no na terra firme, em tropel, de olhos rasos de lgrimas, os homens agradecidos. Ele desviou-os com o brao, balbuciando:

- Deixai-me! A passo lento, igual, igual, como cadver que se

pusesse a marchar por vontade divina, embrenhou-se por entre os pinheiros. Quando os rudos se extinguiram na distncia, atirou-se de bruos sobre a Qaruma e rompeu em grande e angustioso choro. Gemeu, soluou e a noite vestiu  terra a sua mortalha negra. Soprava um vento agreste, e no o sentia; chovia a potes e a chuva era-lhe indiferente. Em seu crebro a duna continuava a despenhar-se por contnuas e vertiginosas btegas de areia. Ouvia-lhes o estrpito to perfeitamente como se ouve na praia o marulho das ondas ou junto do motor, sob presso, o arfar afadigado. Embora de spera e confusa gama, decompunha-o nos sons vrios, o ranger e estreloiar da madeira desmalhetada, o rouquido dos pregos ao refugir-lhes o duro cerne, os brados pnicos dos homens, e, acima de tudo, o deslize de milhares de milhes de grozinhos de areia, surdo e gil como de serpentes, infinitas serpentes a esgueirar-se. Sobrevinha o trovo, destes que vo resvalando pelo cu, seguido dum baque pavoroso, a queda de mil defuntos no lastro dos covais ao largar dos lenis. E, ao passo que o rumor da derrocada ia rolando, em seu entendimento escurecia. Desejos, emoes, mbiles esfumavam-se  semelhana de casa que o crepsculo vai envolvendo. Na insensibilizante penumbra guardava conscincia, apenas, do que de material se subvertera na voragem: a sua legtima, boa parte da casa do Eudxio, suor para fazer girar um

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moinho, febre para fundir urna geleira. Muito mais se perdera, todavia... Dessa perda tinha um vago e acerbo sentimento como de lana que lhe tocasse o corpo sem saber precisar o ponto da lanada. Doa-lhe que nem que fosse o inferno inteiro a queim-lo. Doa-lhe, mas no atinava com a labareda comburente. Pouco a pouco, porm, foram-se diluindo os motivos do seu sofrimento e distanciando-se nas suas meninges o rumor ttrico da cacarata. Operou-se, afinal, uma sorte de vazio em sua alma e todo se sentiu mergulhar na calma impondervel duma noite escura.

Nessa noite, repentinamente, brilharam pedrarias. De principio, pareceu-lhe nos confins do espao e era bem perto dele. Pequenas e desmaiadas que nem mostaios, mais rbidas que cerejas, redondas quais bugalhos, ovos de pomba no tamanho, resplandeciam como raios de sol e carves a arder. Trocando os fogos dardejando de suas facetas luminescentes uma cromtica luxuriosa, lembravam ainda a fita do arco-ris apanhada  toa. Louvores ao Pai do Cu, era o tesoiro dos crzos Oh, l estavam, vazios e vastos como salgadeiras de casa opulenta, os bas de ferro! Pendiam para trs as tampas, mostrando a subtil e slida relojoaria das fechaduras. E, filadas nos arcaboios por grossos cravos, as precintas pareciam emprestadas de carros de guerra. Como pudera haver machos capazes de aguentar na cernelha volumes to desmesurados?!

Maravilha das maravilhas, despejado para o cho, o recheio punha mais vulto que meda de trigo numa debulha de duas jeiras@ E era tudo dele, s dele, desencantado das entranhas da terra por arte prpria e merc de Deus. E, metendo mos gozosas na rima, sentia reflectirem -se-lhe na medula a linha suave das prolas e a quina viva das gemas lapidadas. Brinca brincando, fazia danar nas palmas das mos os rubis, cor de sangue a

A BATALHA SEM FIM                       157

pingar de vela aberta, os brilhantes, taludos alguns como os seixos que os pastores atiram s cabras, as safiras de azul difano e as esmeraldas cor do mar profundo. As moedas de oiro, de todos os reinos e de todas as pocas
- libras de cavalinho, luses, lisboninas, dobres -, jogava-as s rebatinhas, regalado com seu tinido celestial. Tambm os pintos eram em avalancha, para encher alqueires e alqueires', mas s no desdenhava deles porque tinham estampado na face o sinal da redeno.

Tornava-se urgente pr a recato tais riquezas, ri      o desse sobre elas a quadrilha dos esfomeados. Precisamente afigurou-se-lhe ouvir passos ao largo, passos oprimidos por aquela mesma sorrateira brandura com que marcham palmpedes ou larpios. Sim, eram passos progredindo em redondo, tal de cerco que se aperta. Pai da vida, no havia outro remdio seno abri    r uma cova bem funda e, soterrando o tesoiro, virar sobre ele novamente a duna alterosa. E com unhas ferozes rompeu a

cavar um fojo e j lanava para l o mar de preciosidades quando sentiu no ombro uma fija mo que o sacudia. O abalo que experimentou foi to violento que se ps em p. Diante dele plantavam-se muitos vultos, outros acudiam dos quatro pontos, e o seu primeiro acordo foi de que estava roubado. Mas falavam-lhe, e - voz tinha entono de amiga:

- Macacos te mordam, para o que te havia & dar! Levmos mais de duas horas  tua procura...

Depois de esfregar os olhos, atentou em volta: no, no estavam l as arcas dos crzios, nem a ruma de jias raras, nem tampouco cavara na areia fossa em que sepultar os deslumbrantes haveres. Sonhara.  noo de que tudo fora sonho sucedeu a de que um venenoso letargo o possura. Quem estava defronte dele era o

Eudxio com uma roda de trabalhadores.

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- Mexe-te' - gritava-lhe o scio, autorizado pela intimidade e pelos anos a mais a trat-lo por tu. Queres ficar entrevado por toda a vida?

O Algodres levou minutos a recobrar-se e disse, forando o sorriso:
- Ando h trs noites sem dormir; tombei para o cho como um penedo.

- Com a geada que cal estavas a ganhar a morte, homem'

O Eudxio despediu os operrios e puseram-se ambos a caminho, pinhal fora, a corta-mato. Estremunhado, o Algodres caminhava  banda do scio, copiando-lhe as voltas e cuidando de acertar o passo pelo dele. Mas nisso, como em ouvir o que lhe dizia, despendia grande esforo. O seu regalo seria deitar-se novamente por terra e quedar a dormir, a dormir at ao fim do mundo. Mas tinha vergonha da sua fraqueza e, aos bordos como borracho, esmurrando-se nos troncos, tropeando nas poas, balouando-se por cima do companheiro, l ia botado. Em tom de segredo, no escutassem almas desgarradas por detrs de algum barranco, cochichava o Eudxio:

Pois agora  que  dar-lhe que se tem a certeza de que a melgueira l est. No vamos segunda vez desentupir a duna, dessa estamos ns livres, Por um culo, como os mineiros, vamos direitinhos s arcas: Hem!  o que te digo, tenho vindo a malucar. Bem sei que  preciso mais dinheiro... Arranja-se. Com penas de empenhar a camisa' Homem, vais todo engorgido; anima-te, que as riquezas l no quedam. Eu seja ceguinho!

Eram chegados a uma clareira, e uma vez ali descobriu-se-lhes o cu estrelado e o lenol lvido da noite estendido por areal e bosque. Ao Algodres foi grato sentir o vento fresco, desenvolto, que lavava a face como,

A BATALHA SEM FIM                   159

gua da fonte. Vinha do mar, e o odor da salsugem acabou de despert-lo.

- Para onde vamos? - perguntou.
- Vamos para minha casa. Vens l ficar. Hoje, deixa l o Coimbro...

- Agradecido, mas tenho uma parte a dar.
- A esta hora ... ? Est a bater a meia-noite...
- Est a bater a meia-noite! - exclamou com grito to agudo como se lhe dessem duas punhaladas. - Oli, amaldioado seja o dia em que nasci

E largou a correr, a correr e a uivar, amedrontando pela noite fora homens, aves, os prprios pinheiros negros.

IX

Na duna andavam agora cinquenta homens, e negros, esqulidos, ferrados  p, de sol-nado a sol-pr e ainda de noite, mal fosforeJasse o luar, pareciam cinquenta demnios. Esses no se rendiam, amparados pela esperana de dar pontap na mofina, senhoreando-se das arcas de oiro.

Na tarde de domingo,     imediata ao desabamento, o

Eudxio chamara a contas    os jornaleiros do Coimbro, Ervedeira e outras terras   interiores, os martimos de Pedrgo, Vieira e mais     praias. E avisou, depois do Lzaro, Brs, ora e sempre  escrivo, pagar a fria a cada um:

- Quedam suspendos os trabalhos at nova ordem. Corisco que lhes estalasse aos ps assombr-los-ta menos. Breve, porm, como vento de tempestade nas ramalheiras, o burburinho ciciou, embraveceu.

- A duna tem sido um sorvedoiro sem fundo explicou o patro. - Depois do que aconteceu por mal dos nossos pecados,  mester tornar ao comeo e, para tanto, no h dinheiro em caixa, amigos...

- Boa vai ela' Ento quando se tocou nas arcas do tesoiro  que se largai@ - proferiu o Marrazes, arreganhando a tacha como cachorro que vai morder.

- Se eram as arcas do tesoiro ou arcas encoiradas, faltou averiguar - replicou Eudxio com agastamento.

- Aquele som no mentia'

A BATALHA SEM FIM                        161

Ora, podia muito bem ser calhau, saibro duro... raiz de pinheiro...

- Calhau, ali' - acudiu o Passafome em tom de zomba. - S se casse do bico de algum pssaro'

- Homem, raiz de pinheiro...
- Quando, de podrida, a carrasca se esmiola nas mos... @ Adeus viola!

- Com as vossas sentenas no governo eu o barco. Pra-se a obra porque trago a casa a arder.  o que vos digo, a arder' Nem vs imaginais, que no sabeis quantos dedos tendes na mo, o que representam oitenta e cinco dias de jornal a uma cfila, orando entre cento e cinquenta e duzentos homens, sem falar em machada, madeiras, vinho e fumo!

Entrementos engrossava em volta dele a choldraboldra, mais grulhenta que feira. Nos abarracamentos a

noite decorrera agitada: raiva, febre e, verbo a tornar-se

carne, a esperana. Pois que o oiro chegara a dizer c estou! - oprimia as almas o mais delicioso pesadelo. Guardava-o um grito, mau decerto, que novamente o fizera sumir nas entranhas da Terra. Mas uma vez que a

sua existncia se tornara to clara como a prpria luz do meio-dia, iam centuplicar de vigor. Seus msculos seriam doravante mquinas admirveis; porfiariam sem

relego dia e noite; viriam secund-los as mulheres e as crianas; e sob pena de esgadanhar com as mos a areia da duna, de carret-la na boca como escaravelhos, o

tesoiro, o seu rico tesoiro havia de luzir ao sol. E eis que, assim resolutos e abnegados, o judeu do patro os despedia' Podia l ser'

No meio do alvoroo, a par do Lzaro com o saquitel das jornas debaixo do brao, o Eudxio estrebuchava, gritando:

- Deixais passar, almas do Diabo... ? Arredava um, eram logo dois a embargar-lhe o passo.

162              AQUILINO RIBEIRO

Ao mesmo tempo, os doestos choviam mais bastos que granizo:

- O que vossemecs meditam sabemos ns:  tirar o biscato sozinhos'

- O tesoiro deu-o o Pai do Cu,  de todos'
- Tanto ho-de rilhar as unhas que envenenam o sabugol

- Deixais-me ir  minha vida? - tornou o Eudxio com espuma aos cantos da boca, que era homem de pouca pacincia. - Quereis mais mamadeira?' Ide roer os tutanos dum burro que os meus esto chupados.

- Q@ieremos voltar para a duna...
- Voltai; quem vos pega?
- E arame?
- j vos disse, estou debulhado. M'amigos, onde no h, el-rei o perde!

- Mas  ti Eudxio, consulte a sua conscincia e diga... - proferiu o Afonso Penela que merecia o respeito geral por homem cordo e de peso. - Parece-lhe bem que a gente levante na altura em que se tirou a prova de que h bagalhoa debaixo da areia? Vomec bem sabe, pois no  tolo nenhum, que cada um de ns trabucou por cinco e no era o jornal que nos dava paga suficiente para o suor que vertamos. Trabalhvamos a brio porque tnhamos f de receber o nosso quinho. Sim, uma migalha que fosse. Ns somos gente de migalhas. Agora manda-nos embora... Homem,  pior que roubar-nos a uma esquina!

- Roubado e sem poder berrar ao ladro estou eu. No haja dvida, amargaste a diria, mas com ela fisgada: deitar a unha ao que aparecesse e no nos deixar tanto com que adquirir um bornal para pedir esmola pelas portas. Olha que meninos!

- No leia maus pensamentos no peito dos outros replicou o Rodrigo Pamplino - quem pe as malcias

A BATALHA SEM FIM                    163

do seu a descoberto. Sabiam ou no sabiam vomecs que contvamos ser contemplados nas partilhas? Sabiam e deixaram-nos viver na santa iluso. Agora, mandam-nos a sirga. .. Que havemos de ajuizar? Que no pretenderam outra coisa seno servir-se dos calcetas para obter a

certeza de que o tesoiro l estava. Isto feito, toca a desandar, que o que cabe no nosso saco no o leva o fole do gato. Olhe, seu Bixofim, nunca o invejoso medrou nem quem ao p dele morou. Vomec j era rico e n s ramos pobres. Pedro Cem, por ambicioso, se tornou Pedro Sem. Receie que tal lhe acontea, a querer abarcar o cu com mos to fracalhotas.

O Eudxio quedou boquiaberto com a sermonata do truo e, de boca torcida, exps novas razes:

"Tinha que ir preparar as terras para o sementio do milho e do arroz que j os mais proprietrios se andavam
* rir dele. Quanto a podas e cavas, era tambm adiantada
* quadra e ainda no metera a tesoira em cepa. O Vermoil ia abrir matrcula... provavelmente o Algodres. Ajustassem-se. Quando soasse a hora de recomear, apitaria. "

-   Assim, no governamos vida - bradou o Marrazes que, apartando-se da contenda, se entretivera com os homens, por grupos, em sucessivos concilibulos. Quer o seu Eudxio fazer um contrato connosco? Voltamos para a duna; no gasta dez ris em salrios; d-nos apenas po, batatas e vinho...'

Fez-se silncio; arregalaram-se os olhos.
- Po, batatas e vinho, pilhreis vs' - respondeu o Eudxio desenganado. - Com a familage que trazeis ao rabo, a tirar o ventre de misrias, onde no atirava o despeso! Apre, loira, antes pagar o jornal de contado e

por em cima uma boa gorjeta para cigarros'

Viram todos naquele despautrio indcio de m f. O Marrazes rectificava os termos da proposta:

164               AQUILINO RIBEIRO

No  manjar  tripa-forra, senhor' Do tudo por peso e medida... A palavra  para a gente se entender.

- Homens, porque no meteis tambm um bife? remordia o Eudxio, gesticulando, chocarreiro e irado.
- E uma fatiota nos alfaiates de Leiria, no vos serve' E, os que so solteiros, uma fmea bem frescal para o gozo, no? Sois cainhos no pedir.

- No aceitam, esto no seu direito - pronunciou o Marrazes, alando a voz para todos o ouvirem. - Ns  que vamos desenterrar o defunto'

O homem dissera aquelas palavras com tanta chibna e deciso, animaram-se os rostos dos trabalhadores de tal chama que o Eudxio tremeu em sua alma. De lngua atada declarou:

- Podeis ir, mas de mim no espereis tanto como a apara duma unha. j vos disse que  devida hora, quando passe o badanal das sementeiras, reis chamados. Entendeis governar-vos por vossa cabea, l fazei. Eu por agora no posso. Estou empenhado at as orelhas... com as terrinhas, para mais, a perguntar pelo dono. Vs sois livres, nascestes com a sorte de no ser proprietrios, de no ter cuidados, de no pagar impostos aos ladres da Fazenda. Se quereis dilatar, talvez outro galo vos cante'

- No queremos dilatar, no senhor. H-de ser agora ou nunca mais. Que dizem vocs? - inquiriu, passeando em torno um olhar soberbo de cabecilha. Vamos  duna?

- Vamos  duna! A ela - responderam num grito exaltado.

Com o entusiasmo que se apossou de todos, homens e

mulheres, quebrou-se o crculo  roda do Eudxio e ele, esquecendo Lzaro, a passos lentos, meteu pelo caminho das aldeias. Mas logo abaixo distinguiu o Algodres, abraado a um pinheiro e fronte pendente, como homem

A BATALHA SEM FIM                      165

a lutar com a morte. Foi para ele e, embora de rpia, chegou  sua beira de surpresa:

- Que fazes aqui, meu enjangado das bruxas!? Nem s homem, nem s nada. Ontem, disparaste como doido pelos pinhais fora; que raio de bicho te mordeu? Hoje, deixas-me sozinho e eu que ature a malta assanhada' No ds conta do que se passa... ?

O Algodres fitou-o com olhos estranhos e ele volveu indignado:

- Tropeo te parta, h que tempos ests tu a? Olha-me l para cima, mosca-morta, para a duna... Vs o rebulio? Querem ir tirar o tesoiro sem ns, sabes tu!?

- No se apoquente - disse o Algodres numa voz branca de desenterrado. - No tm corda para muitos dias.

- Nunca fiando. Mas repara l para o alto... Esse Marrazes, ah, que punha as mos no lume se tu mandasses,  o capito dos ladres'

Em redor do moceto, com efeito, no arrampadoiro da duna, mais encapelada e anfractuosa que revolvida por terramoto, apertava-se um aude de gente. Viam-se os farrapos morturios das mulheres negrejar contra o pano estanhado do cu corno corvos pincharolando. Soavam juras e palavres. E de parte, para um grupo, a Ludovina Passafome pregava: "Todos tinham direito s riquezas, irmamente, por virem debaixo da terra como a gua das  fontes!"

Avistando Eudxio e Algodres ali parados, o Manuel Drago que, de manha, no erguia um p sem ver bem onde assentava o outro, velo ter com eles conciliador:

- Que dianho, em oito dias desatulhamos a cova. Aceite l, tio Eudxio...

- Qual aceite W - contestou com destempero. Mesmo que quisesse, no podia. Afiano-te. Se me

virassem de pernas para o ar, no escorria vintm.

166              AQUILINO RIBEIRO

Na esteira do Drago, foram vindo mais homens e, dentro em pouco, o Eudxio esbracejava outra vez no meio de grosso tumulto:

- Vs voltais  duna, mas a ferramenta, santa pacincia, tenho de retir-la. -me precisa.

- A ferramenta, para ser cavalheiro, vomec empresta-a - disse Duarte Rebocho, o Lavagante.

- A ferramenta vai.
- Paga-se-lhe aluguer... E peguilha daqui, peguilha dacol, o Eudxio perdeu as estribeiras e atirou-se ao gasnete do Rebocho, ainda que tido e provado pelo mais forudo dos pescadores. Apartaram-nos, j feita num frangalho a camisa do homem. A soprar como baleia, mas visivelmente satisfeito com o desforo, anuiu Eudxio "eu por bem dou o sangue dos braos" a que continuasse em servio a poro de ferramenta que no era indispensvel  lavoira, baldes, carrinhos, sarilhos, umas tantas ps. Desfaziam-se os homens em vnias e bem-hajas, ele, porm, despegando com o Algodres, atalhou:

- Futricai-vos! Silenciosamente, para par, seguiram mata abaixo; estacando a certa altura, pronunciou o Eudxio j sossegado:

- Mas tu ainda me no disseste: que desconchavo foi aquele de ontem? Corrias que nem que levasses ferrados no cachao todos os moscardos de Agosto. Cheguei a

temer que fosses esbarrar com algum pinheiro e casses redondo para nunca mais... ! Hem?

Confessou o Algodres, depois de olhar para o cho duas vezes, que a derrocada da duna lhe subira  cabea e

toda a noite andara liru do juzo. Sabia l o que fazia! Em guisa de conforto, disse-lhe ento o scio:

Desgraas para mim no contam. O tesoiro l no queda, juro-te. Deixa fartar aqueles ces de areia e eu te direi!

A BATALHA SEM FIM                     167

E em voz baixa, pausadamente, atravs do pinhal deserto, foi discorrendo acerca das possibilidades que se

ofereciam aos esfomeados de pr as mos nas arcas preciosas. Ser-lhes-iam precisas trs semanas, para mais que no para menos, at desatupirem a cova de metade. Entretanto, os cabaneiros do Coimbro, Ervedeira e

algures, no sentindo a fria a correr, desamparariam a duna. Quedavam os martimos, gente que se alimenta de ar e de gua, de cascas de pinheiro, se mais no tem, e desses, quando na prata lhes tocassem o bzio, no aguentava o tero. Os restantes estoiravam antes de tocar o lastro. A no ser que o Diabo lhes desse entendimento para engenharem um plano igual ao seu: fixar aproximativamente a posio dos bas e, em vez de proceder ao desmonte da duna, abrir poo at eles como nas minas. A sua esperana era de que para semelhante traa lhes mingasse o ardil. Pelo sim, pelo no, fosse o Algodres tratando de negociar com o Vermoil a parceria da companha, tanto mais que a temporada estava  porta. No havia outro   remdio. Sim, o Vermoil passava por m peseta, mas com escrivo honrado  ilharga, como o Lzaro, ter unhas compridas valia o mesmo que t-las rentes. Depois, quem falava alto era o preto sobre o branco: davam um pulo a Monte Redondo e, o Algodres como armador, ele como credor hipotecrio, o Vermoil como associado, lavravam escritura. Aberta a matrcula, a maior parte dos martimos tirava os sapatos para correr  capitania. E, atarrachados ao ajuste, no poderiam nem  mo de Deus Padre bulir da praia; lei era lei.

Procurou o Algodres furtar-se a tal diligncia argumentando com as manhas ruins do Vermoil, a perfdia em pessoa. Andavam, de resto, de candelas s avessas, e com ele no era ponto de f que um santo, ao aproximar-se, no recebesse dentada.

- Homem, j lhe tomei o pulso@ - respondeu o

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comanditrio. - Pilando pelo negcio est ele. L quando a safadeza, a gente entesa-se, descansa. Vai, vai-me ter com o arganaz. Para os preparos, j agora perdido por cinco, perdido por dez, dinheiro sempre se

arranja. O principal  puxar a choldra da duna para fora. Ao depois, traz-la curta que, se vm ao conhecimento de que chegamos  metralha dos frades, pulam  Cova da Serpe e nem as caixas nos deixam para salgadeiras. Ainda por cima so capazes de nos matar@

Assim determinado, foi o Algodres ocupar-se da arte.
O Vermoil andava lampando por meter pata na companha e se marralhou foi para esconder o regozijo. Breve pega originou-a a escolha do escrivo. O Vermoil, a pretexto. de dar unidade  safra, pretendia impor o. Pedrosa; o

Algodres declarou que se o Lzaro, no desempenhasse o

cargo, estava a sociedade em terra. No menos se mostrou inflexvel quanto aos nomes para arrais e regedores, que seriam os do ano pretrito. Anuiu finalmente o financeiro, como se fizesse grande concesso e, vistoriados barcos, redes e cordas, beberam o alvaro que na tenda do Vermoil, pago bizarramente pelo prprio.

Ao aceno que lhe fizera, compareceu Lzaro Brs no Pedrgo, a tempo de molhar a barba no vinho da regaleira. Beata a escorregar dos beios, to chupada e

amarela que dir-se-ia a mesma que fumava e trazia na duna detrs da orelha, o gabinardo a pender dos ombros, mais ruo apenas na sua eternidade, luzia-lhe nos olhos aquele seu afvel e bonacheiro ar de sempre. Ao encontrar-se sozinho com Jos Algodres  beira-mar, disparou-lhe:

- Se teu pai c voltasse, podias contar com a sua

reprovao. Metes a vbora no peito, espera pela volta!

- Foi o Eudxio que quis...
- Ele tambm no h-de morrer em boa cama' Oxal

eu me engane!

A BATALHA SEM FIM                    169

A essa hora esfalfava-se o homem da Ervedeira, de rabia em punho, a vessar um campo, depois de ter andado de manh a arear uma courela que se mostrava escassa de produo. E, enquanto ele se atirava  lavoira na gana de remir uma ou outra hipoteca das muitas que lhe oneravam a fazenda, investia com a duna a malta dos esfomeados.

Por sufrgio unnime, fora o Marrazes eleito chefe. Ele  que dava o risco e dirigia, no se eximindo tambm a prover ao abastecimento da comunidade. Prtico das coisas do mundo, cuidou antes de mais nada de reduzir o nmero de bocas do arraial, persuadindo os homens

menos tersos e provados a buscar outra vida, animando umas tantas mulheres a aninharem-se com parentes e prximos, e remetendo sem cerimnia no poucas para as praias. Ao mesmo tempo industriou os garotos no oficio de pedinte e em teis e variadas malas-artes. Aquele que  hora de recolher no apresentasse o surro cheio com coisa que se visse era chibatado e jejuava. Regulamentou a alimentao pelo sistema caserneiro do rancho, fintando os homens e adquirindo os gneros por atacado. Correu com o taberneiro e proibiu que se fumasse na duna. A mulher mais governada arvorou-a em

ecnoma e a mais limpa e sabida em cozinheira com ajudantas e serviais. E, ao passo que punha pulso enrgico e equitativo na manuteno, ordenava o ataque  duna. Fez desmontar os tapumes, tirar e endireitar os pregos, e circunscreveu, como o Eudxio tanto temia, a

rea a escavar aos pontos que se lhe afigurou abrangerem a jazida do tesoiro. E, espetando estacas bem fundas e contra elas firmando o revestimento, armou sarilhos e romperam  obra com invencvel denodo.

Ao fim de duas semanas, a cisterna, forrada de slido taipal, descia a mais de cinco varas de profundidade. Quis, porm, a m sorte que as cordas dum engenho se

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rompessem e o balde casse sobre um homem, desancando-o dos lombos. Era cabaneiro, de Mata Moirisca, e  noite os terreanhos todos, descorooados j com a lentido da empresa sem verem chavo no bolso, espavoridos com o mau sucesso, levantaram. Crivados de apupos e

surriadas, com os maritis ao ombro, por entre os pinheiros, nenhum olhou para trs. No levavam pesar, tambm no deixavam desnimo. Por aquele passo, obra de duas semanas mais e tocavam nas riquezas de Santa Cruz. Ficavam s martimos, melhor! O homem da terra  egosta e calculador. Liga com o homem do mar como o barro com o bronze. Aquele sonha apenas quando dorme, esta sonha dormido e desperto. Que os levasse o Demo mailo juzo que tinham, que ainda sobrava gente para furar a duna ate as entranhas do inferno e poder com

os sacos do tesoir sem arrear pelo caminho?

Ficavam apenas martimos, e aquela defeco dos jornaleiros convertia-se, afinal, em vantagem, pois os

comestveis comeavam a rarear no acampamento. De sol-nado a sol-pr as aldeias prximas eram percorridas pela horda dos rapazinhos, sujos, seminus, picados das bexigas, mais acarraados a mendigar que filhos de cigano, Breve se cansou com eles a caridade dos povos. Organizou, ento, o Marrazes uma turma Volante, composta dos mais leves de p e vivos de olho, que de noite batia os campos e ripava do alheio. Andavam por nabais e hortas e faziam n@o baixa sobre o que vinha a talhe de foice. A estao era escorrida de recursos e tinham saudades dos batatais em que o larpio hbil, semelhante a

raposo, surripia o tu@rculo sem desmanchar o aprumo da planta. Por isso se viram na ingrata contingncia de assaltar capoeiras c adegas, casos inditos nas redondezas. De rapina em rapina foram at subtrair pelas povoaes o que havia malguardado ou de cujos donos podiam iludir a vigilncia. Pilhados aqui, lobrigados alm, aca-

A BATALHA SEM FIM                       171

baram  por tornar-se objecto da animosidade geral. Que monta, tinham apegado a vida quele sonho e no lhes consentia o gnio desamarrar! A duna era como que a sua nau Catrineta; deitariam solas de molho na esperana sempre viva de se porem a salvo da macaca.

E a cisterna l ia, mergulhando cada vez mais nas entranhas da terra. Trabalhando  Ia grande, s erguiam com a noite cerrada, curvos, suarentos, modos como a areia. Se despontava a Lua, de corrida punham-se  obra, e adeus sono! As mulheres emparceiravam com eles s aspas dos sarilhos ou a trasfegar terra, prestando-lhes raivosa demo. Ao contrrio do praticado at o desabamento, no toleravam que os homens trabalhassem ao domingo, dia do Senhor. E se bem que a cobia de atingir as arcas os acicatasse, e o Alberto Marrazes, para desconto do pecadilho, prometesse rijas festas ao S. Miguel das Areias, passaram a observar rigorosamente o

dia de guarda. Rotos, famlicos, pedinchando uma cdea pelas alminhas do Purgatrio, ouvindo imperturbveis a mofa dos cpticos e as ameaas e invectivas dos roubados, consumiam a manh na igreja e a tarde pelos caminhos. E no dia seguinte, com o clarear da alba, nenhum faltava na fossa lgubre, onde cabiam os defuntos duma terra grande em cem anos de obiturio. Incoercvel fora mstica, das que magnificam ou quebram o homem, lhes servia de esteio e guia.

Certa manh, j se ouvia a calhandra cantar  grandura e claridade dos dias, velo o arrais Lus Mira advertir que a

matrcula para a companha do Algodres estava em aberto na capitania da Nazar. Se algum dos que ali andavam fazia teno de se ajustar, no tinha tempo a perder, pois, havendo liquidado vrias artes por aquela corda de praias, os homens eram aos cardumes. Deixaram-se tentar dois ou trs martimos da Leirosa, outros tantos da Vieira; os

mais abanaram a cabea ensoberbados.

172              AQUILINO RIBEIRO

Quando aquilo lhe constou, ciente j dos progressos que fazia a escavao, o Eudxio, arrepelando-se todo, foi-se de rebentina ter Com o Algodres.

- Os almas de chicharro, por este andar, do no tesoiro@ - disparou, tal qual um cumprimento, assim que o descobriu.

O scio procurou tranquilizar-se, tranquilizando-o. O mais duro de esfolar estava para vir. At ali, visto que tinham apoucado com boa manha o dimetro da cova, fora brinquedo. Deixasse-os mergulhar mais uns metros e esperasse o troco. Algum pagava com o cadver o atrevimento. O Eudxio argumentava que o poo ia escorado por mos de mestre, segundo informes que recebera de pessoa que no era asno nenhum naquela espcie de trabalhos. Mal procedera o Algodres, to amigalhao do Marrazes, em no atrair o pimpo. Sem ele, os outros teriam desandado com os atafais s costas. Retorquia-lhe o Algodres que, ainda sem o Marrazes, muitos se abalanariam quelas cavalarias. Estava-lhes mais enraizado na alma que o perrexil nos taludes das hortas. Mas no tivesse medo, mais dia menos dia a tentativa dava em droga.

O lavrador, o corao em balanos, no logrou sossegar com o optimismo do scio. E, aproveitando o escuro duma daquelas noites, foi verificar com os seus olhos. Depois de rondas e sobrerrondas em volta do arraial, quando todos os rumores se extinguiram, de rastos como cobra, trepou  duna. Com pupilas acesas de felino, desceu, depois, a escada da cisterna. E mal poisou no cho firme, estarreceu assombrado. Estava a quantos metros de profundidade? No o saberia dizer, nem lhe era possvel avali-lo pelas cinturas de tbuas que no havia modo de distinguir. Mas o cu luzia l muito em alto, pareciam luzir as estrelas a duas lonjuras da Terra, e at a rama dos pinheiros se esfumava na distncia.

A BATALHA SEM FIM                      173

Palpando o madeiramento, reconheceu quanto fora verdadeira a pessoa que lhe viera com a notcia de que o

Marrazes era homem das Arbias. Aquilo ia com a arte toda. Slido, slido como fortaleza. No admirava que dum instante para o outro, a profundar com segurana, chegassem ao tesouro. Passeando no fojo escuro, o Eudxio sentia-se roubado, roubado na sua ambio, roubado, o que era mais, na sua fortuna, to agravada que se

o tesoiro no lhe entrasse em casa, estava de pernas ao ar.

Uma grande angstia apertava-lhe a garganta, sendo o seu desespero to violento que deitou mos a uma tbua para arrasar a duna ainda que ficasse solapado debaixo. Mas o tabuamento resistiria a duas juntas de bois. Perante a sua impotncia, considerou consigo e com os

botes. E, depois de muito matutar, em seu entendimento disse:

- Se no sacais o tesoiro at domingo, eu vos ensino.

Era uma quinta-feira e at sbado  noite viveu sobre brasas, atento aos rumores que sopravam das bandas do mar, inquirindo das pessoas que vinham da Cova da Serpe o que havia de novo, deitando-se satisfeito e erguendo-se resmungo, de noite presa de pesadelos horrveis, de dia espancando os filhos -e ultrajando a

mulher. Ao entardecer de sbado, como no corressem ventos de sucesso particular, respirou com desafogo. Bateram as trindades e, fervidamente, agradeceu a anjos ,e santos terem defendido os seus haveres das mos ladras. Viva a Cristina, o tesoiro l estava bem acautelado,  sua espera! Reservando-o para ele, que arruinara a fazenda na devassa maravilhosa, a Providncia era justa. Mas pois que eram estes os desgnios do Alto, ali lhe prometia uma festa de arromba, com filarmnicas e fogo preso, sermes e missas cantadas, uma festa em que os abades explodissem de indigesto e as moas derreassem a anca a bailar.

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 tarde, velo o Algodres encontr-lo rendido a efusivos transportes com a pichorra do verdeal. Beberricaram at altas horas com a ajuda de presunto e azeitonas e, quando na terra at os rafeiros dormiam, puseram-se a caminho do Pinhal do Urso. Chegaram com as estrelas a tremeluzir no cu como plpebras que tm sono. No arraial reinava inaltervel paz e esconderam-se, a fazer tempo, numa brenha de samoucos. Erguera-se o noroeste, ouvindo-se o ribombo rolante do mar, to compassado, to adormecedor que nem que obedecesse ao propsito de embalar a noite escura. Era mester esperar, esperaram; uma lata chocalhou, afinal; voz de homem, pastosa e enfadada, remoeu; vagiu menino, e pouco a pouco, como fogo posto, a balbrdia alastrou pelo acampamento. A quadrilha despertava. No tardou que velada pelas sombras, em carreiro de formigas, a gente do areal abalasse  missinha, desaparecesse na penumbra da mata to subtilmente como se lhe esvaa na caruma o rudo dos passos. Algodres e Eudxio, aps breve circunspeco, pularam  duna. Desceram como esquilos a escada de troncos. Aos apalpes, o lavrador escolheu num dos ngulos do revestimento o ponto sensvel e, insinuando o grosso cartucho de dinamite, pregou-lhe fogo. Marinharam de afogadilho para fora da buraca e, ainda corriam nos flancos da duna, quando se deu a detonao abafando o bramido do mar. Sem volver olhos  retaguarda, deitaram a fugir, a fugir, cegos para barrancos e matagais. E, aliviados do peso que traziam no peito, dormiram regaladamente a manh. Obra do meio-dia, propalou-se que a duna se subvertera mais uma vez sob presso do desmonte, ou por virtude do prprio encantamento. Os dois amigos rejubilaram; no se descobrira, j se no vinha a descobrir a ariosca. Ainda que da tramia pudesse subsistir o rastilho, jazia sob a areia, bem l no fundo, com o tesoiro, o rico tesoiro, dos seus pecados.

A BATALHA SEM FIM                       175

Os pesquisadores da duna, em sua turbao,             no formularam, sequer, a hiptese de acto criminoso.         Era Lcifer que ali andava, apostado em impedir que chegasse a mos crists a teca dos fradinhos. E pela primeira vez duvidaram do xito do seu esforo. Desistir no era o

aconselhvel? Mas o Marrazes, enclavinhando o punho e

voltando-o ameaador para a duna e as suas misteriosas e malficas divindades, exclamou:

- Verterei aqui a ltima gota de sangue, mas no largo. Vai-se recomear. Quem quiser ficar, fica; quem no quiser, d um passo  frente...

Se hesitaram alguns, nenhum ousou mover p. Animosamente, volveu o Marrazes:

- Meditei um processo de escoramento que nem todos os demnios do Inferno, agarrando-lhe com os

dentes, sero capazes de atirar ao cho. Ides ver corno vai num rufo'...

De facto gizou na areia, como superfcie de escavao, a figura dum octgono regular, em que cada uma das faces era formada por tbuas de trs metros de comprimento. Desta arte, alm da economia de carpinteiro, resultava acrescida de modo aprecivel a resistncia, pois que a presso se distribua por mais lados, estreitamente solidrios. Ante aquela inovao, cujos efeitos o inventor exalava arteiramente, os homens reconfortaram -se. Mas antes de assentar a primeira tbua, alvitrou um deles que se fosse ouvir o tio Manuel das Uchinhas. E na mesma hora seis homens, com o Marrazes, partiram de espora fita para o Grou.

- Os outros no desenterraram o tesoiro?'            disse-lhes o mandingueiro, baloiando a cabea.           L me

queria parecer... No reuniam as condies; sempre lho disse. Vs reuni-Ias, mas para chegar ao tesoiro  preciso no vos esquecerdes de traar na areia, todas as manhs, o sino saimo e escupir no pozinho de Cristo...

176              AQUILINO RIBEIRO

- Credo' - exclamaram vrios a um tempo. - L com o p:.-:o no se cometem tais judiarias@

- Ao tio Eudxio e Algodres no ordenou tal prtica
- observou o Marrazes.

- VIs sois outra casta. Para cada um seu pandeiro!
- respondeu sem titubear.

No,  grande pecado. Ento, nada feito. Voltando  duna, ainda essa tarde acabaram, apesar da muita relutncia, por pisar e escarrar o po do Senhor. As mulheres, por seu turno, vieram ensalmar e benzer o areal, rezando e queimando ervas santas. E afoitos com o seu rasgo e a profecia do benzilho, moirejando com fria, no dia seguinte tinham cravado a primeira roda de tbuas, mais alta que estatura de homem alto.

Reapareceu nessa conjuntura o arrais Lus Mira. As vantagens oferecidas aos martimos que se inscrevessem

eram de arregalar. No obstante a velocidade com que os

trabalhos decorriam, o desnimo no varrera de todo. As crianas andavam a cair de fraqueira; na despensa no restavam mais que batatas greladas e feijo chocho; as

hortas comeavam a ser guardadas por bacamartes. Sentindo o desfalecimento, o Marrazes chamou o arrais de parte:

Tio Mira, vossemec no torna a cometer a pobre gente. Se torna, no respondo pelo que possa acontecer...

- No me metes medo; mas sempre te digo que andas a cavar a tua desgraa e a dela.

-  comigo. E vossemec no andou c?
- Andei a ganhar a jorna. Iam na quarta cintura de tbuas, ateou-se no acampamento um andao, roaz ainda que nada mortfero. Ficavam fracos como canios. No havia, para serem

todos os males juntos, que tragar. As mes no tinham

A BATALHA SEM FIM                     177

leite para os filhos; nas tendas no lhes fiavam um alho. Os mais decididos foram colher ervas venenosas aos pauis e correram e empeonhar os peixes da lagoa da Ervedeira. A abundncia foi tanta que os esfomeados iam estoirando de indisgesto. Sem embargo, naquele e

nos mais dias, muitos desertaram. Faziam-no pela calada da noite, de filhos s cavaleiras, p ante p, com medo ou cobardia de fugir. Quando se apresentaram na praia, ante seus rostos plidos, mais de finados que de vivos, o

Vermoil, mestre universal do Pedrgo, coagido pela letra do contrato a aceit-los, murmurou:

-  esta gente que vai tripular os barcos? Ou a companha rebenta ou os peixes tm fartote.

No Urso teimavam duas dzias de homens, destes que so capazes de rilhar pedras  falta de broa, e tanto sacrificam a alma a Deus como a vendem a Satans. E a luta com  a areia prosseguiu no menos encarniada e resoluta.

Quis a   m sorte que o Abril fosse ventoso, entremeado de fortes e desabridos aguaceiros. Um p impalpvel, de  peneiradura, exsudado pela duna  fora de voltas e reviravoltas, que acamara  superfcie espesso e

compacto, convertera-se em viscoso e fofo lodaal. Dias aps dias trabalharam os homens ensocados. at aos peitos. Nos dias enxutos, o carrasco do noroeste desatava na sua negregada dana com a areia, jogando-lha em vagalhes por cima da cabea. S  custa de lentas e teimosas canseiras conseguiam avanar, Apesar de semelhantes contratempos, no depuseram a ferramenta.
O cavalo dum moleiro, que partira o jarrete de encontro

ao automvel de Lousal filho, garantiu-lhes manjar para uma semana. O piquete de forrageadores no dormia, deitando at largo, campos de Carvide, Casal Novo, Guia, e sempre voltava mais ou menos ajoujado de vitualhas. No obstante, era precrio o passadio: raras

178              AQUILINO RIBEIRO

vezes, abastana; em regra, estmago a ladrar como co de quinta. Fosse resultado das barrigadas de fome, a

somar com o labor excessivo e a febre que corroa a

todos, fosse que chegasse a hora do desarranjo congnito desatar, o Pamplino comeou a dar sinais manifestos de demncia. Supunha-se capito de piratas e a dirigir a

exumao dum tesoiro em ilha deserta. No auge do trabalho, rompia a gritar que, os companheiros da flibusta o queriam roubar e de p em punho, como acha, despedia cutilada a torto e a direito. Sucedia terem de maniet-lo para no causar dano de maior. Falavam em que andava endemoninhado e em lev-lo ao prior para lhe esconjurar da pele o Porco-Sujo. Mas ele, passada a

crise, jurava que  Igreja no ia nem que o arrastassem pelos cabelos. Se l o conduzissem quando estava com os acidentes, matava um. E fora foi aguentar os dslates do energmeno, prevenindo-se apenas contra eles.

Entretanto, o Eudxio, sempre receoso, no perdia de olho a quadrilha. De princpio mandava esculcas, mirones, observar os trabalhos; acabou por assoldadar um

espia. Por seu turno, os antigos companheiros, inscritos agora nas companhas, tinham tambm ali informadores. Tanto uns como outros s esperavam sinal para formar salto. O Marrazes cedo lhes aventou a traa. Mas como os beleguins se revezassem, nem sempre atinava dentre o

cacho de curiosos, que se vinham debruar dos bordos do poo, quais os olhos policiais. Se acontecia desmascar-los, apanhava uma mo-cheia de areia e chapava-a na

cara do entremetido:

- Que tens que ver, olharapo?!
O que mais espantava o Eudxio eram os sete flegos daquela corja. Soubera que o Marrazes, agora suspicaz, vigiava a duna noite e dia e,  ideia de que seria esbulhado das suas riquezas, no comia, no dormia, macilento e escanelado. Se pegava no sono, acordava aos

A BATALHA SEM FIM                     179

berros:  d'el-rei ao ladro! No punha lei na lavoira, atrasando certos sementios, antecipando outros, e deixando estragar-se a apeiragem ao deus-dar. Ah, se os excomungados lhe permitissem recorrer a segundo cartuchinho de dinamite, viveria sossegado! Mas o Marrazes maldito, patas fincadas na duna, velava corno drago.

Uma tarde, havia caras suspeitas dependuradas como grgulas das margelas da cova, o Pamplino rompeu em alto e vitorioso urro: .

- C est o tesoiro! C est!
O grito partira das profundas da duna e, no distinguindo de principio a voz do mentecapto, todos os que trabalhavam for@ desceram a escada de escantilho. Entre eles ia o Marrazes. Dissipado o logro, volveram uns a

seu posto, trataram outros de algemar o doido. A correr,

a correr pelas dunas abaixo, mais veloz que galga, o Marrazes enxergou a Inocncia, filha cadeta da tia Bica. De princpio no compreendeu. Espigadota, com os

seios a amojar, um tanto arrapazada, corria que no era avessa a fazer pequenos favores, desde que lhos agradecessem. Que o tivesse na massa do sangue ou fosse lio da mezona, o certo  que costumava a horas mortas perder-se por stios onde outras no arriscavam o p. Mas no enxergando lume de gozador no horizonte, por mais que procurasse, deu-lhe baque o corao:

- Grande coira, ouviste o brado do zorato e vais  praia levar a novidade. Em menos duma hora, as companhas esto a botadas... No te dar o tranglomango, cachopa, para correio de mentiras!



Acordou mal disposto naquela manh clara de Maio o

juiz de Leiria, Alonso da Cunha Leo. Sonhara que o bolchevismo repartira as suas ricas fazendas de Cho do Couce e que um tropel de homens barbudos e ferozes, rompendo pela adega, abria o vinho dos seus tonis e devorava os presuntos de duas cevas pendurados dos barrotes. Depois, pelo correio, chegaram-lhe ms notcias da capital: rara a noite que os gansos do Capitlio no desatassem a grasnar assarapantados. O alarme poderia no ser falso e apenas intempestivo. No obstante a obra de represso, cometida  m cara e com todos os matadores, a hidra revolucionria crescia nas sombras e avanava. Como Mmenss orbibus angues que investiam para Laocoonte, assim ela investia para os tabernculos da Ordem. Ele prprio, em pleno torpor provincial, a

sentia colear sinistra e sorrateira. Pois que por palavras e obras vinculara o seu destino  gente no poder, o pavor do dia de amanh roubava-lhe a paz do esprito e esta impensante beatitude to indispensvel s boas digestes. Vrias vezes se surpreendera ao cabo de angustiosos cismares a dizer:

- Quem me mandou meter em danas, santo Deus' Para cmulo, a asma acometera-o barbaramente ao saltar do leito, e o almoo fora uma peste com duro como sola e os ovos escalfados em demasia. Quando saiu a caminho do tribunal, levava meia hora de atraso e

A BATALHA SEM FIM                      181

o azedume de co de porta a quem tudo serve de ensejo para ladrar e morder. Atravessou o Rossio, a passo largo, indiferente ao chapu dos cortejadores, recebendo quase com desabrimento o P.' Lcio, raro amigo, que vinha, com indirecto e untuoso rodeio, em nome da moral pblica to atreita ao exemplo, carregar na mo da severidade. Esperavam-no no gabinete os dois colegas, chamados de suas comarcas, nos termos da lei nova, a

julgar aquela causa. Um deles meio cado de ilharga contra o peitoril da janela, o outro encostado  umbreira, em bruxuleante cavaco com os causdicos e pessoal dos cartrios, tinham bem impresso em rosto o enfado de quem madrugou contra seus hbitos, deu muitos tombos nos camies matutinos por estradas desertas e intransitveis, e acaba de perder horas pela cidade na mais imparvel das pasmaceiras. Depois de trocar cumprimentos despachadamente com os colegas e funcionrias da justia, o senhor juiz de Leiria, apesar da escassa familiaridade que nutria com aqueles, usou a seu respeito de brando e amigvel tom de censura:

- Mas porque no vieram direitos a minha casa?'  pobre, sim,   pobre, mas sempre h uma cadeira e um caldinho de couves para os amigos. No soube eu em que carro vinham, seno tinha-os mandado prender!

Riram todos, e o senhor juiz, satisfeito com o sainete, pretendeu avaliar da atmosfera poltica das comarcas convizinhas, tomando o pulso aos colegas, a quem puxou de parte. Mas eles mostraram-se parcos em informes e, pareceu-lhe, sonsamente reservados. E reconhecendo que naquele momento o que mais preocupava suas almas era aviar a aco judicial, ao passo que deitava mo  toga, dizia:

- O processo esfola-se em trs tempos. O principal criminoso confessou, e alm disso h provas incontestveis.

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- Muito que bem! - limitaram-se a proferir, com ar agradecido, os assessores.

Apressaram-se os trs magistrados a ocupar as cadeiras no pretrio; mas, com novo ataque de asma que o emordaou, o senhor juiz de Leiria deixou pender a cabea, e s decorrido um bom espao, rubro ainda e

apoplctico,  que achou voz para abrir a audincia. Soobrou o zumbido do recinto, coalhado para l da tela de rostos rudes, bronzeados, e de trajes escuros da gente da beira-mar. j,  sua ilharga, os colegas de novo mostravam ar de tresnoitados, mos no abdmen, olhos vagos em frente, sem curiosidade nem estmulo. junto  tribuna, v de taramela entre o delegado e o Dr. Mateus, taramela pegada, na qual o tom spero e intercadente dum e o timbre claro e fludo doutro produziam na sala, cada em sncope, a sonora impresso que se tem ao descer curso de ribeirinho, canta aqui, cachoa alm. O delegado, muito rechonchudo e prspero, com rijas amarras na catlica -  caa, de sala em sala, de famlia em famlia, de praia em terma, duma herdeira opulenta _, era-lhe simptico embora pusesse em grimpar um ardor que lhe fazia sombra, homem com hbitos e moral do tempo das diligncias. j aquele Dr. Mateus, com razes na Repblica, mao, batido no foro e voz de veludo, a lembrar pelo perfil e a cor ruivana do cabelo um cabo de faca, estes cabos de faca que a fantasia dos cutileiros monta em pernis de cabra, lhe era supinamente intolervel. Porqu? Por todas as razes e mais uma. Bastante, talvez, porque militassem no transe actual nos plos opostos da poltica; o Dr. Mateus fossilazara na soluo democrtica, exclusiva e impermevel a qualquer aura vivificadora, e de tal cristalizao  acessrio infalvel o dio poltico. Muito, pelo que em seu gnio havia de avesso contra a aura universal " homem recto, duma s pea, talento privilegiado, senhor re-

A BATALHA SEM FIM                     183

querido pela distino em todos os chs e salsifrs" que consagrava Mateus uma sorte de heri tripartido, Cato, Robespierre e Brumel da cidadezita adormecida a ver as guas do Lis correrem para o mar. Porventura no pouco, merc do refluxo subconsciente de zunzuns cavilosos que atribuam quele cavalheiro intromisso infamante no seu lar  data em que, correligionrios e

colaos, representavam Leiria em S. Bento. Por estas e outras maravalhas o detestava, hostilizando-o at onde lhe permitia a boa compostura social e o justo receio de conflitos. Correspondia-lhe Mateus com ptreo e intolervel desdm, um desdm estpido a poder de olmpico, no foro, vendo nele apenas uma pea da mquina judiciria na sociedade, inclusive nos centros de cavaqueira em que se enterram vivos e desenterram mortos, como se no fosse deste mundo sublunar. Semelhante menoscabo - nem sequer dizer mal dele' - no tinha perdo. Mas, acima de tudo, bulia-lhe com os nervos o culto que merecia a republicanos e talassas, bastava ver a blandcia com que o Raminhos, delegado, sempre de olho gzeo no segundo plano das coisas, revirava para ele beia afvel e amorosa.

Em expectativa, Adolfo Serzedo, o advogado da acusao, simultaneamente homem de foro e conservador do Registo Civil, fincara a fronte contra os cotovelos e parecia dormir. Plido, lustroso sob os cosmticos, todo se derretia para "o meu querido doutor juiz" em arnns e rapaps. Mas nem  oiro tudo o que reluz, nem farinha o que branqueia. Poeta nas horas vagas, era, como de ordinrio em gente delico-doce, de maldade mais Cauta que o dormir dum tigre. Fora este pandilha o autor da correspondncia para o Alfacinha, em que se pintava de extorsionria a demanda que movera a certo lavradoreco, confim seu em Cho do Couce. E, todavia, nunca lhe fizera mal. Quando a sua gente tomou conta do Terreiro

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do Pao alimentara o propsito,  verdade, de recomendar para aquela Conservatria o filho dum colega que tinha empenho em servir. Mas acumularam-se as pretenses, algumas de tomo, e sentindo o ministro, jent ooAsinus Dez, interessado pelo Serzedo, deixou no fundo do bolso a requesta. Se, depois, o despacho dilatou, para a no meteu prego nem estopa. O mariola, entretanto, porque tivesse pulga na orelha do seu primitivo intento, ou por esta gratuitidade que atia os perversos e os asnos, publicava a bacorice, acoimando a expropriao dum enclave que lhe desfeava a fazenda e prejudicava o servio de regas, corrente em pas civilizado, de "assalto  vinha de Nabote". De princpio assentara para consigo que a

local era da forja do Lucas Palcio, malandro na quinta casa, com quem andava de testilhas. Mas, uma bela manh, apareceu-lhe o P.' Lcio, em riste um destes livrecos nefelibatas, atado com uma fibrinha de rfia e impresso em papel pardo de mercearia. Eram as Fcsias e Glicinias de Adolfo Serzedo, pelo punho do prprio dedicadas: ao Padre Lcio Rodrigues, dilecto amigo, espelho de sacerdotes. Com dedo subtil, o dedo afeito s pginas finas do brevirio, o reverendo foi voltando as folhas e apontando as passagens que sublinhara a lpis:

- Leia, senhor doutor juiz. Vossa Excelncia vai

lendo, senhor doutor juiz... ?

E ele foi lendo, saltitadamente, frases ou elementos de frases colhidas na Bblia, perfumados e doces como favos de mel, embora mais corriqueiros que os seixinhos das praias: a rosa branca do Sron, os merencrios peregrinos de E mais, a sombra avara dos tamarindos, o meigo rabi, a

castel loira de Magdalo, a vinha de Nabote...

Hem...? - berrou ele, como se o picassem em cicatriz mal curada.

- Conhece agora o nome do seu agressor? - proferiu o P.' Lcio, glorioso.

A BATALHA SEM FIM                     185

- L isso...
- Oia, doutor juiz: em Portugal, actualmente, h apenas dois profanos que se servem do florilgio hebraico to bem como Vossa Excelncia do Cdigo e eu do ripano, o poeta Santa Clara, que tem a bno do patriarca, e o Adolfo Serzedo, que tem prima tonsura. Isto da Vinha do Nabote, que no  o Ferro de Engomar, s

podia acudir ao bico da pena dum dos dois. Ora, sendo o

poeta Santa Clara, alm de pessoa de bem, estranho ao

meritssimo juiz de Leiria, o...

- ... o autor da velhacada foi o Serzedo. Sim, a sua

deduo parece-me irrefragvel, teologicamente irrefragvel. Espere... Est-se-me fazendo luz no esprito. Atinou, foi ele.

E fora. Dias decorridos, o Palcio velo em pblico e

raso lavar mos do artigo da gazeta. A sua mgoa era no haver destorcido a meada a tempo e horas, que punha a

faca ao peito do ministro e o traste to cedo no assentava a rabadilha de oficial na poltrona da Conservatria. Ambos davam o apoio  ordem nova... teve de pr pedra no assunto. Mesmo assim, ainda que o Serzedo desenvolvesse o maior fervor em ser-lhe agradvel, como se

tivesse a peito reparar um dano ou sustar espada a despedir golpe, sempre que encarava com ele, como agora, ficava-lhe o sangue a ferver.

Em face divisou os rus. Eram quatro, trs homens e uma rapariga, e, pelo achavascado e negrido, pareciam as caras, a charriscar entre labaredas, que se vem nos retbulos das alminhas do Purgatrio por essas estradas. Os homens observavam-no. Observavam-no, bem se

via, assombrados da sua importncia, com esse olhar fixo e indiscreto das pessoas simples, mais fundo que a gua choca no fundo das cisternas. A raparigota, sem frescura nem graa, ainda que por ela no houvesse passado

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primavera, essa, duma mobilidade desconcertadora que se traa no olhar, no estava ali nem em nenhuma parte.

Ficavam-lhe no campo visual as fisionomias dos rus e, a sossegar ainda das convulses da tosse, entreteve-se a espreit-los por debaixo da mo em pala, no antegosto de quem vai dissecar n anima vili. De representao havia apenas aquele Duarte Rebocho, por alcunha o

Lavagante, que alara um remo da bateira com a limpeza com que ele pegava da bengala para se encostar, e reduzira a grude o crnio do mestre. Manpulas assim

imensas e espatuladas nunca vira. Metiam medo. Predestinadas ao crime, por certo; afeioadas, ainda, a domar a vaga como os ps dos albatrozes. Condiziam com o arcaboio e cabeorra afrontada e redonda, entre toiro e

rochedo. Pobre fera, uma vez nas garras da justia entregara-se mais submissamente que um borrego  tosquia. Nem denegaes, nem subterfgios. Investira com o

Vermoil como contra um mar alteroso. Ali se mostrava impermevel ao remorso, impermevel at em sua natureza ao ar mefitico do calaboio, mais fixa que pano de rs a sua tez, curtida pelos sincelos e as geadas. O crime passara sem lhe deixar ganga na conscincia, inapta a

sofrer a menor filtragem da moral e da religio. Um homem de h milhentos anos, anterior a Cristo. Perigoso, soberanamente perigoso, porque s tinha a rdea da natureza a governar-lhe o instinto. Eram estes, trabalhados pela ambio de se resgatarem da lei da misria, os soldados futuros do bolchevismo, os que em sonhos esvaziavam as suas cubas e rilhavam a febra dos seus leites. Olho neles! Os outros, aquele Passafome com fcies to hirsuta e encarquilhada que dir-se-ia a

caricatura da mofina, aquele Afonso Penela com a ris a faiscar no remoto das rbitas, eram produtos genunos destes tempos sem rei nem roque, comparsas levados como palhas na refega de fria do Lavagante.

A BATALHA SEM FIM                     187

O oficial de diligncias procedia  chamada e o senhor juiz, podendo respirar com desafogo, foi considerando as

testemunhas e, por automatismo interior, pois as conhecia dos autos, reconstituindo,  medida que transpunham a tela, a sua identidade.

Remgio Dias - baixo, membrudo, encaixilhava-lhe a face e o toutio uma felpa branca de carneiro

velho. Nas orelhas e superclios, musgo ou coisa que o valha. Um beberro com oitenta anos, so de trax como as pipas bem avinhadas, apenas encostado das pernas a um pauzinho de zimbro. Nos olhos duas safiras brilhavam at o deslumbramento. Cabea de oceano, das que se vem ainda nos azulejos das cascatas. Empregava-o o

Vermoil a consertar as redes, funo em que era mestre.

Lzaro Brs - o garnacho de sempre pelas costas, mais uma gravata de elstico desta vez. Dava ideia duma alma de gato-pingado, feita das sombras dos covais entrevistos, do parado dos mortos e de grande comiserao humana. Nocivo, por se tratar duma espcie de cartaz do sofrimento que incita os parvos e visionrios  revolta.

Laura Bica - dezanove filhos de vrios pais, vivos, enjeitados, mortos. Um focinho de coelha pelada. Trazia lgrimas nos olhos ramelados e limpava-se  ponta do leno roto.

Barnab de Quiaios - magro, sinuoso, entre enguia e musaranho. Embora escanelado, a sensao que causava  de que no tinha ossos. Mosca amarela sobre a maxila esquerda, eriada como tentculo de lagostim. Um belo sinal de judas! Na deposio forcejara por ficar bem com Deus e os poderes constitudos e no se indispor com o Diabo, a arraia, que em seu foro j absolvera os rus. Ali estava ele a entrar e a responder  chamada de esguelha, furtivo sempre.

Jos Rodrigues - farda de fiscal, desbotada pelos sis

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e molinhas do mar, mas denotando certo esmero. Ar pacato; destes que no aparato da fora, excepcionalmente, quedam povo. De tal barro sero os homens que amanh comero e bebero nas adegas dos ricos.

Lus Mira - suas na face, alcatroada pela salsugem marinha. Olhar tmido, porm directo. Um levantisco,

a mais a gravidade. Os que representam pela vida de trabalho o lamentvel libelo dos que nada fazem. Felizmente, para acusador, mal sabia ler.

Teresa Charana - a fome, a fome negra num rosto de ave de rapina. Escamas na pele, misturadas ao surro, se no nascidas por mimetismo de eterna mulher dos levadios. Punha olhos no cho com este jeito dos pobres que, parece, teimam averiguar se  certo andar a sorte aos pontaps.

Joo Maria, o Savelheiro - brusquido e uma careta a dizer: que mar este' Um dos que assaltariam os seus tonis.

Francisco Pedrosa - pernas mais cambaias que cavernas de barco. Baixo, vermelho, olhos pequeninos e

verdes como bagas verdes de loireiro. O clculo e a

ambio suspicazes. Dos que defenderiam os ricos, no por convico ou respeito social, mas para no deixar de haver maiores miserveis do que ele.

Tristo Bau - calas arregaadas, com as cerollas sujas a espreitar por baixo das bocas em fio; sobre a camisola, sem tinta prpria, a vstia a cair aos pedaos. Garganta perra do lcool; rosto negro esfumado na nvoa grisalha duma barba de quinze dias. Malhadio na desgraa, no dia de juzo para os ricos pilharia um po e talvez da no passasse.

Joaquim Bica - em tudo o bom cornambana. Olhos espantados e doces; a boca de jacar arreganhada como grgula das chuvas. Pobreza por fora, por dentro, e C.a

A este choldra sucederam-se as testemunhas de de-

A BATALHA SEM FIM                      189

fesa. Era meio povo de Pedrgo, empenhado em salvar por trapaa e mentira, pois j se lhe no dava remdio, aos desinfelizes que num mau repente haviam chacinado aquele irmo. Estavam servidos com ele' Os homens esqulidos e tristes, as mulheres feias e srdidas compunham a escorralha do gnero humano em que, por malcheirosos *e coriceos, nem os peixes picariam, se varridos ao mar. De mistura com eles vinham os lunticos da duna: Eudxio, que j andava s mas do cho e

dentro em pouco, a poder de juros e mais juros, no teria de seu nem uma enxerga para se deitar; Algodres, a

quem no restavam seno as sombras dos caminhos; Alberto Marrazes, que arregimentara uma dzia de loucos e at a morte do Vermoil persistira em desenterrar o tesoiro. Dos trs, os fatos coados e encardidos, os olhos inquietos em que parecia arder recatada e remota chama, a magreira eram documentos vivos da obsesso que os

tomara. Que iam associados continuar com as pesquisas... j que a lei largava de mo os mentecaptos inofensivos, deix-los ir a pique' Mas aqueles homens eram espelho eloquente das foras de corrupo que trabalhavam a alma humana. Queriam enriquecer a todo o custo, explosiva, miraculosamente, e prendiam-se  miragem da fortuna, desencantada por varinha de condo, o que oferece bem mais sedues que o moirejar modesto e tenaz, virtude elementarssima do povo antigo, regido por Deus e o rei. Ah, cassem-lhe esses ambiciosos sob os mandamentos que ele lhes daria o arrocho Quem assim se desatinava a procurar um fantstico tesoiro, com a mira de satisfazer os apetites desordenados de grandeza, era capaz de roubar e de assassinar. O nico anteparo a

semelhante prossecuo estava na fora, bem embora minada pela demagogia e as ideias celeradas de igualitarismo. Ningum se resignava a ser pobre, a servir, a levar ao calvrio a cota de cruz que lhe coube na humanidade,

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e era o fim do mundo . Se o clero e o Estado se no davam as mos, adeus civilizao crist

Mandadas recolher as testemunhas, encetou o escrivo a leitura dos autos. Era a sua voz roufenha, ora descansada, ora espinoteante, da qual, salvo os rus por esta propenso bem humana de escutar a crnica dos prprios feitos, breve se distraram as atenes. Os advogados recaram no colquio interrompido, os senhores juzes a

meditar, porventura, na subverso    social como ele, ou no plantio do cebolinho, que era a sazo. Enfadados da jornada matutina ruminariam,  mais provvel, nos

bambrrios a que a recente reforma judicial os obrigava, julgadores errantes do crime. Um deles cabeceava, reclinado quase sobre o seu ombro, o outro deixava correr como monco de peru um ar profundamente morfanho e infeliz.  de crer que ambos, igualmente, se achassem to longe dali como da China, que no saberiam ao justo onde ficava.

Tambm ele se alheou da sala lbrega e da msera cambada. Ao regressar chamado pelo silncio do escrivo, viu o sol que, batendo de chapa nas vidraas poeirentas, iluminava de lindos tons prola os abdmenes das moscas que h anos ali tinham inviolado cemitrio, viu os olhos de febre para l da tela, as caras dos rus, submissos como reses de matadoiro, e pressuroso cavalgou os culos. Recolhidos os mais rus, o Lavagante, em

seguida s respostas do estilo, desatou o saco. O regalo dele seria apert-lo nas mos de ferro da casustica criminal e esprem-lo como a limo, pois que uma disposio feliz da Ordem Nova, inspirada nos sos principlos da defesa social, lho consentia. Mas o brutamontes, como a frutescncia da leituga que se espalha a todos os ventos, mal lhe bolem, no oferecia pega. Desencarnava-se na confisso e ele ficaria a espadeirar no vcuo.

- Sim, meu senhor, a gente estava a postos dentro

A BATALHA SEM FIM                      191

do barco quando apareceu a Inocncia a gritar: -- j tiraram o tesoiro! Eh l, j tiraram o tesoiro! Mal estas palavras ouviram, muitos homens pularam dos castelos e deitaram a correr pela praia arriba, direito  Cova da Serpe. Eu, assim Deus me salve, fui dos derradeiros a saltar. Pois que todos largavam com mentes de apanhar alguma coisinha, tolo era se quedasse. O Sol quando nasce  para o geral, sempre ouvi dizer. O tio Vermoil, que Deus haja, entrementes tinha agarrado dum estaqueiro, um dos rolos de pinho que servem para afocinhar o barco, e

fazia frente aos homens mais pecos a dar s gmbias, desancando neles a torto e a direito. j Vossoria viu um

homem que vai encontrar meia dzia de cabeas de gado a debulhar-lhe a horta e mi nelas como em pandeiro? Assim era ele. O tio Bau andava no cho, feito farrapo, o

Ambrsio pedia de m@os postas que o no matasse. Quando o vi crescer para mim, de baba nos beios, fiz p atrs e disse-lhe: "Faa alto, que eu obedeo! Faa alto!" Qual, tenteou o pau no ar e regougando: "Ladro, desamparas o barco, mas hs-de ir hoje dormir no meio do inferno!" jogou-mo  tola. Ladeei e foi o tio Pencla que o aparou na cernelha. Eu ento peguei no remo e meti-lho  frente, meio de travs, para nos no matar ali a todos, acurralados como estvamos contra a embarcao. Mas ele, cego, despedia golpe sobre golpe; trambolhou o tio Z Passafome; trambolhou a Rosa do Janeiro; pendeu como frana que levou machadada o brao do Carapinha. "0 alma do Diabo arrebenta comtigo", disse para os meus botes, e orcei-lhe o remo ao ombro. Se ele se mexeu, se abanaram comigo e a pancada desviou, para assim lhe acertar na cabea, no sei. Que os

ossos lhe ficaram amassados, s se admira quem nunca

lidou com remos que acabam de sair do pego. Aqui est, senhor juiz. L quanto a eu bater-lhe com os tios Penela e Passafome engalfinhados a ele, mais a Inocncia, era

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escusado. Dessem-me campo, que do tio Vermoil e de trs como ele, me desenvencilhava eu, brincando. Mas pode muito bem ser que, doridos ou tementes, aqueles companheiros se atirassem ao homem no mesmo instantinho em que lhe mandei o remo, seno uma unha negra depois. Eu c no dei conta. Basta dizer que a assuada levou menos tempo a dar-se do que tempo gasto eu

agora a cont-la. Foi uma desgraa, mas dela no temo as contas que hei-de prestar ao justo juiz.

O senhor presidente consultou com o olhar os colegas que pareciam dizer: " claro como gua." Pois que assim era, sem descer da testa os culos de oiro, proferiu num tom to ritual como as palavras:

- Oficial, traga o ru a seguir.
O interrogatrio do Passafome, Penela e Inocncia foi de corrida, no havendo surgido circunstncia nova em prol ou prejuzo dos incriminados. Apurou-se que a

raparigota, acusada de aular os matadores, o fizera movida de sentimento, ao ver o pai rebolar por terra, espancado brutalmente. Fora, alis, to embrulhado e rpido o motim que impossvel se tornava definir em seu decurso a posio de cada um e a sua relativa responsabilidade, salvante o Rebocho. Dentre as testemunhas, que foram desfilando de afogadilho e alguma luz projectaram sobre a tragdia, sobressaiu Remgio Dias, que carregou sobremaneira a parte do Lavagante. Segundo ele, "uma

vez o patro em terra, o dito Joo Rebocho, por alcunha o Lavagante, atirou o remo fora, dizendo:  um cachorro a menos no mundo! e despediu  desfilada pela praia a cima, rente ao mar. Ouviu-lhe as mesmas vozes Francisco Pedrosa, escrivo da companha".

Passando logo depois os advogados a instar a testemunha, incidiu toda a arte do Dr. Mateus em anular o depoimento comprometedor. De principio', com uma

constncia que chegou a dar a iluso de firmeza no

A BATALHA SEM FIM                       193

obsquio  verdade, manteve o velho as precedentes declaraes. Mas dois passes hbeis do defensor e ficou a nu a sua fantasia descuidada, seno a sua estpida m f. Estando ao alto da praia a consertar as redes, como era

prprio do seu encargo, a bons duzentos metros do teatro dos acontecimentos, tendo j declarado que no arredara p dali, como pudera perceber o que se dizia  beira-mar? Que o ouvira ao Pedrosa, terminou, titubeando, por declarar. Instado, Francisco Pedrosa aferrou-se  sua deposio e dali no houve meio de o demoverem. Escrivo do Vermoil depois de anos e anos, seu alter ego, manifesta parcialidade viciava quanto dizia. No corria o rumor de que ia casar com a viva? Brincando, como quem se diverte a torcer as pontas verdes dum ramo, por as no poder cortar, assim o mafarrico de Mateus amarfanhou o depoimento do homem. O escrivo da companha retirou-se dali a cheirar mal, muito comprometida a tese da premeditao sustentada pelo advogado acusador.

Mas este, sentindo-se em xeque, mexeu-se na cadeira e sorrindo, como quem est senhor de espada de muito bom ao para cortar to frgil n grdio, disse:

- Se o meritssimo juiz-presidente se dignasse fazer ao ru certas perguntas que cristalizaram no meu esprito com o decorrer do debate, talvez brotasse destas pederneiras a fasca desejada...

E declinou um rosrio de quesitos com a sua provvel contradita, o que fez sorrir os juzes pela enftica prolixidade.

O presidente hesitou um tempo de nada; com levssimo meneio da cabea, os adjuntos assentiram, no sem

um ricto quase imperceptvel de ironia ou enfado piedoso a borboletear nos lbios. O delegado, o impagvel Raminhos, que era do Ribatejo, tinha o ar de dizer: Toureiem  vontade, mas no me chamem para a lide. Le-

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vantou-se o Rebocho, e o senhor juiz de Leiria, depois de se ajeitar na cadeira, tossir, compor os culos, rompeu com toda a pausa, no tom resignado traindo a preocupao de reproduzir fielmente o requisitrio do acusador:

- Manuel Sancho, alcunhado de Vermoil por ser natural da localidade deste nome, governava, alm da companha de que era proprietrio, a companha do Algodres, mediante contrato que fecharam em tabelio. Em qual das duas companhas estava inscrito o ru?

- Na do Algodres; nunca conheci outra.
- Pelo registo da matrcula v-se que foi dos ltimos a ajustar-se, agarrado  esperana de descobrir, o tesoiro da duna, e que o fizera, dizendo: "Vou para baixo da pata do Vermoil, mas se algum dia aquele co me morde, com a gana que me anda a recozer c por dentro, trinco-lhe os fgados. "  verdade?

-   No me alembra. Se calhar  verdade. O tio Vermoil, ainda que parea mal falar de quem l vai, tratava os homens como escravos e no queria eu que me desabassem em cima da cabea as pragas que lhe rogavam. Se proferi tais palavras, no saram do corao.

- Entendido, o corao  de pomba, as mos  que so de assassino. Diga: era fregus na tenda da vtima?

- Sim, senhor. At l devia dinheiro como toda a gente.

- Devia l dinheiro... 1 E bom que se saiba. Muito ou Pouco?

- Para mim que sou pobre no era pequena quantia: cento e trinta mil ris.

- Claro, tinha presente a dvida quando matou o homem...?

- No tinha; se tivesse...
- Se tivesse... ? Diga...
- Se tivesse,  que um dia ou outro a havia de pagar. A resposta desconcertou visivelmente o acusador, que

A BATALHA SEM FIM                     195

se afundiu de nariz e lunetas nas resmas do processo. O senhor juiz Alonso da Cunha Leo quase se esquecera do seu papel, e esquecera-se de todo dos bolchevistas ncubos para gozar regaladamente a confuso do Serzedo, originada no seu duelo com o rstico.

- Declarou o ru - emitiu aps - que, aparelhado o barco, dada a voz de larga, apareceu a correr das bandas da Leirosa a Inocncia Bica. Estava, portanto, a

tripulao toda no Senhor da bfortuna?

-   Saiba Vossoria que toda, toda, no. Havia em

terra a gente que puxa  muleta e aos costados do barco e que, mal este desarranca, salta dentro.

- O barco achava-se na gua?
- O barco achava-se na borda, mas da at a gua o

levar iam muitos padre-nossos.

- No  o que referem as testemunhas - permitiu-se advertir o advogado com acrimnia. - O arrais no declarou que o barco, desamparado naquela altura,

corria srios riscos.

- O arrais no podia dizer tal, que faltava  verdade. A onda chapinhava~o, no haja dvida, mas ficar senhora dele s quando voltasse a mar. Fazia um mar de leite... A prova est em que o barco l quedou horas e

horas, no arredando braa.

- Questo de acaso. O que exasperou o mestre, entendido na nutica de xvega, era o perigo que corria o barco...

O senhor juiz retomou o seu papel de inquiridor, na

sequncia do requerido, atalhando a intromisso do Serzedo:

- Quantas vezes lhe deu com o remo?
- Uma s.
- No  o que informa a autpsia. A cabea ficou que nem pisada em almofariz. No se recorda de haver secundado o golpe?

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- No, senhor. Cado de alto, chumbado de gua, o

remo  como uma rvore ao derrubar. Britaria uma pedra quanto mais urna cabea@

Fazendo simulacro de consultar o processo, o Serzedo escolhia o caminho, ele, juiz de Leiria, bem cocava. Dois minutos empatou-os a voltar folhas, um minuto a resplandecer a luneta, outro minuto a descobrir os punhos encabados na toga, e l tornava, formulando de chofre:

- O senhor vice-presidente tenha ainda a bondade...
O ru sabia, pois, de certa certeza, que uma nica pancada fora suficiente para matar o homem... ?

O doutor juiz repetiu textualmente. Em resposta, o

martimo acenou que no. E ele ento, tornando calor pela primeira vez, confutou:

-  boa' No sabia e acaba de dizer que o remo, enviado de alto,  como rvore ao derrubar' Todas as testemunhas so concordes, subentendidamente, neste particular... - O senhor doutor juiz, que lanara a rplica em voz altvola e teatral, ps-se por sua vez a compulsar os autos, com o dedo molhado de cuspo dobando, nervoso, pginas sobre pginas. - Aqui est o Remgio Dias.. . Eu leio... - E repetiu o testemunho do remendo das redes, invalidado j pelo Dr. Mateus; repetiu o do Pedrosa, que se supunha ter electrizado o florete do Serzedo; rememorou outros que nenhum socorro traziam  controvrsia. Foi, no obstante, com

certo empacho que rematou: - Em face destes testemunhos, responda o ru: sabia ou no sabia que a sua nica pancada era bastante para matar o homem? V, seja verdadeiro! ...

Novamente o Rebocho acenou que no.
- Por conseguinte nega ter pronunciado a frase que lhe atribuem?

- Nego.

A BATALHA SEM FIM                      197

Mas no disse que o remo, despedido de alto,  como rvore ao derrubar?

- Sim, senhor juiz.
- Ento em que ficamos?
- O remo no lhe ia direito  cabea, mas sim  espdua, meu senhor. Sempre o julguei atordoado no cho...

O presidente, ante aquela voz humilde que protestava a sua verdade, que no arredava uma polegada do terreno, testo como jogador de pau, quedou um minuto

interdito, olhos nas pginas azuis a refazer-se, e proferiu, na voz mal contida clera:

- V dizendo comigo: sei que o remo... batendo na

cabea dum homem... mata...

Como recado, o Lavagante repetia. ... dei com ele na cabea de Manuel Sancho...

Dei com ele na cabea de Manuel Sancho, concordo, pois que os ossos apareceram esmigalhados e no consta que outrem lhe batesse com pau ou pedra, mas o

golpe ia-lhe para o ombro.

- Para onde ia dirigido ou no  questo secundria.
O facto capital  que lhe deu na cabea. Queira repetir: dei com o remo na cabea de Manuel Sancho...

- Dei com o remo na cabea de Manuel Sancho pronunciou o ru mansarronamente.

- Logo, soube que o matei. V diga, que s tem a ganhar com a confisso...

- Quita Vossoria de teimar. De minha boca no

saem tais palavras porque seria faltar  verdade - retrucou o ru com veemncia.

O juiz abriu para Serzedo os braos  maneira de Pilatos. O advogado percebeu que terminara a interveno e disse, com um gesto de quem pede vnia:

- Muito bem. Agora permitam-me os senhores juzes que eu sintetize: sabendo o ru que o remo era arma

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formidvel; convindo que lhe acertou na cabea... conclui-se que soube logo t-lo despachado para casa de Deus verdadeiro. Duas testemunhas so formais; as palavras que lhe ouviu Remgio Dias no nos deixam dvida alguma; a prpria lgica dos factos no autoriza outra inferncia. Pode-se l admitir que, estando o agredido a dois ou trs metros de distncia, o agressor ficasse a ignorar a parte do corpo em que lhe assestou o golpe? Que o remo derivasse ou no pouco importa. A justia, de resto, tem apenas que fixar o facto em si e no as intenes desde que no sejam demonstrveis.

O senhor juiz no compreendia o que  que o Serzedo pretendia alcanar com uma casustica aparentemente bizantina e capciosa. Pareceu-lhe que semelhante dialctica no tinha j outro objectivo seno o de ressacir-se das pequenas derrotas sofridas em seu amor-prprio. Sentia-o  beira do escorregadoiro e no ntimo rejubilava. Mas o bacharelote volvia  carga...

- Negou - proferiu com desabrimento - e eu vou

dizer porque negou. Negou porque havendo assassinado um homem cometeu a vilania de passar-lhe por cima do cadver e correr  duna na cobia do oiro. Adivinha o vituprio que lhe vem de to feita aco e, a justo ttulo, teme arrostar com a responsabilidade. O que no foi capaz de negar  que se tenha precipitado para o Pinhal do Urso, sendo um dos primeiros a chegar!

- No senhor, no nego. No houve ningum no Pedrgo que no fosse, salvo os invlidos; eu tambm fui. Sabia l que o homem estava morto.

Voltando-se para os juzes observou ainda o Serzedo:
- Sabia, mas mais forte que tudo, que a piedade, que a dor de conscincia, era a febre das riquezas.
O cadver, vergonha das vergonhas, quedou desamparado na praia mais de quatro horas, velado apenas pelo velho Remgio e duas mulheres meio entrevadas.

A BATALHA SEM FIM                       199

E esses no largaram porque as pernas no lho consentiam - resmoneou o ru. - Foi tudo, at a

prpria tripulao dos barcos do tio Vermoil, andando para mais os bois a tirar a rede do Lrio de jeric e estando o outro a aparelhar.

- Assim ser - interps um dos juzes adjuntos mas no  a leviandade dos mais que o alivia da violncia

que praticou.

Muita palha e pouco gro - assim podia qualificar-se o libelo do acusador. A ausncia de premeditao, adquirida pelo Mateus a favor do ru, continuava inabalada. Quanto a homicdio em legtima defesa eis o quod erat demonstrandum. O salafrrio do adv"ogado tinha recursos, mas, com os colegas e ele a julgar, dificilmente salvaria o passaro da gaiola.  parte um golpe de teatro, a sentena estava lavrada: pena maior para um, priso correccional para os outros. O problema agora era

de concluir depressa. . Sucederam-se as testemunhas de defesa. Alberto Marrazes, a primeira. Alto, largo de espduas, olhar inteligente, bem firmado nas pernas, maltrapilho, dava ideia dum chefe de quadrilha h meses a monte. Simptico, por isso mesmo perigoso. Ele e os colegas comearam a prestar  sua deposio o ouvido mais atento.

- ... eu andava no fundo do poo quando me vieram

avisar que ao longe, nas sementeiras, se distinguia grande audada de gente, dando s gmbias, direita a

ns. Saltei fora, dizendo comigo: foi o demnio da Bica que se iludiu com o espalhafato do Pamplino e deitou-se a toda para a praia a levar a novidade. Eu tinha-a visto um pedao antes esgalgar-se pelas limpaas fora e deu-me toque o entendimento que no ia a outro fim, pela certa incumbida de nos espiar. Naquela tarde o raio do Pamplino, coitado, tivera um ataque frentico, e as

areias que pisava aos ps para ele eram medas de oiro e

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pedras preciosas. Mas o alevante l vinha, tupa que tupa pelas dunas, to basto que ficava negra a branquido o do areal. Santo nome de Deus, era o povilu todo do Pedrgo, martimos e mulheres dos martimos, velhos, novos, at a miudagem com a casca do ovo ao rabo. L vinha o Pedrosa, e no parecia dos mais pecos a jogar as pernas cambadas, o tio Mira, o Lzaro Brs, desta feita

sem o gabinardol L vinham o Savelheiro, Tristo Bau, Carapinha e, um migalho atrs, Lavagante, Passafome e Penela. "A que vindes?", perguntei para os esbaforidos. "Tambm queremos do tesoiro", respondeu-me o Pedrosa, se no estou em erro. "Ide, ide l a baixo buscar a vossa parte", disse-lhes com mal disfarado ar de troa. Lanaram-se todos para a buraca, onde, falando com os meus homens e  vista da obra, reconheceram o logro. Lanaram-se todos, todos, no. O Pedrosa e meia dzia da companha do Vermoil, entre os quais contei o Savelheiro, puseram-se a ouvir o que lhes dizia o Rolo, que era o espia deles, e no ardera na primeira lenha como a estabanada da Inocncia. O Rolo est a que me no deixa mentir. S mais tarde  que vim bem ao fundamento destas coisas, mas o que digo  uma escritura; desafio o mais pintado a que me desminta. O Lavagante, ao voltar do fundo da cova, chegou-se muito ronceiro ao p de mim e pronunciou: " Ento, foi fbula descobrirdes o tesouro?" - " 'Homem, no vs as libras espalhadas pela areia!" - "Diabo, diabo!", tornou ele. "0 ladro do Vermoil atrancou-se-nos no caminho, foi preciso met-lo na ordem." - "Bateste-lhe?" - "Uma traulitada com o remo." - "Homem, nunca as mos te doam, que  um safado que s tem regalo em calcar a gente." - "Pois sim, sim, mas o excomungado no deixa de dar parte ao Posto e l vou para para o chelindr de Leiria." - "Talvez tenha vergonha e no leve queixa." - "Hum,  m rs!" Assim mesmo, senhores

A BATALHA SEM FIM                       201

juzes e mais doutores que me ouvem. Foi-se a gentaga corrida das vs passadas e eu maluquei com os botes: "Bonito, se tenho chegado ao tesoiro, no ficava um real para me desougar. Isto assim no pode continuar. Os espies tm de navegar daqui para fora." O primeiro a

quem me dirigi foi ao Rolo. Ele est ali dentro que confirme ou negue o que vou apresentar. Como Vossorias vero, se no sabem ainda, o Rolo  um pobre de Cristo que anda a pedir esmola depois que ficou tolhido dos braos. Era nos seus bons tempos um remador de cara direita. "Tio Rolo, oua bem o que lhe digo, v nesta mo cinco mil ris? V nesta outra um cacete? Pois vou-lhe dar a escolher. Se me fala com a devida lisura, leva o dinheirinho; se me engana ou me no conta a verdade toda, apanha uma carga de pancada que se h-de lembrar para o resto dos dias. Percebeu? Pois se percebe, diga l: que anda vossemec a fazer aqui na duna? Quem o mandou?" O ladro ainda quis fugir, mas eu abri-lhe os olhos e descoseu-se como saco mal cosido. Que andava a fazer? Ora, andava a espiar-nos por conta do tio Vermoil, que Deus guarde  sua benta ilharga. O tio Vermoil, sim senhores, no se espantem Vossorias@ O tesoiro a surgir debaixo da terra e o Rolo a pular  praia a

avis-lo. Bem ouviu ele as vozes do zorato, mas sabedor da demncia do nosso pobre companheiro, ou mais atilado que a Bica, no correu a foguetes. Quem lhe dava as instrues era o Pedrosa, que andava na maranha com o Vermoil, Savelheiro e outros, para nos assaltarem mal tivessem vento de que o bagulho estava a descoberto. Assim mo revelou o Rolo e assim o vo declarar neste tribunal, se lhes restar dez ris de conscincia, os que acabo de nomear. Quando nessa tarde vim ao conhecimento perfeito do que sucedera na praia, a morte do Vermoil, que o Lavagante me deu a entender recebera apenas um ensino, compreendi multas coisas que fica-

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riam para mim no escuro sem a conversa com o Rolo. Receoso de que me viessem levantar embargos na duna, fiquei calado como toicinho em saco. Depois, quando abandonmos a obra, pensei para comigo que era dever desvendar o que sabia. Vi que explicavam a clera do assassinado pelo perigo que corria o barco, ao desamparo da tripulao... No h erro maior. No, no foi por desampararem o barco que ele se atirou como um perdido aos homens. O mar, ouvi-o a muitos, estava nesse dia como a palma da mo. Verdade que, terreanho como

era, de gua salgada s conhecia a que lhe batia nos ps. Mas o barco nem lhe pertencia, nem ele em outros auges dera mostras, ainda que de ruins entranhas, daquele frenesim. Porque foi? Porque ele andava com ela fisgada para me roubar, mal o tesoiro viesse a lume. Trazia os seus a postos; trazia-os armados. O desespero dele foi que os homens do Senhor da MJortuna se adiantassem aos seus. Por isso, a arret-los, dava a matar. Por isso foi morto, senhores juzes'.

O homem finalizara passeando pela sala, varada de assombro, um olhar sereno. Os seus colegas, grandes bananzolas, torciam-se nas cadeiras comovidos. O Serzedo, com bagas de suor a cair do rosto, olhava em terra meio desfaado, meio confuso, como cavaleiro que tivesse dado grande bolu do seu cavalo de cortesias. Toda a sua dialctica se dissipara mais ftua que bolas de sabo num cu de procela. Em despeito da derrota do presunoso, em sua alma de juiz estava conturbado. O processo, com Mateus que sabia tocar-lhe o instrumento, estava julgado. Se estivesse na sua mo, apesar de tudo, condenaria o homem. Acima dos princpios, por mais

sacrossantos que sejam ou figurem, h que atender aos

interesses eternos da sociedade. A lei devia ser o homem e no uma instituio. Instituio, padece de todas as

quebras da categoria. O julgador  um andride. E

A BATALHA SEM FIM          203

melancolicamente, enquanto a audincia se arrastava por um longo e j sabido eplogo, lembrou-se do seu sonho matinal e, nos vidros bzios viu, como em diorama, as hostes vermelhas, de colbak pantafaudo na cabea, avanarem das estepes para as terrinhas patriarcais de vinhedos e cevados.

XI

Jos Algodres metera pela estrada, leva que leva, transido pelo vento que bufava rijo e glacial das bandas do mar. Ainda havia luz diurna, mas desde manh que a

nvoa, prenhe de borrasca, abobadando o cu, difundia sobre a terra um inconsolvel lusco-fusco. Sentia-se ao longe, na seca e contnua arcabuzada, estoirar a onda contra a costa. Cedo se anunciava o Inverno; no ia fora o

Setembro e j sincelos e chuvisqueiros, arrefecendo o ar e empapaando o solo, estorvavam a recolha dos milhos e as vindimas. Abibes e alcaraves apareciam pelos pauis, solitrios e desconfiados, a sonhar com o dilvio  beira dos charcos. Uns dias entre outros, desabrochava de rebentina um sol abafadio, de trovoada, este sol que nas

serras chamam das vboras, e a natureza ardia por umas horas. Crestavam ao rescaldo infernal as folhas tenras dos horteios e at as agulhas dos pinheiros. De norte a sul no se falava seno em prodgios: Virgens Marias que vinham  fala com os pastores no meio de penhas; bruxos que esampavam vilrios at ento com juzo; lobos que desciam em alcateia ao povoado; em partes chovera p de sangue pestilente. Parece que tinha cado praga na velha terra. Faziam grande destroo as malmas em homens e animais; reinava a fome; fugia a gente para o Brasil e a Frana, de socos e cotovelos rotos; voltavam as quadrilhas a infestar as encruzilhadas.

A agasalhar-se do gume do noroeste, o Algodres apertava s mos ambas a jaqueta sobre o peito, cara

A BATALHA SEM FIM                     205

enfronhada dentro da gola at as orelhas. Abafando-se por cima, descobria-se por baixo ao ar que lhe queimava a carne como brasa atravs dos rasges da camisa. As calas, de espantalho que guardou leira, no o protegiam melhor,  mostra as rtulas roxas, dum roxo sujo e macerado, e a cana do p sob os fiapos do cotim. Descalo, veloz, inflectido para a frente, dava a impresso de homem traquejado que roubou ou matou. E ele, se ia por ali fora,  porque a galgada branca daquela estrada fora a primeira que estivera na incidncia da sua febre de marchar, despedir pelo mundo sem norte nem destino. E l seguia silvado pelo vento, cada vez ouvindo mais ntida e irada a voz do oceano, Deus e o Diabo em despique, no dizer dum velho pescador. Curvas, ladeiras, descidas as levou no mesmo ritmo, olhos na tira branca do cho, largado ao instinto das gmbias nervosas. De salto, o marulho por detrs das matas f-lo retroceder  meninice quando o teso lutador, que era o

pai, governava homens com firmeza e mansido ourica superadas pelo mais sbio cabo do mar. Tinha amigos certos e verdadeiros aos quatro pontos e, por aqueles povilus  roda, compadres bastos como cogumelos. Mancebo que puxasse de duas regrinhas suas no punha mochila; ru por quem ele intercedesse no acendia muitos cigarros para o carcereiro. Tambm em peitas e larguezas consumiu o melhor do que granjeou@ Na liberalidade, na rijeza de nimo, no estar sempre pronto a jogar o corao para trs das costas, ningum lhe ganhava. Dias em que, assobiando, a nortada no Pinhal do Concelho parecia todas as sanfonas do mundo ao desafio, vinha  varanda do escritrio ver o mar naquela sua

eterna teima de meter  terra os tampos dentro. No raro

sucedia tanger o bzio. Na garabulha das mulheres que, medrosas, batiam o dente e invocavam os santos advogados, dizia para os homens:

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- Tendes confiana em mim? Ento, toca a aparelhar que vamos apanhar pescado que at a rede rebenta de farta.

E l iam. Seu pai, como sempre, ao remo. Braos cabeludos e encorreados tais carvalhios revelhos, jogando com inaltervel cadncia, sem que se lhe ouvisse arquejo, sem que lhe orvalhasse a testa a mais leve camarinha de suor, ao seu alento o barco saltava por cima das ondas que nem toninha. Das vezes que saam

com mares arrebentadios e os martimos do Vermoil se despejavam pelas tabernas a jogar o liques, mais prudente o regedor que o mestre, o mestre mais tremelicas que o mulherio, nunca por nunca lhe acontecera percalo de monta. A companha pulsava por um s corao e este desluzia o prprio ao, no houvesse dvida, mas acima de tudo marcava a cincia de seu pai. O grande bruxo cortava nos segredos do mar melhor do que em letra redonda e nunca se enganava no crdito que era legtimo atribuir s suas bonanas ou frias. Porque si tambm, com mar de rosas dar alta  companha. Os barcos do rival, mais sfregos que bcoros  bolota, madrugavam a demandar a boa terra de pesca, e tanto o Vermoil, que de gua salgada percebia ainda menos que de latim, como o Savelheiro, afoito mas estarola, riam sob a capa daquela folga. Mais duma vez o sorriso lhes murchou na cara lorpa que o temporal surpreendia-os de repelo e no havia santos na corte celestial a que no pedissem misericrdia. Aconteceu at numa dessas sadas com falsa calmaria quebrar-se-lhes o rooeiro e o barco,  flor das ondas, danar tal dana que o uivo dos tripulantes se ouviu s quatrocentas braas e fez pular quanta gente havia no Pedrgo para a beira-mar. Era o Lrio de Jeric, dias antes reforado com duas cavernas novas, calafetado e pintadinho que nem o santo S. Miguel das Areias. Mas que valia, martelado por grossos

A BATALHA SEM FIM                      207

mares, sem governo, jogava como bero de menino, arrastado na ressaca para o baloio das ondas turbulentas. 0- -ritos na praia varavam as pedras, Quem os havia de sal@,ar? Em casa, ao rs das sementeiras, seu pai, mal teve rumor do sinistro, correu  praia. No foi mester muito terripo para que avaliasse do lance e deliberasse consigo e com Deus. Safando botas, vstia e calas enquanto o Diabo esfrega o olho, arremessou-se  gua. Nada que nada, cada bracejo que a varrer a onda parecia gadanha em campo a abater feno, sob a vista do povo aflito, que gemia aos seus mergulhos, respirava quando volvia  tona, ora sacolejado por uns mares, ora furando outros melhor que espadarte, l caou a ponta da boa que pde amarrar contra o odre com n bastante para, firmando-se discretamente, meterem o barco ao varadoiro. A proeza deu que falar e at chapinhou para as

gazetas. Tinha alma por sete e, porque assim era grande, dir-se-la que se distribua pelos mais pescadores como a de Jesus no lago de Genesar. Homem de chao' A misria desertara do Pedrgo com a espinhela quebrada, que o mestre ao p de si no consentia desgraas. As redes a abarrotar de peixe e as rapolas a chover nos joelhos dos pobres. Tambm parecia obra da graa divina as ricas cuadas que arrastavam. Caranguejo o que bonda para contraste, ento, cada sardinha que uma s, assada, ensopava em pingo uma fatiaa de broa. A delcia com que ele,  volta da aula, via o saco repleto cuspir seu aljfar ao ar, mais vivo que, em caneca depois de encher, os espritos dum vinhinho de latada' Era o

ai-jesti da praia, atentos almocreves e peixeiras a trazer-lhe, das terras por onde batiam, brinquedos e as primcias dos pomares. Para ele se desfaziam igualmente em

amns os fiscais do Posto. Se o mar arrojava  costa despojo opimo, esqueciam-se da lei para o menino ter o seu quinho. Ricaos em vilegiatura levavam-no para os

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palacetes, sentando-o s suas mesas lautas. Amimavam-no todos com desvanecimento do pai, que retribua de mo prdiga aqueles afagos. Acabou-s& Agora ladravam-lhe os ces, apenas porque lhes metia medo. Arrematada em hasta por dez ris de mel coado, a sua

companha pertencia ao Pedrosa, que casara com a viva do Vermoil. Tinha at crismado os barcos o grande flibusteiro, passando o Drago do Mar a chamar-se Cristina do nome da mulher que no esperara que o corpo do primeiro homem fosse comido pela terra para se unir a outro.

Cismando, se entristeceu e chorou; chorou, primeiro, sobre si, errante ningum; depois, sobre a pobre gente que acalentara da misria meses e meses ao calor do seu sonho. Tinham fome, como ele. quela hora, muitos no teriam engolido bocada de po, como ele. Com o temporal que frigia, estava a ver a praia mudada em

picadeiro do vento. Recolhidos os barcos ao alto ou s arrecadaes, os remadores jogatilhavam pelas tabernas, beberricando. Nas barracas, as mulheres aqueciam-se a

dois chamios, de que o pinhal era tulha farta, louvores ao Pai da vida, com os filhos nus ao colo. Um ou outro velho, mais regrado de hbitos, urdia galritos para os

mercados de Monte Redondo e Leiria, ou destas redes para a pesca costeira, que nunca mais se acabam de emalhar. Mas que Ia ele fazer ao Pedrgo? Nada, que fosse de considerar. Mas que ficaria a fazer noutra parte? Igualmente nada.

Como autmato desatara pela estrada fora, sem rumo nem fito, depois de vaguear pelos quelhos da Ervedeira, perseguido pelo desespero do Eudxio Blxolim:

- Larga, maldito, larga! Se no queres a tua perdio e a minha, desaparece-me da porta. Foste a praga da minha casa. Foste, foste tu, e mal haja a hora em que te dei ouvidos'

A BATALHA SEM FIM                     209

E bem maldito era, que o scio sempre livrara do sorvedoiro uma casucha para albergar o cadver e conservava a gana de trabalho que ele no possua. Que lhe fora o coveiro dos bens, abbora' Podia mas era ter-lhe enchido as arcas com uma fortuna fabulosa. No fosse a caipora da sorte teriam h muito desenterrado o tesoiro. Caipora ou anjo mau, pois, ao tocarem o lastro da duna, fatalmente ela se assapava. Assim lhes acontecera, aps suados e tressuados trabalhos, um ror de vezes. Na ltima tentativa, de gorra j com o Marrazes, haviam consumido, Vero fora, as restantes propriedades do Eudxio. De novo, a alavanca tangera nas arcas. Um grito de alegria sobre-humana escapara-se do peito dos doze homens que lidavam na escavao. E, como de sempre, o madeirame abatera com horrvel fragor, pondo-lhes a vida em srios riscos. Mandinga das mandingas, dir-se-ia que tocavam cho movedio, sobre o qual a

areia, o desmonte, os pinheiros e os homens se punham a

bailar. O Eudxio retirara a arrancar o cabelo s punhadas. No queria saber mais da duna, no queria que lhe falassem mais no tesoiro', Soterrara, sem falar na onzena amealhada, o grosso patrimnio que lhe legara o pai, acrescido de mercas e benfeitorias. Milagre fora salvar a

cardenha com duas aguilhadas de terra para conhecer ano. No entanto ele e o Marrazes, que corria Ceca e Meca  busca de scio, estavam na disposio de prosseguir, prosseguir at pr as tripas ao sol ao tesoiro dos frades ou deixar ali a alma que no prestaria para mais

nada. Escarneciam os estranhos? Dobrado prazer se

viessem a dar o bofeto nas bochechas estanhadas do mundo. Porque to convencido estava hoje como ontem

de que a duna retinha nas entranhas as preciosidades de Santa Cruz. Quando no fundo, no remoto fundo da conscincia, uma voz tmida, como de intruso, se atrevia

a acoim-lo de louco, acudia o homem de f manejando a

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sua lgica como uma clava. Vencer o cptico no foro
interior era, porm, o menos; era preciso venc-lo  luz do Sol, desencantando o tesoiro, para corroborativo prprio e para que se soubesse que tinha razo. Nesse empenho pesava menos a soma de bens que lhe caberiam em sorte, que uma espcie de personalismo platnico a satisfazer - brio, vontade, entendimento, a cara com que vinha  varanda de Pilatos. De verdade, as riquezas, que, no havia ano, se lhe deparavam como trampolim para a margem dum outro mundo em que se revia felizardo entre os felizardos, escasso engodo lhe ofereciam agora. Teria o maior regalo em aparecer ao Eudxio com os bolsos cheios de pedras finas, estas pedras que valem uma herdade, e dizendo-lhe: "fui eu que o lancei na misria, meta l esmola para o surro! ", despedir pelo' casebre dentro, como quem semeia feijes, as gemas, as prolas, com que pudesse botar senhoria e erguer palcio. No lhe seria menos grato exercer para com a rebanhada dos tristes e necessitados o mester de segunda providncia, visto os grados da Terra, quer leigos, quer eclesisticos, estarem convertidos nos tempos correntes de venha a ms em figueiras sfaras da Escritura. Mas, pois que perdera Filomena, rompera-se o mbil que tornava particularmente ambiciosa a sua empresa. Cegos os olhos em que os seus, como no mar alto, se embriagavam de imensidade; aviltada a boca em que os seus beijos pareciam ter florido e desatado em perfume que nunca mais deixava de correr, a vida quedara-lhe falha de sentido. Figurava-se bichado por dentro como velho tronco duma rvore que j no sente a Primavera. O que restava era a forma andante, a carga de carne e osso.

Fora uma irremissvel calamidade aquela, para que conspiraram todos os gnios adversos. A duna trouxera-o algemado como um galeote; insucessos repetidos haviam-no desprovido de recursos com que cometer o lance

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de arrancar Filomena ao tremedal que a engolfava. Bem chamara ela, decorrido o dia emprazado. E acabara por considerar o seu silncio como renncia, rendendo-se afinal s splicas dos pais e conjura de vizinhas e comadres.

Intil chorar pelas cebolas do Egipto; ) se lhe no podia valer. A ela, no lhe desejava mal. O Sebastiana, esse, que desse, o menos tardar, tantos pinotes no inferno como de saltos deu o seu corao ao receber a funesta novidade. Por um sentimento de respeito com a

antiga amada, decoro prprio, no lhe rogava a praga tradicional em esbulhos de amor: "Tantos paus do ar lhe

nascessem na cabea que houvessem de o confundir quem o veja com o galheiro das panelas. " A semelhante metamorfose no estaria votado, merc da ndole de Filomena que era s e escrupulosa. Mas ela no podia gostar dum tragalhadanas, torto do corpo e da alma, embora se equipasse de grevas e de motocicleta. De resto, que gostasse ou no gostasse, pouco lhe importava. As vaidades so de curta dura. Com a velocidade a que iam as vidas, breve teria o consolo de ver Filomena triste, velha e feia e gebo de todo o tangaril. O corao precisa destas vinganas e elas cairiam certas, to certas

como a lagarta nas couves depois de lhes poisar a borboleta. A morte, senhora na Terra e no Cu, ditaria a

ltima palavra, Todos os dias se acaba o mundo para este, para aquele, tambm se havia de acabar para o

Sebastiana, para ela, para si. Olhos cispados debaixo do barro, nada mais era amor, cime, ambio. Por muito grande que fosse, a sua dor resultaria em p, e pronto!

Na eminncia do macadame, que olha a aldeia e o mar sem fim, suspendeu-se, considerando: " Mas que vou eu

fazer  praia?" Ao mesmo tempo estancou-se-lhe o fluxo dos pobres pensamentos, como se a corda interior sofresse quebra. Uma ternura alvoroada, sorte

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de osis branco na sua negrura, impelia-o a rever os lugares em que passara o largo e descuidoso trato da adolescncia. Refreava-o, porm, a vergonha de si prprio e o sentimento de quanto de infantil havia em suas passadas, Indeciso, cabea a balanar-se dum lado e doutro, inflectiu  esquerda pelos bastios novos dentro, rente ao grande pinhal, ripando aqui e alm os grumos das camarinheiras, primeiro ao desfastio, depois com porfia de esfomeado. Poucos bagos se podiam comer, soicvados pelo Inverno temporo. A camarinha  inimiga da chuva e apenas uma ou outra, ao abrigo, tinha ainda forma e cor de prola e o travo delicado de framboesa e uva branca. Quem lhas dera como elas so em quadra favorvel, verdadeiro man que a graa de Deus reserva por aquela corda adusta ao caminheiro das dunas! Parecem, ento, grandes gotas de orvalho que os sais da atmosfera atlntica houvessem embaciado e so um milagre de frescura. O regalo  encher a concha da mo,

como se apanha de fonte a clara linfa, e atafulhar-se a gente  boca cheia. E no h sorvete comparvel.

Respiga que respiga pelas camarinheiras, sentiu na

estrada o metralhar dum motor. Afirmou-se e quem reconheceu? Os desposados, de mota. Dobravam o cerro a todo o pano; Jlio de calo, jaleca de coiro, grandes sobrolhos de vidraa, encabritado ao volante, hediondo e magnfico que nem monstro voador, Filomena no cestinho, direita e gozosa, na cabea o turbante, de pontas a

esvoaar como asas. Mal apareceram desapareceram, e

pouco a pouco o crepitar da mquina foi diminuindo, enfraquecendo, reavivando-se nas lombas para se extinguir de todo na distncia. Voltando a si, amaldioou-os. Pareciam felizes e a felicidade deles, penetrando-o, encheu-lhe a alma de trevas. Oxal o cavalicoque de ferro os despejasse por urna ribanceira a baixo, onde nem osso lhes ficasse direito! Aquela mulher agora era-lhe odiosa.

A BATALHA SEM FIM                     213

Mais odiosa que o execrvel Sebastiana. O lume que lhe distinguira na face, de jubilao interior, harmonia perfeita com o destino, reverberava na sua, infernalmente comburente. Eram todas as mesmas cabras, uma vez

saltadas as cancelas da vergonha.

Deix-los ir pelo caminho plaino, mais fugazes que o

vento' A sua hora soaria. O que precisava era coragem, doida, indmita coragem, no bem e no mal, para dar o

seu salto vingativo. Coragem.. . ah, e andava ali, pelo descampado, de corao a rastos! A qu? A colher camarinhas... ? Nem isso. Havia-lhas estragado a friagem, extorquido mateiros, caadores, e os minsculos insectos, vampiros gulosos que voltejam sobre elas como

sobre a vinhaa das adegas. Mas ia ou no at  praia? Um segundo ouviu a msica combinada e rolante do vento, dos pinhais e do mar. H migalho que no a

ouvia por uma estranha abolio da sensibilidade. Vento, pinhal e mar eram adversrios declarados. Na natureza, de resto, as amizades eram raras. Aquela faixa de rvores, face ao oceano, estropiadas como se as derreasse cilindro, bradavam ao cu de sofrimento. O carrasco era o mar. O mar bramia, encapelava-se, sacudia de si patos e alcatrazes, homens e naves, obrigava a sua

fauna infinita a buscar os fundos repousados; de quem o

azorrague seno do vento? E o vento que uivava de noite com vozes de assassino e assassinado? Tudo assim  superfcie da Terra. Que mais era seno estrumeira de dor a povoao encavalitada em baixo,  superficie da duna, com casebres de ripa assentes em mataces de pedra, e raras casas de alvenaria, tristonhas  beira do macadame?@ Em volta, os quintais, com os renques de samouco e tamargueira sempre verdes, denotavam pela cor engairiada e opaca uma natureza endolorida. Afundidos por detrs da duna, defendia-os o negregrado do perrexil que esposa a areia, rende-a, anda metros de

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subsolo  cata de lasim ou saibro rijo em que sorver a pitana necessria. Acima do combate da vida e da morte, sentia-se mesmo assim uma vontade: o homem. Cem anos antes, aquela paragem compunha-se apenas de cachopos  flor das ondas e areia, os efmeros e errantes montes de areia. Ningum lanava ali redes nem assentava outra planta alm da do caador de gansos bravos. Certo dia, um primeiro pobre viera com a sua enxada, depois segundo com o seu espinel. Plantaram tenda e pouco a pouco a vida arvoreceu no lugar inspito. Prodgio: as dunas deram lenha, vinho e po; o mar pagou tributo. Ah, inteligncia e querer fazem o que lhes apetece; domam as guas; animam o ermo; tornam em vergel o pedregal. Grande e maravilhoso demnio  o homem'

Como se acabasse de ser reintegrado nessa fora invencvel, bateu o p no cho, de arranque, ao jeito de quem aposta esmagar o mau fado. Com aura optimista desceu o macadame que, em cinco minutos de passo cheio, leva  praia, s ento se recordando que o Marrazes lhe marcara l o encontro.  altura da casinha, que o abrigara a ele, aos seus sonhos, ao santo do seu velho pai, fechou os olhos para a no ver no esqueleto carbonizado. Que valia' No fundo das rbitas, levantava-se mais

vincada em negrido e misria que a cu descoberto, clamando justia. Acusava-o. Fazia-lhe horror como

alma do outro mundo que pensasse  de cima da Terra. A fugir ao fantasma deitou quase a correr. Chocou-se

com umas rapariguitas bexigosas que desembocavam na

estrada com molhos de tangos  cabea, e que se sumiram espavoridas, alijando a carga, detrs dos quintais. Em face da cardenha da tia Bica, deu de cara com o Rolo mendigo que, ao contrrio do vezo, no desatou na

lamria de pobrezinho. Sentiu, divertido mas no sem amargura, perante o facto inslito, quanto o seu aspecto

A BATALHA SEM FIM                     215

devia ser deplorvel. Passou mais casas, mais pessoas, salvando a medo e de relance. Seres e coisas mostravam

 um tom un orme de alambre. Haviam-no pincelado as intempries - sol e carujo - e os xidos do mar. E to entranhado e forte era que resistia a todas as tintas da porcaria, envolvedora e vasta como elemento. Ao abrigo dos muros, com o chambre das mes pelos ombros ou a jaqueta velha do pai, crianas ranhosas batiam o dente. Exibiam as do sexo masculino vergonhas muito vermelhas e barrigas enormes das panadas de fome e de broa. Pela boqueira da porta entreviu as Penclas a espiolharem-se; a filha catava a me e s pela ligeireza dos polegares se adivinhava o pululamento da bicharia. Mulheres iam  fonte, vinham da fonte, vestidas de trapos escuros, gementes e penitenciais. Dir-se-iam vivas a lutar com a imagem dos seus defuntos. Segurava ao leno de algumas o chapu de veludilho com espelho ou

penas esfarripadas de canrio e de pavo. Mas no traziam canos, abafo supremo e caro das mulheres remediadas. Uma voz repercutiu:

- Ail, ti Charana, quer que lhe v pelo cntaro? Entre vocativa e chorosa, dir-se-la, levada na regaada do vento, espremida na caixa de msica do vento, um

soluo trmulo e altssimo, feito de marouo, choro dos pinhais e pios de ave ferida.

Na taberna do Pisco, o Algodres espreitou e, no descortinando freguesia, atreveu-se a entrar. Acudiu dos fundos da casa a tia Rosa que, ao encarar com ele, proferiu:

- Voc por aqui?... Ento o tesoiro, ficou em v-lo-emos!? Mal empregada sorte que o pai lhe deixou'

Depois de encolher os ombros e abrir os braos em sinal de fatalidade, disse, como lhe parecesse a mulher bem disposta:

- No apareceu por aqui o Alberto Marrazes?

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- Afigurou-se-me lobrig-lo h nadinha.
- D-me a senhora um copo de vinho e um bolo de po?

-  E tem com que me pague?
- Comigo no trago dinheiro; mas, se Deus quiser, no queda por pagar.

Mediu-lhe a tasqueira o vinho e do armrio puxou o

po. E logo ele se lanou a comer com tanta voracidade que ela proferiu:

- Parece que vem com fome de oito dias...
- Com fome de oito dias, no; mas olhe que desde ontem, pela tardinha, que no entrou coisssima alguma na minha boca.

- Desventurado' Aquela palavra, ao mesmo tempo que o melindrava, era-lhe cariciosa.   Pela primeira vez, cristamente, algum se condoa dele. E, a ceder  necessidade de expandir a sua amargura, ia a confessar-lhe que, sim,

era um grande desventurado, quando ela virou costas, levada-, tep, tep, pela tamanquinha palreira.

Emborcou o copo de vinho e, aps procurar maquinalmente um cigarro no bolso, namorava, na sua penria, os belos pacotes de tabaco de que luziam atravs dos vidros sujos do escaparate os rtulos pintalgados, quando ela apareceu. Trazia uma tigela de caldo e apenas disse, poisando-a no balco:

-  Coma! Queria agradecer, mas ela atalhou: -j me deu muito dinheiro a ganhar.
-  verdade, senhora Rosa,  verdade! A minha m cabea...

Compadecida, a vendeira no tirava os olhos dele, e, acobardado, o Algodres no erguia os olhos da sopa. Depois que deps a escudela; afoitando-se, contou dos

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seus infortnios e ouviu com enternecimento as lstimas da mulher, que tinha bom corao.

Descera de todo a noite e um luar macilento, filtrado pela cacimba, envolvia a terra num sudrio de ocre. Orneava o noroeste no guieiro, das casas, ao passo que o martelo das ondas batia a costa com maior estridor.

- Que tempo! - exclamou ela, cilhando as mos no abdmen por debaixo do avental. - H mais de quinze dias que se no pesca um cachucho, sempre os

foles do inferno a anaar o mar. Ah, deixa-me ir  lide, que tenho os recos desesperados pela vianda... - e despediu casa dentro.

Intimidado pela sua misria, suspeitosa aos outros

e portanto a si prprio, o Algodres foi especar-se contra os umbrais, olhos pasmados a ver as folestrias da areia e do vento. O grande cavalo trazia-a em pulins desde a

praia, e depois de passos e viras jogava-a ao ar

relinchando. Ela descia a terra em voo ligeiro e, danante que cumpriu a sua mesura, amainava  banda, cobrindo o trao das portas, acogulando-se contra as paredes, embebendo-se pelas talisgas. Aps uma refega outra, e l vinham os dois nos voltemos sem fim da contradana. Por vezes subiam pela rua a cima, at longe, erguendo dunas, desmanchando dunas. Avanavam de alto em alor de gaivotas, e pelos telhados as

areias retiniam como pandeiretas. Rastejavam, e por cima de tudo se urdia o tapete branco. Do pr do Sol para a manhzinha, descompunha-se a fisionomia dos lugares.

Entretanto que a areia ia alagando a rua como granizo de trovoada, comeavam a chegar  taverna os fregueses da noite, borrachos crnicos, gandaelros do mofo, cavaqueadores sem cheta. Para todos era admirao toparem o homem do tesoiro, - descalo, joelhos  mostra, engadanhado, to farroupilha como eles. E nenhum

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faltou com o seu chasco ou graa sangrenta ao luntico que baixara ao nvel comum. Apareceu a Charana, com o

perfil de fataa mais afiado que nunca, seguida do Luziairo, espigadote, a cabea sarda de golfinho, sempre muito movedia,  busca de onda em que escoar-se. E tambm ela crocitou de assuada ao bruxo da Cova da Serpe, que ficara to rico com as riquezas dos frades que calava butes de verniz e vestia labita.

Passaram palavra de que abancara no Pisco o antigo patro da companha e, propalando-se o rumor, acorreu ali meio mundo. Martimos, o mulherio, os banhistas que no haviam retirado, teimosos em esperar o regresso dos dias soalheiros, fizeram monte na taberna e  boca da taberna, que o interior era acanhado para conter tal gentaga. Todos o queriam ver e palpar; deparando-se-lhes, porm, em vez do homem prspero e bem trajado que fora, um vagabundo dos caminhos, sebento e roto, choveram sobre ele remoques e improprios. Confuso e

amarfanhado ao canto, compreendeu Algodres que os

desgraados no lhe perdoavam ser desgraado como eles. Debaixo da sua alada haviam sofrido as mais speras provaes; labutado corno negros; penado como

penitencirios. Mas no era no fel destes trabalhos que molhavam as frechas que lhe despediam. Tudo isso contava como histria antiga de que os tristes no guardam memria. De vivo, actual, indesculpvel - a sua

misria. Para l do inclemente rancor para com o infeliz,
* resto era poeira.

- Foi de quatro assobios o tesoiro! - exclamou
* Tristo Bau, piscando o olho.

- Constou que o amigo ta ser nomeado barons do Pinhal do Urso... - lanou-lhe o Barnab em tom de seriedade.

Bem urso quedou, no haja dvida - disse um terceiro.

e ns, que lhe demos crdito' - volveu o Bau.

- Um tanganho destes, com corpanzil que nem

toiro, queria deitar cartola e bengala@ Viu-se j uma

coisa assim' - gracejou a Apolnia Barnab.

Raios o abrasem, por mor dele est o tio Vermoil a fazer tijolo,

- Chut@   - sibilou o Lus Mira.      O que l vai l vai.

Comose   perpassasse por eles asa negra, os rostos de mofa entenebreceram. Decorrida breve pausa, perguntou-lhe o Savelheiro, simulando interesse:

- Vem para se ajustar com patro?
O Algodres no deu resposta,,cada vez mais plido e

apoucado contra o muro, e o Espadilha, que emigrara recentemente de Vagos, murmurou:

-  para saber o que os remos custam. Revezavam-se  volta dele, acotovelando-se uns aos outros na febre de o contemplar. A Laura Bica dobrou-se para ele, como se fosse a admirar um bicho que estivesse abaixo da sua linha visual, e ganiu:

- Olhaide, traz os joelhos rotos!  de fazer penitncia...

- Foi de contar as libras, ajoelhado no areal chocarreou o Barnab.

- Ser de penitncia - tornou a velha cia em arremedo. - Ento, compadre, pode-se ter arrependido.

-  O que espanta so os bofes deste melro - proferiu o joaquim Bica bamboleando a cabea de comambana, to enfeitada que, as vezes que se fazia notadio, a todos se representava de veado. - Arrastou a gente ao precipcio e ainda tem o arrojo de aqui prantar os ps.. .

- Ti Rosa - pronunciou o Jos Passafome, que se

mantivera calado em pleno vespeiro -, bote um litro de

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iro quero cont        ' que mo vinho. Bote, mas prime'                ar-lhe, i pergunta tantas vezes, porque tem o linguado a boca  banda. Vocs todos querem ouvir...? Certa manh, Nossa Senhora chegou  praia e disse sozinha, como muita gente que pensa em voz alta: "Est a mar a vazar." E os linguados deitaram a cabea de fora e arremedaram: "Est a mar a vazar." E, vai, Nosso Senhor, pelo escrnio feito  sua divina me, castigou-os com a boca  banda.

Debalde esperou Passafome aplausos a uma anedota que declamara com a melhor lbia histrinica e a nfase toda. Tampouco desviara as atenes do Algodres como era propsito seu. De lado, em contra, o safado do Barnab dizia:

- Tm a boca  banda a rir-se dos parvos. Aquilo contavam j com o Z Algodres.

Estrugiu farta risota, e meio enleado o Passafome pegou na caneca. Ao p estava Remgio, todo lampeiro quando lhe cheirava a briol. Trabalhado pela doce caturreira de valer ao Algodres, que via inquieto e amargurado, pronunciou:

- Ti Remgio, vai uma boa golada, mas h-de me dizer porque se enfurece o mar... Iluminou-se de claro sol o caro de monstro marinho e respondeu:

- O mar  um cadelo, meu homem. Repara tu: quando entra o barco ou saem as redes, mais ele braveja de impado.  de raiva, pois de que h-de ser?

- Cantigas!
- Cantigas... 1 Repara e vers se  fbula. S tens olhos para as pernas das fmeas, ladro'

- E nos dias, como hoje, que no vamos ao mar?
- Nos dias em que no ides ao mar, embravece-se porque sim, animal! Se o mar no bramisse, toda a gente

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era pescador, at os filhos de boa me, e o peixe no tinha mais paladar.

-   Vomec sempre tem muitas minhocas na cabea, ti Remgio! Se o mar  cadelo,  por outras razes...

- Olha, j ouvi dizer que a voz do mar era a voz de Deus; de princpio dum pai de cara direita, mansarrona e descansada. Depois, com a maldade dos homens, tornou-se to horrenda que ningum mais a entende.

- Histrias da carochinha...
- Ouve e guarda se te fizer prstimo, que o ouvi ler: em tempos, a terra tambm rugia. Abria bocas e gritava. O mar ainda grita, a est. Um dia cala-se.. .

- Cala-se e ento?
- Ento, acaba-se o mundo' Reparou Passafome que Algodres, no acto de lhe oferecer o vinho, tinha lgrimas nos olhos, provocadas pelas chufas e maldies que, sem embargo de manhas, no cessaram de o frigir, De nimo generoso, no podia levar  pacincia que se enxovalhasse homem vencido pela desfortuna, deslustre maior que bater em homem no cho. De caneca em punho, cresceu para ele:

- Seu Jos, faa favor, beba... Com brando jeito, o Algodres arredou a mo que amistosamente lhe metia a vasilha  cara. Insistiu o pescador:

-  desfeita se no bebe; no lho mereo. Quanto ao

mais, no faa caso; isto  uma cambada de cachorros que s sabem ladrar.

Depois de o forar a beber, molhou ele os beios e

passou a caneca ao Remgio para que matasse a sede e a fizesse, seguir  roda. No adjunto rosnava-se.

- E o que vos digo, s sabeis ladrar' - tornou com arreganho. - Que mal vos fez o homem? No vos pagou o jornal enquanto pde? Dizei... Depois, quando no pde, trouxe-vos presos pelo aame? De que vos

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queixais?... Olhem l: quando Deus manda o mau

tempo, queixais-vos dele@... A me que vos pariu deitou-vos ao mundo nus e sem chavo; tambm vos queixais dela? Queixal-vos mas  da pouca sorte, meus caras

estanhadas. E se quereis alvo para zupar zupai na cachmonja, que  essa a r.

Moderaram-se todos, cominados pela reprimenda de Passafome, que sabiam decidido e amigo do que era justo. Velho embora, no arreava diante do mais pimpo. Tempos atrs, para Monte Redondo, dera pulo ao pe'**       to de certo farola de gua Formosa, safara-lhe o pau das unhas e rachara-lhe a cascadura. E ainda teve pernas para se furtar  matilha que caiu sobre ele aulada: mata' mata' Na juventude agarrava duma saca de dez arrobas e, alando-a para o ombro, rodava como se levasse uma faixa de palha. A morte do Vermoil, cornos meses de cadeia, o labu que no deixou de esparrinhar sobre os inculpados, no obstante a absolvio estrondosa de todos, tornara-o metido consigo e circunspecto. Ele e o Afonso Penela haviam retomado a faina antiga na prpria companha do Pedrosa, conforme este com uma fatalidade que tivera a virtude de o guindar de servo a amo. Quanto ao Duarte Rebocho, mal se viu

livre, enfardelou a roupinha, e de lgrimas nos olhos disse para sempre adeus ao Pedrgo, que ficou a morrer por ele. Tinham-no visto na Nazar, agarrado ao remo consoante a sina com que nascera. O Passafome, com o seu natural assomadio mal refreado, o seu amor  lisura, o seu perfil hirsuto de peixe-galo, era um dos martimos curiosos do lugar. Nada se sabia da sua origem. Uma onda o trouxera, outra o havia de levar, Era pai, entre mais filhos, duma mooila gordalhuda, sereia da praia.

Andava  roda a caneca e, a passo e passo do seu giro, os agravos ao Algodres perdiam a feio mordaz e agressiva. Mas, formulados ainda com urbanidade, os repeliu Passafome:

A BATALHA SEM FIM                     223

j vos disse, atende-vos  m cabea' Este rapaz cumpriu a obrigao o melhor que lhe foi possvel. Se no fosse ele, da primeira vez que se assapou a duna, muitos de vs estarcis a adubar a horta do senhor prior. Quando foi do julgamento, ia de peito feito, tanto como o Alberto Marrazes, honra lhes seja, para tudo pr em pratos limpos.  verdade ou no  verdade? No vos fez ricos... Reparai, tambm ele no est rico. L por vos

mandar embora a certa altura, estava no seu direito. Mas j que vos queixais de ele vos arrastar queles grandes trabalhos, logrando-se e logrando-vos, agradecei que dessa feita vos tenha despedido. Quereis a minha ltima palavra? A vai. Ele  um borrego de mansido, que se

fosse comigo tnheis pago com lngua de palmo as

chalaas que vomitastes pela suja boca fora'

Gradualmente, o Passafome tinha subido de clera. Conheciam-lhe o gnio rebentadio e as fases que atravessava at a exploso. Estava prestes, e acobardaram-se.
O Pamplino, que regressara ao grau normal de loucura e

 rima, interveio com as suas sortes de farsante. A namorar o vinho que o Savelheiro mandara vir, props:

- Ti Joo Maria, deixa dar um beijo no copzio e salta um tonilho dos meus?

Est dito; mas quer-se papa final - condescendeu * arrais, no trincafio de concorrer para apagar a fogueira * que impensadamente deitara tambm a sua acha, repeso ao ver o Algodres dorido.

Subiu aquele Rei da Madureza para cima dum banco e, espalmando a mo direita em arremedo de pregador, mo esquerda no copo, ronca roufenha e monocrdica de borracho, sorriso travesso na cara de bode, desfechou a

versalhada burlesca:

Montei quando fui' soldado dois alferes e um capito,

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montei* inda no batalho o coronel emproadoMontada toda a tarimba de sargentos e tambores, montei cinco doutores quando **mejui a Coimbra; montei' um mestre de leis e um mestre de teologia, toda a douta confraria de lentes e bacharis. Ch a, bestiaga, salta de l o chicote; para ir mais a galope montei um cnego de Braga. Saiu a mula com balda, troquei-a por sacristo; montei beata e beato e toda a casta de fralda. Calcei espora afiada para montar um judeu que tira pele e mantu  gente necessitada. J farto de tanta bucha, fui, montar  Madragoa Um janota de Lisboa e uma vassoira de bruxa. AI de mim, ca ao cho,

1.a amolgando a carcaa. Diabo leve a desgraa de copo vazio na mo!

Em pleno vivrio  loa das Cavalgaduras que Montei, rompeu baluca dentro, racha em punho, despachado, o Alberto Marrazes. Seguia-o um velhote de manta, baixo, patudo, chapu bragus, e encostado ao seu cip.

A BATALHA SEM FIM                      225

Suas de velo branco, olhos que fosforejavam por baixo das sobrancelhas ensilvadas, quem ele era? O tio Manuel das Uchinhas. Diante do homem de virtude, que viera a

banhos de mar e, por causa do temporal, no tinha ainda a sua conta, inclinaram-se todos com devoo. Mas j o

Marrazes lanava em tom de desafio:

- Vendem-se bberas ou pariu aqui a galega?... e, espraiando o olhar a reconhecer a scia, e distinguindo o Algodres, acrescentou: - Bem me queria parecer. Viva l, seu Z! Viva' Sempre velo e em boa hora foi. Senhora Rosa, deite vinho' Dois em dez, para intrito.

Voltou-se a vendedeira a tirar o vinho do barril e comearam os homens, adivinhando percalo, a sair  formiga. O Marrazes correu a trancar-se na porta:

- Daqui ningum sai' Sempre quero saber quem  o

ventas de co que se nega a beber  sade do meu amigo

e apontava o Algodres. Alinhados os copos no mostrador, um a um com rasgo sobranceiro os foi distribuindo:

- Tio Manuel das Uchinhas        ... Senhor Z... Tio Mira. .. Savelheiro, meu cara linda ... Tio Passafome, para molhar a boca... Tio Penela... Barnab de Quiaios... Hem, no queres? Se me deixas com o copo na mo, vai-te j pelas trombas, malandro' Bem, bem@ Voc, seu Bica...

-  sade de Jos Algodres, por muitos anos e bons!

brindou, com sete olhos a espiar os manejos da cambada.

- Para que viva' - responderam todos  uma, erguendo os copos.

A nova rodada por outros tantos dos presentes corresponderam novas sades, francas como as primeiras no repique, mas sem alvoroo nem efuso. O Marrazes deu um topeto com a cabea, como quem sacode anojamento, e disse:

226               AQUILINO RIBEIRO

- Agora pronto; quem quiser sair que sala; porta livre.

Ningum arredou p, j sossegados quanto ao desfecho do lance. O mariola do Quiaios franqueou-se com um litro e, tirando ousio da largueza, entrou a desculpar-se de que no fora por achincalhe, nem gato-sapato, que estivera a bexigar com o Algodres, mas sim ao desenfado, modo de passar a noite.

- Seu Z - disse o Marrazes, no lhe prestando ouvidos e puxando o Algodres pelo brao -, venha aqui para o meio. Homem, parece o santo Cristo, pregado na cruz pelos judeus' Se tem coisa que o aflija, desabafe. Por si, vou ao inferno. Saber que temos negcio arrumado. Sim, senhor. Segunda-feira, se Deus quiser, voltamos  duna. Aqui est o scio em que lhe falei...

O scio era o tio Manuel das Uchinhas, com quem o Algodres meteu logo conversa, e quantos estavam quedaram atnitos. Se um bruxo pe a pata,  porque debaixo do sal h al.

- A todo o fundo do mar de areia, alguma coisa est que responde ao bater do ferro - murmurou o Mira. A no ser tesoiro,  o Diabo por ele. Canta!

Canta. Ouvi com estes que a terra h-de comer apoiou o Penela.

- Se canta, devem ser os tarambecos dos frades acudiu o Barnab.

- So as peas dentro das arcas a chocalhar - discorreu o Pamplino.

- Somos seis, mas ainda h lugar para homens honrados e trabalhadores - declarou o Marrazes. - No se d jornal; a papana, graas ao tio Manuel das Uchinhas, est garantida. Se, por quite e livre, algum de vs quer entrar na malhoada, passe para a minha direita...

Foram uns quinze, que no andavam inscritos nas companhas, a dar o passo. Aos outros algemava-os a

A BATALHA SEM FIM                    227

matrcula, mas em fim de safra, que no vinha longe, protestaram alistar-se na duna, se ainda fosse tempo.

O Manuel das Uchinhas, que no erguera voz, desembrulhou~se da manta, semelhante a faquir que vai executar em pblico as suas fantasias. E com voz descansada, longnqua, corno se estivesse a ver por detrs dos dois carros de anos, sentenciou:

- O tesoiro l mora, juro-o  f de quem sou. j em

tempos eu e Pedro Algodres, que Deus haja, lhe andmos na devassa. Mas aquele amigo no reunia as condies todas. Muito menos o Bixollrn. Vs nascestes para o

desencantar. Convosco no poder mais a teimao do Careco. Est assente como em tabelio: dou batatas, cdea, a lgrima de azeite e veras da horta, tudo o que granjeio. Cobres no avezo. Meu genro veio-me com panos quentes: porque torna, porque deixa, fazia mal. T rua, quem manda no que  meu sou eu! Dou tudo e no tenho medo de perder, Algum duvida... ? Sonho, e vejo com as plpebras fechadas as riquezas no areal. Invoco as minhas artes e as artes dizem o mesmo. Deito as cartas e sempre as cartas tilintam oiro. E verdade! As             cartas, nas minhas mos, nunca mentiram.     Quereis vs ver?... Salta de l o baralho,  Rosa@

A estanqueira deu-lhe as cartas, que baralhou, dividiu em pacotinhos, rebaralhou. Batendo-as em seguida no balco, mandou talhar. Tirando urna a uma, leu como em livro aberto a histria da grande fortuna a desenterrar.

E no som da sua voz, porque a sua laringe tinha, em despeito da idade, timbres de campainha, mais que na expresso verbal, comeou a ouvir~se chocalhar oiro e prata. O Algodres o ouvia, restitudo  vida, no seu

arroubo apenas tendo sentidos para as passagens faustas do cartomante:

228               AQUILINO RIBEIRO

c temos no sete de paus a sorte grande, embora se atravesse um homem de toga - nove de oiros - que esta dama de copas arreda para onde no faz mal; o tesoiro

l est, maravilhoso mais do que se imagina, di-lo o terno de copas; pudesse esta importante pessoa deitar-lhe a unha - valete de espadas - fazia-o; mas acode uma fora sobre-humana, representada pela dama de paus, e a sorte

grande, outra vez o sete de paus, entra nas arcas - s de paus, o rico s de paus - de quem de direito. E  dinheiro, dinheiro, dinheiro a mais no ter conto.

- Ficais podres de ricos@
- Mais ricos que o Fara'
- Graas, graas ao Senhor que se acaba a misria'
- Lembrai-vos do que fostes. ..
- Ento este mundo h-de ser sempre inferno?@ Viva o Jos Algodres! Viva o tio Manuel das Uchinhas!

- Alegrai-vos que ides rebentar de fartos@ - exclamou o feiticeiro, tirando nova carta.

Todos em volta, olhos acesos de cobia, ouviram as

moedas de oiro rolar e tinir, inundarem o soalho, subirem para os bancos, as mesas, os escaparates da taberna, contraporem aos muros lbregos o seu doirado macio, encherem a casa at o escama-peixe, como l fora a telhados, a ruas, a ptios, a areia do mar peneirada pelo vento.

xii

- Quinei' - rouquejou a voz avinhada do Savelheiro.

- Diga os nmeros - intimou o Penela, que tinha o

saquitel dos dados.

- 22... 4... - e no foi mais longe o arrais, surpreso e quantos ali havia, estirados no areal  sombra do Posto, a jogar e a ver jogar o loto, com a brequefesta que desabou sobre eles: cavaleiros, luzentes de suor e vernizes, em garranos apoquentados das moscas; uma sementeira de ces, longos como tnias; moos de matilha, grulhentos e malcriados, mais patuscos que os galgos. Alvoroaram-se os pescadores; acudiu  varanda o fiscal de piquete, bofes ao lu por entre as bandas do dlman, na mo a canetinha de dez ris com que em escritura tmida e claudicante se ocupava a lanar as contas da lota. Suas Senhorias, no meio das quais realava Lousal filho, da importante e acreditada firma Lousal & C.a, vinham acolher-se  praia durante as horas de cancula para, depois do almoo, de novo romperem pelas dunas em batida s lebres. Atiradas as rdeas aos martimos, que acomodaram os cavalos na estrebaria da guarda, Lousal filho dirigiu-se para um dos palacetes que, face ao macadame, erguia a empena espevitosa. Mandara-o construir o pai para a temporada dos banhos; acontecia porm que, distrados os donos pelas praias elegantes, s de raro em raro abrisse portas a visita ou rapioca.

230              AQUILINO RIBEIRO

Ao tropel no vestbulo, acorreu Benedita, gorda, baixa, vesga, sardenta, bexiguda, e todas as mais pintas que deve ter, como a truta de crrego, a cozinheira de lei. Ao v-lo, conhecendo-lhe  lgua o nimo impulsivo e pouco sofredor, antes que ele jogasse uma pedra, despediu ela urna saraivada.

- Mandou-me para aqui, mais valera pr-me a esfregar os quelhos corri a lngua. A casa metia nojo aos porcos. Fartei-me de varrer lixo e telas de aranha. Cavacos, no havia: para a quezilia ser completa, esqueceram o pudim e os cheiros na estao. Vinham j com a dentua afiada para a trincadeira?... Tm que esperar!

- Vai-se de automvel pelo pudim. Que mais falta?
- Que mais falta,  boa! Falta tudo, meu senhor, tudo, menos a minha pacincia, que  de santa. Peixe, nem rasca!

- Que dizes?
- j disse: peixe, quem dera! Os barcos tiveram

medo do mar.

- Inventasses outros pratos...
- Esto trs galinhas no forno. H a perna de vitela; mas que monta? S a criadagem que para a vem come um boi - e com a mo direita descrevia uma parbola, semelhante a funda que ensaia o tiro.

- No te levar o Diabo para azelha! Eu vou por peixe e resmungando despediu porta fora. No esbarrondadeiro da praia, onde os martimos embasbacados faziam roda aos figuros embasbacados, Lousal foi direito ao arrais,.

- Vocs hoje porque no entraram, Joo Maria?
- Tem estado a vaga muito soberba.
- Ora adeus! Mais calmaria s no mar Morto.
- Afirme-se l adiante... Dilatou Lousal a vista pelo oceano e, atravs da cortina de nvoa, quase difana, que flutuava sobre o con-

A BATALHA SEM FIM                     231

trabanco, distinguiu os grandes rolos cor de garrafa, cerzidos de espuma, galgarem e retinirem na terra corri trepidante estalada. Longe, a gua arfava crespa e negra, picada de raras rtemulinas, volteis como penugem branca.

- Cho, cho, no se pode chamar - decretou Lousal. - Mas j os tenho visto sair com mar incomparavelmente mais cavado. Ah, extinguiu-se a raa do Algodres velho. O rapaz dele?

- O Z? Anda para o Pinhal do Urso a desenterrar o tesoiro.

- Forte maluco' O tesouro est aqui - e a m<) enluvada apontava o mar.

- Quem    sabe' - exclamou Tristo Bau. - E que seja isto tesoiro,  para quem .

Transportado por aquelas palavras  situao miservel e escrava em que combaliam os pescadores, Lousal calou-se. Depois de curto silncio, durante o qual lhe perpassaram rpida e sucessivamente pelo esprito a negrura da existncia e a sua claridade, tornou, erguendo olhos para o arrais:

- Esto decididos, decididos a no deitar redes?
-  grande risco' - encareceram muitas vozes.
- Qual risco' Eu tomo a responsabilidade.--- eu vou com vocs. Onde pra o Pedrosa?

Tinham-no visto descoser por detrs das barracas, mas ningum dava razo do seu paradeiro. Andaria para o quintal a palpar as uvas...

- Toca-se-lhe o bzio. Joaquim Lousal empunhou a concha s mos arribas e, enchendo as bochechas, com o flego de homem bem comido e bebido, arrancou um clangor alto e rolado de fanfarra.

- Bofes duma canal - celebrou o Barnab de Quiaios.

232               AQUILINO RIBEIRO

- Quem quer, poupa-os. No que  minha boca no vem cachaa - redarguiu ele em leve tom de vituprio para os pescadores.

-  que o patro desconhece o que seja entrar no mar com cacimba - proferiu o Savelheiro, interprerando o

sentimento comum e no menos pro domo 5ua.

- _e andar ao remo com a camisola colada aos untos - acrescentou o Passafome.

Haviam-se aproximado, dl    ze tu, direi eu, da taberna do Pisco, e Lousal, descortinando a senhora Rosa, tratou de sond-la, para o caso de ser preciso reforar o almoo a

cargo de Benedita. A derreter-se em melao diante do "menino Quim", que estava longe de supor na "piolheira", abonou-se com o que tinha, frangos do S. Joo, coelhos de orelha quebrada, ndios como lontras... talvez conseguisse desencantar um marraninho de leite, era abrir boca. No comenos, chegava o Pedrosa. Com a arte e o resto, herdara as manhas do defunto amo, e vinha de cabea descoberta, descalo, os nastros das cerollas a pingar por baixo da cala, muito expedito, a grandes pernadas das gmbias tortas. Atrs, ronceira, de canos e

muito arreada de oiro, Cristina, sua mulher. Trocados os cumprimentos, o arrais adiantou-se a explicar o toque de bzio, rematando:

- No h dvida que o mar amainou um cigalho, mas quem manda  o sor Pedrosa.

O mestre avanou para a ribanceira e, mos nas costas, em compasso, ps-se a observar o cariz das guas. Depois, cuspinhando fora a petisca, disse para o fiscal, que se tornara, por virtude das funes exercidas na

borda h boa dzia de anos, em manual prtico de meteorologia:

- Que lhe parece, Jos Rodrigues? No intuito de fornecer prognstico capaz, quedou-se o cabo frente ao oceano, mais hirto que arspice, em

A BATALHA SEM FIM                    233

interrogao. As vagas vinham do alto, geis, sim, e longas como batalhas, mas s cem braas enrodilhavam, descomuntando-se em maretas, que tanto se descompunham em espuma, como, roto o mpeto, corriam incertas para a costa. Uma faixa mate, da brancura do coalho, barrava a extrema linha do horizonte. Sobrepondo-se-lhe a todo o ls, alcandorava-se um fuminho cor de bronze, como que o espinhao mal debuxado de alterosa e longnqua montanha.  desses estratos que se gera a borrasca, e o guarda acabou por formular:

- Mais arrufado no julgo que se ponha. H a atender quela nuvem, l fora; mas no carregar para aqui.

Volveu o Pedrosa a escogitar. Amigo de luzir afoiteza ante os convidados e j impaciente, Lousal exclamou:

- Que diabo, eu tambm percebo! Com a ardentia que faz, o mar s pode melhorar. j disse, tomo a responsabilidade e, se preciso for, vou ao remos.

- Ora essa - protestou Barnab -, um fidalgo ir aos remos!

- No   irei aos remos, mas vou no barco. Algum de vocs quer vir? - perguntou para os da comitiva.

- Eu apenas uma vez atravessei o Tejo e a meio rio pareceu-me ver o Adamastor - respondeu um que era tropa.

Eu enjoo facilmente - proferiu segundo, diplomata de carreira e peralta. - No tenho prazer algum em dar espectculos de mau gosto.

- Vai pequename? - questionou outro, scio do Tauromquico e conquistador do Chiado. - Se no vai, que graa tem embarcar num chaveco?

- Eu sou necessrio  sociedade - pretendeu o mais moo de todos, j calvo e simplesmente rico filho-famlia.

- Eu ainda no fiz testamento - emitiu um tal, bacharel em leis e celibatrio.

234               AQUILINO RIBEIRO

-Eu vou, querido amigo - anunciou por fim aquele que era o ilustre e ignorado romancista do Filho mais Novo de Zebedeu.

De tantos apenas um se oferecia para tentar o lance na )angada de Medusa e fazia-o, confessava ele, no por valorosidade, que no sabia o que era, mas para sentir ao

vivo a aventura perigosa do pescador.

- Este cavalheiro  homem de letras - disse Lousal e vai met-los a todos em letra redonda. Faam de conta que esto diante do fotgrafo. Savelheiro, toca a aparelhar'

- O barco est aparelhado.  s rol-lo para a gua.
- Quantos de vocs sabem nadar? - perguntou o escritor.

Da numerosa turbamulta que tripulava quatro barco?, apenas cinco ou seis conheciam a natao. Por entre dentes, o romancista comentou:

- Aqui est no que deram os descendentes dos navegadores!

A companha tinha-se acercado da orla de par com farto concurso de povo. Alpendurando as mos sobre os olhos contra o lume de espelho em que se abrasava o

mar, os homens maldiziam duma temeridade que podia despach-los para o outro mundo. Faziam coro as mulheres, esfalfando-se a ganir que quem queria comer peixe fresco fosse pesc-lo ou encomendasse-o ao Vargas da Violeira. De salto abarcou Lousa] o aranzel e disse

para o arrais:

- D-me licena que oferea uma pinga aos homens?
- Sim senhor, mas ho-de beber por minha mo. Tornaram a subir o aclive de areia at o Pisco. Lousal pediu um cntaro de morraa e  porta da taberna formaram roda martimos e mulheres dos martimos, mulheres da belfurinha e dos levadios, garotos que se

enroscavam s pernas dos pais e garotos  sirga, curiosos,

A BATALHA SEM FIM                    235

sardinheiras e at almocreves remediados. E, enquanto Lousal servia o mulherio por tigelas e canecas, o arrais media os dois decilitros da lei a cada remador. Muitos

torceram a cara.

Quim Lousa[, da opulentssima firma Lousal & C.', compreendeu a nusea dos esfomeados e mandou vir quanto po, bacalhau, latas de conserva havia na quitanda. Coalhou-se a areia de vitualhas e as companhas, fiscais, arrematantes da lota, Pedrosa com a mulher, tiraram o ventre de misrias. E at, em guisa de arrebenta-diabos, os )anotas de Lisboa petiscaram. Com semelhante lastro, o arrais alargou, tambm, a rao de vinho.

A rilhar a ltima cdea, a hoste brbara, esfarrapada, no meio da qual os alfacinhas rescendiam tanto em suas guas de cheiro que as varinas sentiam tonturas, avanou para a borda. Eram mais espaadas, porm sempre alterosas, as ondas. Mas j no havia medo. Treparam os dois fidalgos para a proa do barco; ocuparam os casteleiros os seus postos; plantou-se o arrais  popa, mo no rooeiro, debaixo do p a corda da muleta; ergueu-se no seu lugar o vareiro, mudo e roto como espantalho.

Rolaram a nave e, ao primeiro e srio chapinhar da gua, o resto da tripulao saltou os bordos. O regedor da terra, o mestre, remadores dos outros barcos, dez, quinze mulheres empurravam com a muleta. Os homens devolutos puseram ombros contra os costados, Veio uma vaga, alagou a todos; veio segunda, despegou o esquife da orla, Duas remadas, e empinou-se, desapareceu por detrs dum mar. Insrantancamente rompeu na praia um alarido pavoroso. Outro man o arrais fez sinal e, quando o arete verde ia a lanar a marrada, o barco pulou.

Rema, rema a vante! - e quela voz os remos

vergastaram rijamente a onda furiosa.

Crescia sobre eles segundo vagalho:

236               AQUILINO RIBEIRO

- Fora! Fora! Louvado seja, l iam safos, entre duas campas, a salvar o contrabanco. Ainda bailava o Lrio de Jeric, mas o

perigo era vencido. Na praia amainara a gritaria das mulheres. Com ar de desprezo, como se cuspisse no monte, o Savelheiro lanou-lhes:

- Cabras! Punho sempre teso na corda que o calador ia desenroscando, o arrais buscava orientar-se  boa terra de mar. Rezavam pelas almas do Purgatrio, a quem so de grande lenitivo as preces anuviadas, e um cantador ergueu a voz:

No se v o fundo ao mar, Assim, mulher, ao teu peito, Se me quiser afogar, Em qual dos dois eu me deito?!

quela toadilha, os remos bateram a gua em cadncia e o meia-lua correu como galgo preto em charneca. A prumo, balouando levemente ao embalo da onda, as

bicas da proa e da r pareciam mos em transe, a suplicar. Comearam a decrescer as casas do Pedrgo; tornaram-se diminutas como pedras dum jogo desmanchado; escureceu o verde nas hortas; pela praia os vultos transverteram-se para sombras ftuas. Uma cercadura de espuma envolvia o barco e, esflocando-se  popa, deixava um rabo-leva de anil e ris que no tinha fim. O mar

enrugava-se faiscando e, no balouo das suas pregas e repregas, dormiam garas e garajaus. Ao escritor afigurou-se que ia agarrado  juba dum leo.

Por deferncia para com os fidalgos, o arrais andou  busca de "ensejo" at onde o alcance lhe permitiu. Ao primeiro fervedoiro de gua aprecivel, indcio de cardume em derrota, bradou:

A BATALHA SEM FIM                       237

Ora a! Sustaram os remos. Em tom rude, de ladrio, o

Savelheiro encomendou o lano s pessoas da Santssima Trindade. E, remando  r, calaram a rede. Ao afundir-se o saco, com entono de desafogo, ergueu nova imprecao:

- Largai saco ao mar; rezai o credo com boa f; v ele em

louvor do Santssimo Sacramento, para que o mal saia para fora e o bem entre para dentro.

Salvo da rede, sem os milhares de quilos que o pejavam, o barco respondeu ao espadanar dos remos pulando alegremente na superfcie das guas. Iaram a bordo o pavilho de festa. Pouco a pouco foi avultando a chanfradura da costa e, mais dentro, a laguna doirada dos areais, a mancha opaca da floresta, Pedrgo - tabuleiro de cubos negros. Um fuminho ia-se carmeando e era a fimbria da mata. Merc da nvoa que flutuava sobre a terra, parecia tudo de pernas para o ar. Condensaram-se mais as coisas; ressaram silhuetas; lobrigou-se o Pedrosa, plantado no cho branco, a ver o seu bem guardado pelo Anjo Custdio;  varanda do Posto, o

fiscal devia assestar o culo de ver ao longe. Na franja clara da praia l estavam os senhores lisboetas, estatelados na areia, a sonhar com as meninas do Chiado.

A passagem do contrabanco fez-se sem agruras nem aparato. O arrais aguardou a chapada da onda e deixou-se levar; a alaprema formidvel foi dep-lo em terra, manso, manso como as hacaneias que dobravam o

joelho para as donas apearem.

Romperam logo os boizinhos de touo curto no

manejo do arrasto, acicatados mais que de medida em homenagem aos forasteiros. Joaquim Lousal triunfava.  alegria que lhe era prpria, com o seu tanto de pancada, aliava-se agora a satisfao de ver as coisas passarem-se a preceito do seu optimismo. Enquanto no

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arribava a rede, o vinho correu a rodos. Emborrachou-se quem quis e o Pamplino, com vela e piela homricas, subiu  varanda do Posto a personificar nos sete pecados mortais os sete figures de Lisboa.

Saiu miraculosa redada de sardinha com linguados, chocos, peixe-galo de permeio, A tia Rosa recebeu ordem de cozinhar uma gigantesca caldeirada para as companhas. E, a poder de bebedeiras e indigestes, a data ficou para sempre memorvel na praia faminta.
1 O escritor tomava notas e deglutia  grande. A altura do refogado do choco, murmurou:

- Est sublime, mas amarga um pouco.
- Amarga?
- Sim, e mais s o vi pescar! Mal abrandou o calor, os cavaleiros meterem de novo cara s dunas, em batida s lebres. A perder de vista, no se divisava mais que branco e rtilo areal, tatuado por linhas paralelas de mato seco, ferruginoso, que fora bero do penisco e ajudava a planta, anos e anos rasteira e humilde, no trabalho longo e tenaz de firmar-se no solo mvel, cosendo-o e passajando-o com razes compridas e finas como cordis. Era por baixo desses ramos, mirrados como ossos,  sombra das quatro agulhas verdes dum pinheirinho ano, folhio de samouco ou medronheiro, que as lebres deviam dormir a sesta para regalo dos monteadores desenfadados.

Se bem que os ales corressem  frente com a ral toda, Suas Senhorias, a impar de fartos, mantinham um cmodo chouto de palafrm, mais duma vez passeando pela pescoceira em suor o leno aromtico. Aps as dunas de plantio, depararam -se -lhes, projectadas ao norte, as dunas virgens, tais COMO o vento e o mar as haviam concebido em estupendo caos. Era um arraial de monstruosos vultos cor de prola, em cujas arestas brincavam as mais ilusrias e fantsticas miragens. Linhas,

A BATALHA SEM FIM                     239

volumes e faces pareciam estar na primeira hora do gnesis. Combinando-se, penetrando-se, dissociando-se, revestiam todas as formas e nenhuma lhes era duradoira. No eram montanhas e havia nelas o ar asctico, um

pouco admirado, que as colinas erguem para o firmamento; no eram planaltos e ofereciam aos olhos as mais longnquas perspectivas; no tinham arquitectura e

lembravam um campo de runas, onde se alteassem ainda pirmides truncadas de mrmore e de alabastro. Pois que no eram fantasia dos olhos, andara o acaso ali ensaiando as mil e uma sortes inditas de prestidigitador sem igual. E com elementos to simples excedera o imaginvel.

A todo o ls dessa paisagem de espanto e de silncio estendia-se, a defender as sementeiras, uma negra e hirta estacada de tbuas. E era como intrmina caravana subindo e descendo esforadamente o cho onduloso e alvadio dum deserto.

Ante essa baliza a cavalgada obliquou  mo direita, rumo ao Pinhal do Urso. E, ora a trote, ora a galope, foram dar  duna em que um punhado de homens se

obstinava a procurar a felicidade. Uma goela s escncaras de muitos cvados de dimetro; meia dzia de farroupilhas, to negros e hediondos de suor e poeira que assustariam homem valente numa estrada, s varas de dois sarilhos, na descarga e remoo do entulho; obra doutros tantos no fundo do poo, manobrando a p e a

sachola; em volta da duna, montes e montes de desaterro que lembravam eira com seus rolheiros - tal foi o quadro que ao lance de olhos se lhes anteps.

Quando sentiram a cavalgada estacar, mostrando jeitos de querer instruir-se da natureza da obra, Algodres e

Marrazes, de ar to facnora e pobreto como os mais

pobretes, saltaram da cisterna. Caminhando para Lou-

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sal, seu vago parente, como  de regra entre filhotes da mesma portela, o Marrazes salvou:

- Viva l o senhor primo@ Desculpe no lhe dar a

mo, mas anda emporcalhada da terra.

- Ento esse tesoiro? - inquiriu Lousal, dobrando-se do cavalo, no tom despreconcebido de quem faz a

pergunta mais terra-a-terra deste mundo.

Ante o ar sisudo do patrcio e dos outros figuros, um pouco ao desabafo, um pouco para comprazer com suas
1.importncias, o Algodres contou dos seus trabalhos e f inquebrantvel. Desabamentos imprevistos, a ventania, a penria de capitais haviam alongado as pesquisas muito alm dos seus clculos. Estavam na quinta tentativa, mas agora era de vez que a cova ia escorada por mo de mestre. Sim, tinham j uma fundura de respeito, mas, at botar onde h meses, fartar-se-iam de cuspir s mos. Tambm se desta feita falhavam, a no ser que lhes viesse ajuda do Cu, punham trancas ao negcio. Nem Suas Senhorias podiam imaginar o dinheiro ali sepultado! Queria saber o senhor Quinzinho o que mais os apoquentava? Que o Governo quisesse merer ali a para. No tinham sido pequenas as dificuldades ocasionadas pela morte do Vermoil, como se algum lhe tivesse culpa. Com a renncia do Eudxio, a Administrao Florestal voltara a entremeter~se. Felizmente que a licena estava passada em nome de ambos, seno ia~se tudo quanto Marta fiou.

Em torno dos dois exploradores os cavaleiros formaram meio crculo. Rolando o polegar sobre o indicador, disse Lousal:

-  E baguinho?
- Tivemos a sorte duma alma boa nos socorrer. E onde menos o espervamos!

- Mas que indcios possuem de que debaixo da duna esteja o tesoiro? - indagou o homem de letras.

A BATALHA SEM FIM                     241

O Algodres citou a pgina do velho livro e todo o maravilhoso que se seguiu ao sonho revelador.

- Vamos por partes - tornou aquele senhor com brandura, mas fitando-o ao mesmo tempo com uma fixidez que incomodava. - Admitindo que a passagem do alfarrbio  incontroversa, porque h-de o resoiro estar debaixo desta duna e no doutra?

- E porque h-de estar noutra e no nesta? Sonhei c... vi os milhafres que, segundo o texto do livro, me indicariam o lugar... Mas no  tudo. Multas vezes me sentei na areia, de olhos no mar, a consultar Deus e a conscincia.  fora de mirar para as ondas, batidas pelo sol, despregava-se-me a alma da carne e da Terra. E uma voz to real e to humana como a de Vossa Senhoria dizia-me: mos  obra, o tesouro l est!

-  a mstica de todos os tesoiros encantados. Mas, dando de barato que haja riquezas sob a duna, como niede... mede o qu?.. mais de duzentos metros de extenso, por cem de largo, quem lhes garante que o poo vai bater no ponto ideal?... Questo ainda de dupla vista?!

-   Verdade que essa dvida nos surgiu de princpio, tanto assim que a escavao deitava uma roda quatro vezes maior. Ora aconteceu que  profundidade de oito braas, mais palmo menos palmo, quis a fortuna, no sei ainda se a boa se a m, que marrssemos no tesoiro.

- No tesoiro?'
- Sim, senhor. Um dos nossos espetou o ferro e bateu nas arcas - afirmou o Marrazes.

-   Esto certos disso?
- Como da luz que tios alumia. A pancada tocou em

cheio e ressoou. Que podia ser nas entranhas do areal, onde no h pedra, nem saibro duro, nem nenhum violo?

- Podiam ser toros de pinheiro... duma antiga der-

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rubada - respondeu o estranho sujeito ao sorriso confiado do Algodres.

- Dessa o livro eu. Olhe... - e o Marrazes, apanhando do cho um sarrafo de carcdia putrescida, apresentou-o com ar triunfante.

Calou-se o senhor que era curioso. Em tom levemente sardnico, Joaquim Lousal proferiu,.

- Oxal que sejam felizes! No fundo da buraca, enevoada pelas sombras da tarde, vozes de ala! larga! e o rascanhar das ps na areia soavam, a pequenos intervalos de silncio, fnebres como trenos em cemitrio. Imprevistamente, ao cabo duma dessas pausas assombrosas, pela garganta de pria que se no via, o mar desbicava-se com a terra:

Reservo igual sepultura A fidalgos e a plebeus; Minha mortalha de alvura Vale bem teus mausolus.

E era um modilho gerriebuhdo, de mareante, em

ritmos negro e roxo dum fadrio canceroso, para l da vida e da morte.

- Para que querem o tesoiro? - perguntou o escritor, acordando da cisma que o tomara.

- Para que h-de ser... ?@ - sorriu o Alberto Marrazes, olhos e dentes a brihar.

- Mas que planos de vida traaram---?
- Ora, Vossoria est de mangao. Num impulso de piedade Joaquim Lousal repartiu pelos maltrapilhos o dinheiro que trazia. Seguiram-lhe o exemplo os mais senhores. Orgulhosamente, o Algodres declinou o bolo que lhe davam.

-  paradoxal que estejamos a socorrer prximos milionrios - chalaceou o diplomata ao tempo que se

A BATALHA SEM FIM                      243

esportulava com bizarria. - No era mais razovel constituirmo-nos em accionistas?

Em seguida s bolsas, abriram-se as cigarreiras. Mas o

tabaco amarelo, opiado, nauseava aqueles fregueses do kentucky. Lzaro Brs e Lus Mira, que haviam acudido ao bodo, preferiram o cigarrinho de embrulhar do romancista.

- Tambm vocs aqui andam? - exclamou Lousal, abanando a cabea num morno de d.

- O homem vive de esperana - disse o Mira.
O Lzaro limitou-se a encolher os ombros. Naquele trejeito contava a"hlstra toda da sua alma doce, fatalista, atreita  aventura, contagiada pela vontade obsessiva do amigo.

j o Sol declinava, foram-se dali a brida lassa, orla do pinhal a baixo,  vista do mar.

- A engenharia teria resolvido o problema em trs tempos - emitiu o tropa. - Era questo dumas dezenas de barricas de cimento e verga de ferro. Pelo sistema do pai Ado, nem em cem anos.

- Com seres arqueolgicos drama arqueolgico, necessariamente - disse o bacharel.

- Pelo contrrio, nada mais actual - contestou o escritor. -  o drama de ns todos, em sntese.

- Salvo seja, a este espelho no me veio eu' exclamou Lousal que, por detrs da fachada de estabanado ' era o mais prudente dos homens. - Ento no so doidos varridos? j no tm camisa e ho-de deixar ali a

pele. O lavrador da Ervedeira, que o Algodres conseguiu sugestionar, vendeu tudo ou hipotecou, e milagre foi que lhe sobrassem dois palmos de terra onde cair morto. Eu, se fosse autoridade, mandava-os prender.

- Andava mal, meu amigo - respondeu o escritor.

No h direito de proibir a loucura, o que ns, homens comuns, chamamos loucura, de circular desde

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que no implique com os transeuntes. Este Algodres , de resto, bem humano. Visto em si, no passa dum revoltado, um cabecilha de revoltados contra a sorte. Situado no seu plano, quer dizer, no microcosmo que  a

terra portuguesa, pobre, retrgrada, extraviada da vocao martima, desiludida do esforo til e sempre sebastianista, que mais legtimo que o Algodres? A dor e

servido do pobre, a preguia do frade, a estupidez do fidalgo so o nateiro em que mergulham estas cepas. Quando no so maninhas de todo, enxerta-se nelas e

floresce a rvore maravilhosa do sonho. Mas que sonho' Um sonho que envolve a existncia como redoma de bronze. Fora, no h mais que o vcuo desolador. Dentro, v de construir castelos, escrever nas paredes claras do crcere, estrebuchar de olhos no mundo, solicitado pelo mundo, batalhar sem fim, no reparando que se est prisioneiro. Por esta faceta, ainda, o drama do Algodres  cstiico, digamos.

- Fazem-me pena estes diabos! - disse Lousal.
- Bah, cada um cumpre o seu destino. De maneira geral, a luta do homem, a obra de idealismo  aquilo. Amplie-se a aventura da duna, e teremos a aventura da humanidade no tempo e no espao. No conseguir evadir-se! - e a mo do escritor descreveu ao alto uma linha que copiava a curva do hemisfrio. - Entretanto, perfura-se, esbarronda-se e torna-se a perfurar o areal em que assentam todas as nossas construes, at que ao cabo de sculos ou milnios de sculos, pouco importa, venha o abafadoiro inevitvel.

Entardecia. Os galgos levantaram uma lebre e, com a galopada, os gritos, a febre do lance, aquelas vagas ideias negras caram como tudo, amor, cincia, bem e mal, homens e naes, na universal voragem.

Baiona, 1930-31.

ROMANCES COMPLETOS DE AQUILINO RIBEIRO

Primeiro volume A VIA SINUOSA

Segundo volume TERRAS DO DEMO

Terceiro volume ANDAM FAUNOS PELOS BOSQUES

Quarto volume
O HOMEM QUE MATOU O DIABO

Quinto volume A BATALHA SEM FIM

Sexm volume MARIA BENIGNA

Stimo volume AVENTURA MARAVILHOSA

Oitavo volume S. BANABOIO, ANACORETA E MRTIR

Nono volume MNICA

Dcimo volume VOLFRMIO Dcimo primeiro volume LPIDES PARTIDAS Dcimo segundo volu&e
O ARCANJO NEGRO

Dcimo terceiro volume CINCO RIS DE GENTE

Dcimo quarto volume UMA LUZ AO LONGE

Dcimo quinto volume HUMILDADE GLORIOSA

Dcimo sexto volume A CASA GRANDE DE ROMAKIGES

Dcimo stimo volume QUANDO OS LOBOS UIVAM
